Crônicas 2015-2016

[ Crônicas do mês ]

Última crônica de 2016 – Dezembro.

Enfim, desejo o melhor Natal e o melhor Ano Novo que cada um puder fazer ou proporcionar aos seus entes queridos, ou a si mesmo. Um dia de vida simples, mas com muito amor, serenidade e humildade, creio que com esses sentimentos ainda será a melhor resposta para esse caos. E se te atiram pedras, faça uma casa, um lar, com elas. Pelo menos tente. Talvez valha a pena, não sei. Também procuro respostas. Um dia de cada vez, porque tudo muda (nós também), o tempo todo.
Abraços Dobrados Agradecidos e tentando ser Livre.

Natal e Ano Novo Anarquistas

(Anarquismo: teoria social e movimento político, com presença atuante na história ocidental durante o século 19 e na primeira metade do século 20, que sustenta a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado, sendo este considerado dispensável e até mesmo nocivo ao estabelecimento de uma autêntica comunidade humana − Houaiss).

Final de ano é sempre um porre. Ainda mais com essa crise econômica e política. A minha vontade é de reunir todos os parasitas e seus afins, e jogar um inseticida poderoso na máquina política do Estado, e eliminar todos. Pegar o dinheiro dos dez por cento mais ricos e dividir igualitariamente com o mundo em forma de educação, saúde, alimentação e moradia.

Mas, a violência gera mais violência. Estamos todos perdidos, sem esperanças pra 2017. Contas, contas atrasadas, alguns sem emprego, outros sem trabalho e sem décimo terceiro, pois foram obrigados a virar autônomos, microempresários individuais (hahaha), e estão se virando nos trinta.

Rir ou chorar?! Como será a ceia de Natal, sem ceia e sem presentes pra todos, com “lembrancinhas” só para as crianças? No Ano Novo, na passagem, um minuto de silêncio… nós ficaremos olhando para o infinito e relembrando tudo que não fizemos, tudo que fizemos de errado e os sonhos que não realizamos. Esqueceremos as pequenas coisas boas que nos aconteceram (vamos tentar lembrar?). Sim aconteceram, mas sempre nos esquecemos.

Tirando tudo isso, proponho termos um Natal e um Ano Novo diferentes, sem as expectativas de consumo que a mídia nos enfia goela abaixo, para os bancos e megalojas lucrarem com os empréstimos e seus juros exorbitantes.

Um Natal simples, a ceia poderá ser só com um prato (pode ser arroz e feijão) ou sopa de pedra mesmo, mas feito com muito amor, salpicado com salsicha, uva-passa, sei lá… A sobremesa: uma fruta da época, cortada em formato de estrela. Para brindar, um suco ou água (quer bebida mais valiosa?) com uma fatia de limão refrescante, com gelo ou um simples canudinho colorido. Fodam-se os chefs gourmets e seus minipratos caríssimos e enfeitados, outra forma dos restaurantes ganharem dinheiro em cima de pequenas porções, rs.

Para os presentes, algo feito por você mesmo, criativo, como um poema, uma carta, um rap, um vídeo ou fotos com a retrospectiva dos momentos mais legais que você compartilhou com a sua família, seu namorado, seu melhor amigo, talvez um livro comprado num sebo, uma roupa diferente comprada num brechó.

Quem sabe, apenas dividir aquela bolsa ou a camiseta que a sua amiga tanto cobiça, aquele jogo de futebol que você nunca aceitou jogar com o seu colega de trabalho, aquele sorriso ou abraço que você nunca deu em seu pai ou sua mãe, um dia dedicado somente ao(s) seu(s) filho(s), um telefonema pro amigo da infância. Que tal?

Tem um ditado que diz: se não aceitamos o presente (ofensas, ódio, desamor, desonestidade & tantos outros) ele fica com a pessoa que quis te presentear.

Sendo assim, por um dia apenas, nesse Natal ou Ano Novo, não vamos aceitar o que mundo, o que os governantes querem que aceitemos: que nos sintamos impotentes, uns zés-manés sem vida. Você dirá que é alienação, eu contradigo, SOMOS LIVRES, e podemos fazer algo diferente, fugir das regras impostas, sermos capazes de sorrir com a adversidade, acreditar que temos capacidade de nos reerguermos, que somos capazes de resistir ao consumismo desenfreado, que podemos viver sem o celular da última safra, das roupas de marca, e se não pudermos viajar nas férias, se ficarmos sem as comidas caras (tudo vira merda, mesmo!), tudo bem, vamos passear nas ruas, nos parques (fazer um mutirão de limpeza, ou de conservação, cuidar do que é nosso), andar de bicicleta. Pois ainda estaremos aqui, respirando e unidos com a nossa família, com nossos amigos, com o nosso gato ou cachorro ou apenas sozinhos, com nós mesmos, se preferirem.

be-happy-cover

O que o mundo, o Estado, não pode nos tirar é a nossa esperança, a nossa fé, o nosso compromisso com nós mesmos. Acredito que o melhor ainda é fazer algo, mesmo que seja mínimo, não somente reclamar ou protestar, temos que agir e reagir e nunca desistir.

#

Crônica de setembro, outubro e novembro

calendar2017

Impermanência
Tereza Yamashita

Existem fases, momentos e acontecimentos em nossa vida que não conseguimos entender. Passamos anos nos questionando, e de repente eles começam a fazer algum sentido, como as grandes tristezas e as grandes alegrias.

Uma delas é a morte, e, depois de perder principalmente a minha mãe e o meu pai (há 3 anos e meio), eu creio que estou conseguindo sair do luto. Na época, eu me lembrei de uma frase que li num livro: “nós realmente sentimos a presença da morte, quando ela surge para a nossa mãe”, e assim escrevi em outra crônica: Agora essa frase faz muito sentido. O fim chega, o cordão umbilical imaginário que ainda existia entre mãe e filha é rompido com uma lâmina fina e extremamente afiada. Você até consegue ouvir o som agudo dos estilhaços. Não tem retorno, é simplesmente o fim.”

Muito tempo depois de ler a frase acima, eu escutei outra frase, em algum vídeo do YouTube. Atualmente essa frase faz mais sentido do que a primeira: “A vida só tem sentido após a morte”, não sei o autor. Sim, infelizmente, só depois de perdê-los é que eu entendi melhor o nosso relacionamento, de pais e filha. Num curso, conversando com a facilitadora, eu cheguei a seguinte conclusão: que a morte dos meus pais não foi uma perda, mas um reencontro de amor, de valores e de vida. Eles nunca estiveram tão presentes na minha vida, como agora, em cada lembrança e em cada ensinamento. Muita coisa que eu não compreendia, e sentia raiva ou angústia, agora passo a aceitar melhor. Estou tentando compreender o meu passado. Não é nada fácil, dói… mas acho que faz parte do nosso processo de autoconhecimento. O tempo é um bom conselheiro.

postlivropremiado

Enfim, as grandes alegrias. Inesperadamente soube que eu, Tereza Yamashita (autora), e a Vivian Suppa (ilustradora), ficamos em segundo lugar no 58ª Jabuti, de 2016, na categoria Literatura Infantil Digital. Viva! Ganhei poucos prêmios nesses meus 51 anos… esse é o quarto que recebo. O primeiro: recém-formados na faculdade, nós ganhamos (Nelson e eu) o II Concurso Playboy de Ilustração (Editora Abril, São Paulo, 1991), em primeiro lugar. Depois, Troca de pele, Editora Hedra (2009), livro individual, agraciado pelo ProAc 2007 (bolsa de incentivo à leitura), Secretaria do Estado da Cultura. E em 2014, 2ª edição do Benchmarking das Artes – classificada em 4º lugar – Prêmio de Sustentabilidade, com uma peça de origami, “Disparo de Mil Tsurus”, no Tribunal Federal Regional da 3ª Região – SP.

playboytroca-de-pele

dsc00979

Adoro frases, e elas sempre me acompanham. Por coincidência ou não, me enviaram a seguinte frase do Osho: “Uma vez que você abandone as expectativas, você aprendeu a viver”. Frase perfeita, pra mim, principalmente nos casos citados acima. Nunca tive expectativas muito altas sobre esses concursos, e eles vieram como uma bomba pra cima de mim. Não minto, alguma expectativa sempre tive, pois me inscrevi nesses concursos, ora por ser jovem, ora por necessidade, ora por ter sido convidada, e ora por nem saber que estava participando, rs. Enfim, aprendi que as expectativas é que aprisionam, destroem e nos fazem sofrer. Hoje em dia, eu concordo com o pensamento de Osho, e tento seguir a vida sem muitas expectativas, o que vier é lucro.

Estou tentando desfrutar o presente, e simplesmente agradecer as boas coisas, mesmo que as mais simples. Sabemos que nada é eterno, tudo muda, a lei da impermanência é real e justa. Hoje ganhamos, amanhã perdemos. Portanto só nos resta viver o dia-a-dia. A vida continua, sempre nos pregando boas e más peças, estamos vivos apenas para contracenar com outras vidas. Meros fantoches? E para terminar, uma frase bem verdadeira, no entanto, cruel: “Nunca se esqueça de que a multidão que aplaude o seu coroamento é a mesma que aplaude sua decapitação. As pessoas gostam de show.” De autor desconhecido.

E com um pouco de medo… terei que enfrentar uma cirurgia. O que a vida reservou pra mim, nesse momento? Grande tristeza ou grande alegria?

Apesar de tudo, só tenho que agradecer, tentarei sorrir, viver e conviver com o resultado final.

Abraços Dobrados Agradecidos

#

Crônica de Agosto

 

Hakone copy Foto: Tereza Yamashita, tirada em Hakone, Japão em 2009.

Travessias
Tereza Yamashita

Ontem, eu entendi algo que quando era jovem, aos 30 e poucos anos, não compreendia e achava que era puro sentimentalismo do meu pai, uma bobagem. Ledo engano! Explicando: ele tinha um grupo de amigos do colégio que sempre se reunia de ano em ano, e era de praxe levar toda a família aos encontros dos ex-alunos do Colégio Getúlio Vargas. Na época, um colégio técnico público tradicional, muito famoso pelo alto nível de ensino, bons tempos!
Quando criança, eu adorava essas reuniões. Eram sempre em sítios, ou em locais de eventos grandes, sempre muito divertido! Depois fomos virando adolescentes e adultos, e as reuniões começaram a ficar chatas, rs. Os filhos, a maioria tentava fugir, mas acabávamos todos nos reencontrando novamente e, agora casados e com filhos, a turma multiplicou, rs. Enfim, só pra dizer que aos poucos, com a idade avançando e com os falecimentos dos organizadores (meu pai era um deles), as reuniões foram diminuindo, e o senhor Paulo, meu pai, começou a se lamentar muito. E, a sequência das partidas dos amigos foi grande. Hoje, passo a compreendê-lo melhor. Fora a grande tristeza da perda dos amigos, o pior é começarmos a sentir a presença do final da vida em nossas próprias vidas. As perdas são o aviso de que um dia faremos essa travessia também, e devemos estar preparados, ou não?! A vida continua e, só assim, nós percebemos e começamos a dar importância a nossa vida e a das pessoas. Passamos a reconhecer o valor e a dádiva de estarmos ainda vivos.
Porque essa reflexão, agora? Ela vem de um acontecimento triste, um susto. Na semana passada, um querido amigo foi parar na UTI com hipertensão altíssima, ele teve muita sorte e agora está bem, graças aos deuses. Trabalhei com ele em uma agência, durante uns três anos, nos nossos bons vinte e tantos anos, época em que ainda trabalhava com publicidade. Passaram-se 30 anos, e ainda mantemos a amizade.
A vida é esperta, ela nos dá seus avisos, de mansinho, para irmos nos prevenindo, nos acostumando… Para refletirmos sobre o que andamos fazendo e o que pretendemos fazer com ela, está em nossas mãos.
Não me lembro a data, mas a primeira amiga a partir foi a querida Teresa Senda Galindo, minha xará. Lembro que fiquei muito chocada, na noite anterior tinha acabado de trocar mensagem com ela pelo face, sempre muito carinhosa, me enviava muitas mensagens bonitas (principalmente quando a minha mãe partiu também). Arigatou! Enfim, depois de um ano, a memória já anda falhando… um outro amigo, companheiro de letrinhas, o Pipol, do Cronopinhos, nos deixou também. Assim, de súbito! Outro susto, pensei que era até brincadeira, por ele ser publicitário e estar sempre inventando coisas, snif. Ambos partiram jovens, antes mesmo de completarem os seus 60 anos.
Enfim… dizem que só com a tristeza é que passamos a refletir.
Desculpe-me pai, por não entender o seu luto, na época. Hoje, com empatia e com mais humildade, sinto tanto!
E fica confirmado que só com a própria experiência, com as próprias vivências e trocas nos tornamos mais humanos e solidários.
Abraços Dobrados Agradecidos e Saudosos

 

#

Crônica de Julho

[Parodiando a novela: “Êta mundo bom! Tudo o que acontece de ruim vem pra melhorar.” E eu pergunto quando vai melhorar?, hahaha.]

O mês de junho foi de fortes emoções. Um dos meus maridos (rs) foi dar uma de suas aulas de criação literária em outra cidade, em São José dos Campos, mas no retorno não sabe se perdeu a carteira ou foi furtado. Exausto, dormiu no ônibus, quando foi pegar o bilhete de metrô, cadê a carteira? No ônibus, ele desconfiou. Não quis ser preconceituoso, relaxou, mas elementos bem estranhos sentaram atrás e ao seu lado. Enfim… Correria pra bloquear os cartões e tirar documentos. No Poupatempo (?), idas e vindas, toda hora sem sistema. Isso também aconteceu comigo no SUS (Farmácia de Alto Custo, nem sabia que existia, aprendi). Eu preciso de uma injeção que custa R$ 1.700 cada, preciso de duas doses ou mais… Problemas com o útero de novo (mioma). No banco, para solicitar outros cartões foi preciso falar com o gerente. Incrível!! Toda vez que precisamos da ajuda do banco, eles aproveitam para vender serviços, cumprir suas cotas e aumentar as taxas de nossa conta. Que ajuda, não?! Entramos com um problema e saímos com dois! Teremos que ir retirar os cartões com o gerente (no sistema, foi solicitado pelo correio) e está demorando muito, coincidência? Fujam dos gerentes, kkkk. O mundo, o Brasil… Tudo está falindo. E pra terminar o fim de semana, a rinite alérgica me atacou, duas horas no PS e uma pequena injeção intramuscular, mas grande na dor, rs. Bom, isso foram os dias-binhos…

buque

Ah, mas temos os dias-bons: aprendendo a praticar a resiliência, senão falimos também.
No meus 51 anos, eu recebi muitas mensagens carinhosas de pessoas que só conheço pelo face e dos amigos, e dos amigos que estavam mais distantes. Aproveito para agradecer!
Espero que em julho as emoções sejam fortes, mas de outra natureza. As oficinas estão chegando e dá um friozinho na barriga, tudo pode acontecer. Mas a parte boa: fui comprar a argila para o evento do final do mês, na Casa de Cultura Carlos e Diva Pinho (estou bem contente com esse evento, será um grande aprendizado)! No sábado, levei uma hora pra ir e uma pra voltar. Se fosse durante a semana levaria duas horas ou mais. E, apesar dos olhos irritados e lacrimejantes, consegui terminar a última peça da exposição da Filiperson. Acho que ficou graciosa, por ser a primeira tentativa. E espero que haja quorum no SESC Carmo-Sé para as oficinas de miniorigamis. Cliente novo, o primeiro trabalho a gente nunca esquece! E que os anjos, as fadas, os deuses me ajudem, hahaha. Mas o melhor de tudo, o que compensa a vida: a filhota já está voltando para as férias, e venceu mais uma etapa da faculdade. Viva! Abraços Dobrados e êta mundo bom!

bouqueok3

Utilizei os papéis Filipaper Metallics Pérola e Lilás. Adoro a cor roxa, representa  o mistério, expressa sensação de individualidade e de personalidade, associada à intuição, purificação e transformação.

bouqueok1

#

Crônica de Junho

[ 51! Boa ideia… hahaha ] – 30/06/2016

Quando criança, eu nem  imaginava que iria chegar aos 51 anos. Na época, os meus pais e outros adultos pareciam tão idosos nessa fase, rs. Enfim… estou aqui comemorando e agradecendo por todas as mensagens que estou recebendo e pelo carinho de todos.

agradecer

Não parece, mas já passei por muita coisa nesta vida. Perdas e ganhos, talvez mais perdas, mas não posso reclamar. Sempre comento aqui, em algum post antigo (https://yamashitatereza.wordpress.com/2015/06/29/25-anos/), dos meus ciclos de dez anos. Creio que estou começando outro: dos 50 aos 60, isto é, se eu durar até lá, hahaha. Nunca se sabe, um dia viva e no outro dia virando pó. De tudo, estou aprendendo a ter menos expectativas sobre a vida, o mundo e o ser humano. Não parei de sonhar, ou melhor, de ter projetos, mas estou aprendendo a viver um dia após o outro. Osho disse: “Uma vez que você abandone as expectativas, você aprendeu a viver”.

Encontros e reencontros tive muitos, e espero ter muitos outros. Acho que o meu melhor encontro foi com o meu marido, em julho completaremos 27 anos de casados. Já enfrentamos de tudo, como diz um velho ditado: sorte no amor, azar nos negócios, hahaha. E o meu melhor reencontro foi com a minha filha: nos encontramos quando passamos a ser mãe e filha, e nos reencontramos quando passei a respeitar o ser humano adulto que ela se tornou. E o encontro  mais puro foi com o meu gatinho Sansão, hoje um idoso de 16 anos, que come de hora em hora e choraminga o tempo todo. O reencontro mais dolorido foi com a partida dos meus pais, comentei com uma amiga: a morte dos meus pais não foi uma perda, foi um reencontro. E agora um encontro & reencontro com as artes e comigo mesma, principalmente com o origami. Arigatou!

Tudo muda: todo mundo, o mundo todo. É a vida!

Aos meus quatro maridos (kkkk), obrigada pela linda homenagem!
https://www.facebook.com/paisagem.personas/posts/1771742499764113

51 fotos do papis
Abraços Dobrados Agradecidos, e que o Tsuru (grou), símbolo da Paz e da Longevidade nos acompanhe sempre!

#

Crônica de Maio

mulheres criam sapos e sonham com príncipes
(pequena crônica tipo conto de fadas) – edição 8 | julho de 2006 – homem – Escritoras Suicidas
tereza yamashita

Mulher é um bicho esquisito, disso já estamos cansadas de saber. Sabemos que príncipes não existem, mas poderiam existir. Loucura? Devaneio? Não. Simplesmente criamos sapos e nem nos damos conta disso. Somos todas responsáveis. Do que estou falando? Não somos simplesmente mães, irmãs, amigas ou amantes. Somos formadoras de seres humanos. Gestação? Um bom pré-natal resolve. Estou falando do dia-a-dia, do tête-à-tête. Acham loucura? Talvez, mas ultimamente estive matutando e descobri que as mulheres são machistas, mais do que os homens. Como? Vocês não estão entendendo nada? Século vinte e um, o machismo já foi extinto? Não. Creio que apenas disfarçado e maquiado. Mulheres criam sapos e sonham com príncipes. Quer um exemplo?! Revistas femininas, quer algo mais machista e decadente? Lá só se fala de homens, como agradar os homens, como enlouquecer um homem, como laçar um príncipe. Novela, nem se fala. Tudo gira em torno de um grande amor, a mulher gostosa, nua, seminua, e tudo isso pra agradar quem? Pra conseguir o quê? Um bom casamento! Vejam só, as mães sonham com o marido ideal pra sua filha, mas em casa tratam o filho homem como um rei. Elas esquecem que um dia ele, o seu filho queridinho, será um marido também. E coitada da nora! Creio que cheguei ao ponto principal. É pura vingança, o inconsciente age naturalmente. O filho é tratado como rei, ele ganha o tão sonhado carro aos quinze anos, ele pode perder a virgindade aos dez, ele não precisa arrumar o quarto, ele é tão inteligente, pra que aprender a cozinhar e a limpar, coisas do lar? Tarefas caseiras são pras meninas, que um dia vão se casar. A mãe ensina ao filho como enfrentar o mundo, a lutar e bater, e ensina à filha que não se bate, não se luta, que ela é a mais fraca. Uma delicadeza de flor. A filha ganha Barbies e bichinhos de pelúcia, o menino ganha videogames, Lego e jogos de estratégia. O menino vai a campeonatos de judô, de natação e de xadrez. A menina vai ao shopping, conferir a última moda e as promoções das lojas de departamento. O menino ganha revistas masculinas, de esportes, de carros, a menina ganha revistas de horóscopo, da Bruxinha e de artesanato. Alhos pra meninos e bugalhos pras meninas, mas quem instituiu isso? Como um bebê sabe a diferença? A mãe, a mulher! Ela institui a diferença já nos primeiros anos. O pai cuida do menino e a mãe cuida da menina. Se a menina é inteligente, isso é herança do pai. Se o menino é bonito, isso é herança da mãe. Conclusão: criamos sapos e sonhamos com príncipes. Agora vocês entenderam por que somos machistas? Nós, mulheres, somos as formadoras de homens, concordam? Algumas dirão que estou exagerando. Somos modernas e os tempos são outros. Tá certo, vocês são um por cento das milhares de mães-mulheres do mundo, só vocês pensam e agem assim. E os outros noventa e nove por cento das mulheres machistas? Só pra relembrar, vocês já ouviram da boca das próprias mulheres essa frase, aposto: “Prefiro homem, em mulher não dá pra confiar” (no consultório, na oficina mecânica, no trânsito). E essa outra: “Atrás de um grande homem, sempre há uma mulher de fibra”. Atentou para o “atrás”? Se você faz dupla com um homem, em qualquer área, o homem é sempre mais valorizado. E sempre por outra mulher, já reparou? Medo da concorrência? Se a mulher ganha mais do que o homem, ela vai confessar que o marido ganha menos? O que as amigas dirão? Que o seu marido é sustentado por você? Que você casou com um fracassado? E o marido, então? Preciso dizer mais? Assim, lanço a tese: mulheres criam sapos e sonham com príncipes japoneses, árabes, judeus, italianos, africanos, ingleses, brasileiros.

#

Primeira crônica de abril

Assistindo o vídeo abaixo sobre o maior desastre ecológico do Brasil. Lembrei de outros desastres mais comuns, menores? Mas não menos sofridos. E como sempre ficamos impotentes diante de tanta desgraça. Foi publicado no site das Escritoras Suicidas em 11 de outubro de 2006, o tema proposto: Lugar.

Lugar comum ou um lugar ao sol
tereza yamashita

Ratos subindo pelas grades das janelas, formigas tentando se apoiar em qualquer objeto flutuante, cachorros uivando pelos muros. Crianças sendo socorridas por adultos. Ingenuamente tentam brincar com a água. Água barrenta, fétida e gelada.
Mulheres histéricas. Homens se embriagando para se tornarem super-heróis.
Objetos flutuando. Objetos antes tão pesados e agora parecem de isopor. Geladeiras, máquinas, televisões, móveis e até mesmo corpos humanos.
Dos bueiros e esgotos. Devagar vai subindo. Sem que você perceba, já está dentro de sua casa. Pegos de surpresa. Geralmente chega de mansinho, no meio da madrugada, na escuridão. Verão. Calor insuportável. Todos dormem seminus. Chuva torrencial.
Acordam e o pesadelo torna-se real. Primeiramente molha os seus pés, depois as pernas, o corpo, enfim ela atinge a sua alma. Os mais desesperados ficam atônitos e não conseguem sair do lugar. Os olhos deles se enchem de lágrimas e sem perceber desistem de tudo. Mas alguém lhes dá uma bofetada na cara e o faz acordar.
Cada família tenta salvar o que é possível. Objetos queridos, documentos, coisas de valor. Tentam se manter vivos, respirando em algum lugar, em cima de muros, guarda-roupas, pendurados em postes. São todos náufragos dentro de sua própria casa.
Pai, mãe e filhos. Em seus olhos todas as esperanças afogadas. Ilhados vêem todo o seu patrimônio, suas conquistas, sua vida… flutuando. Um monte de merda, sem destino, apenas flutuando. Alguns conseguem sair deste mar dos infernos, outros continuam em seus postos, observando atentamente a sua desgraça. A chuva ainda continua a cair, os pingos formam ondas circulares na água. Muitos objetos já estão no meio da rua. A criança chora pela boneca que flutua entre as bugigangas. O pai tenta alcançá-la com um pedaço de pau, mas a boneca cada vez se distancia mais. A mãe diz que talvez amanhã a encontrem entre o lamaçal.
Milímetro por milímetro a água ainda sobe, devagar e insolente.
Lavando e levando tudo. Desmanchando móveis, estufando colchões, trazendo milhares de doenças.
O bairro se tornou um grande mar de lodo. Vemos apenas casas submersas.
Alguns loucos nadando. Outros aflitos, tentando salvar seus pertences.
Bombeiros tentando levar um pouco de atenção. Bombeiros tentando socorrer feridos. Bombeiros tentando localizar pessoas perdidas. Afetos.
O calor insuportável agora tornou-se congelante. Pessoas roxas de frio e totalmente molhadas. Desesperadas, não sabem mais o que sentem, apenas querem que ela se vá.
Maldita enchente, um rio de lama.
Muitos rezam. Oram pra que o bom Deus faça parar de chover. A madrugada avança, a água aos poucos vai baixando.
A quina de um dos móveis agora pode ser vista. Horas a fio e as quinas de cada móvel começa a aparecer.
Os olhos que até então só viam aquele mundareu de água, agora podem ver os destroços que sobraram, envoltos em um imenso lamaçal. Algumas destas pessoas choram. Outras ficam em silêncio. Outras chutam desesperadamente os seus pertences. Outras ainda conseguem dizer: “Graças a Deus, parou de chover! Estamos todos vivos”.
As crianças brincam no lamaçal, atirando barro para todos os lados.
As mulheres e os homens que sobreviveram começam o mutirão da limpeza. Formam uma grande família, unidos, tentam salvar o pouco que lhes restou. Muitos ainda dividem o punhado de comida que conseguiram resgatar.
O sol aparece e começa a secar as casas, os móveis. Mas o cheiro é insuportável. Um cheiro forte de água barrenta instala-se no bairro e permanece por semanas.
O caminhão da prefeitura traz comida, sacos de dormir, os funcionários levam os destroços e lavam as ruas. Mas a marca da água nos muros não deixa ninguém esquecer. Demarca a altura da enchente — um metro e oitenta centímetros de desespero.
 

#

Quinta crônica de 2016 – 30 de março

Anjo mar 2016-03-30https://www.facebook.com/fromjaninto/videos/1538241053142215/?fref=nf

Ontem, eu vi-ouvi um vídeo lindo, Apenas uma voz no mundo – Janinto [Ave Maria – Shubert]. A voz parece de um anjo, se é que existem anjos… creio que a sua voz seria assim: doce, tranquila e infinita como o mar. Então, me lembrei dessa crônica com o tema Fuga, que escrevi para as Escritoras Suicidas em abril de 2007.

Marcela
Tereza Yamashita

Hoje, após seis anos, três dias e dez horas eu estou aqui olhando esse imenso mar. Jogando flores para Iemanjá, ao lado desse estranho homem. Diz a crendice popular que se você pedir algo à deusa do mar com toda a sinceridade, ela concede o seu desejo.

O meu é que Marcela e Rodrigo, o homem estranho que entrou em nossas vidas, me perdoem, e que eu pare de ter os mesmos pesadelos: Marcela colocando suas mãos delicadas nos ouvidos e me olhando com seus olhos negros de jabuticaba. Um olhar triste que me pergunta: “Quando você irá ouvir os meus sentimentos?”.

Hoje, somente hoje eu entendi a pergunta, e compreendi o seu desejo.

Quando minha filha tinha dez anos, ganhou de uma mulher de cabelo longo e negro, uma concha. Daquelas em que se pode ouvir o som do mar. Foi em agradecimento, ela devolveu o livro que a mulher havia esquecido no banco da praça. Eu me lembro como se fosse hoje. Encantada com a concha, principalmente quando a senhora a colocou em seu ouvido. Vendo a alegria e o espanto da ingênua menina, ela disse que o som da concha era o som do mar, e quando ela se sentisse triste era só escutar o som tranquilo e harmonioso da concha. Desse dia em diante Marcela nunca mais se separou do presente, e se agarrou mais a ele depois que o seu pai a abandonou. Ele simplesmente não suportava o silêncio da filha.

Minha garotinha cresceu solitária com seus cabelos lisos e esvoaçantes. Sempre perdida em pensamentos, mas com um sorriso sempre estampado no rosto delicado.

Eu sempre quis protegê-la das pessoas, e principalmente dos homens. Mas aos dezessete anos não pude mais segurá-la. Ela partiu, assim como o seu pai. Não se despediu. Pegou algumas roupas, o dinheiro que eu escondia para as pequenas despesas da casa. Deixou em cima da mesa da cozinha uma outra concha, muito parecida com a sua.

Marcela foi em busca do seu sonho e me castigou da pior forma possível. Ela sempre se comunicou por meio de sinais, e deixando uma concha pra mim, ela foi direta e objetiva. Ninguém a impediria de realizar o seu sonho, nem mesmo eu.

Nunca consegui deixar a casa em que vivíamos, em Mato Grosso. Já tinha perdido o amor do meu homem, a vida fora traiçoeira comigo e com a Marcela. Então eu me agarrava com unhas e dentes aos móveis, às fotos nas paredes, aos quadros e às lembranças. Mas com a Marcela era diferente, ela queria estar longe dali, principalmente longe de mim, que não conseguia aceitá-la e a culpava por tudo. Ao contrário de mim, ela nunca me culpou de nada. Ela só queria ser livre e realizar o seu sonho.

Minha filha nunca compreendeu, eu nunca a deixei ir porque eu era egoísta e queria a minha menina só pra mim. Sem ela, a minha vida não teria mais sentido, e eu não suportaria vê-la feliz. A minha relação com Marcela era parasitária, eu precisava sentir a dor de Marcela para me sentir culpada, e assim me punir infinitamente.

Durante meses eu a procurei, nunca desisti. Sabia qual era o seu sonho e só havia um caminho, e eu segui esse caminho como um cachorro perdigueiro em busca da caça. Não demorou muito e eu a encontrei.

Ela estava linda, com seu cabelo longo e ruivo, o rosto sereno e bronzeado. Mas estava morta.

Mais uma vez a dor da minha filha me fez viver e me deu forças. Não sosseguei enquanto não encontrei o culpado.

Após enterrá-la, eu fui para a casa da praia. A casa de Marcela. Mudei-me pra lá e novamente eu me agarrei com unhas e dentes aos móveis, às fotos nas paredes, aos quadros e às últimas lembranças que não pude ter da minha filha.

Anos depois, encontrei a sua concha. Estava escondida em uma caixa dentro de um armário com um fundo falso. Imediatamente eu a coloquei no ouvido. Eu queria que o som da concha me acalentasse, como ela fazia com a Marcela. Infelizmente até a concha havia morrido. Nenhum som saía de dentro dela, e com ódio joguei-a no chão. Naquele instante eu ouvi a antiga voz da Marcela se despedaçando junto com a concha. Recolhendo os pedaços, eu encontrei uma velha folha de papel.

Nesse pedaço de papel amarelado, agora, a linda mulher conta como estava feliz ao lado de Rodrigo. Que pela primeira vez ela tinha se sentido amada, mesmo sendo como era. Ele não sentia pena dela e a amava. Que haviam feito planos, e iam se casar. Ele iria pedir a sua mão em casamento quando ela completasse dezoito anos. E assim que voltasse de uma viagem de negócios, ele a levaria de volta pra casa, pois não achava correto a sua fuga. Queria que ela se acertasse com a mãe, e aí nós três formaríamos uma família.

Marcela sabia que eu a amava, mesmo este amor sendo possessivo e castrador. A minha menina só queria morar perto do mar, escutar o som do mar e pedir a Iemanjá que nós fôssemos amigas, que eu aceitasse o seu silêncio, diferente de seu pai que nunca o fez. Marcela era muda e só conseguia dizer uma única palavra: Mar.

Eu não poderia cometer o mesmo erro duas vezes, e me lembrei dos seus olhos de jabuticaba me questionando: “Quando você irá ouvir os meus sentimentos?”.

O estranho não tinha sequestrado nem matado a minha filha. Ela havia se afogado. Eu tinha que fazer algo. Foram anos procurando pistas, evidências e testemunhas. Enfim eu a encontrei, coincidência ou não, era a mesma senhora da praça.

Ela viu Marcela se despedir do homem e caminhar para o mar. Depois disso, a senhora foi embora. Já estava de partida e comentou com a sobrinha que ela conhecia a menina, mas não sabia de onde. Por sorte eu encontrei a sobrinha e a senhora. A sentença foi revogada. Eu consegui provar a inocência desse estranho homem.

Hoje, após seis anos, três dias e dez horas eu estou aqui olhando esse imenso Mar.

#

Quarta crônica de 2016 – 3 de março

Bolsas mágicas
Tereza Yamashita

 Bolsa ilustraIlustração com a técnica mista: desenho e photoshop.

Bolsas de diversos tipos. Algumas são férteis, outras não.

Quando pequenas, as nossas mães, avós, tias ou madrinhas nos presenteiam com uma minúscula bolsa, acham charmoso, elegante. Dizem que nos tornam mais femininas. Já na infância aprendemos a reconhecer, a cuidar e a zelar por elas.

A bolsa até pode estar vazia, o que carregar nela? Uma boneca? Um doce? Documentos? Ainda nem tomamos consciência da nossa existência como mulher… Andamos com a cabeça no mundo das nuvens. Se a perdemos ou a esquecemos em cima do balanço, somos acusadas de meninas desleixadas. Se a deixamos aberta, meu Deus, o mundo vem abaixo!

Crescemos mais um pouco, já fomos muito bem treinadas. Agora somos nós que queremos usar a bendita ou maldita bolsa… a nossa independência. Nos sentimos mais confiantes, mais adultas. Queremos imitar as mulheres com seus saltos altos, e, como não podemos usá-los, as bolsas compensam esse desejo.

Se alguém nos observa, tímidas, logo pegamos a nossa bolsa, abrimos e fingimos que estamos procurando algo muito importante dentro dela. Nossos sonhos, nossas lembranças, nossas mágoas? Ainda não sabemos, ainda somos ingênuas e simplesmente, imitamos as outras mulheres e, principalmente, nossas mães.

A bolsa vai tomando vida, criando alças e crescendo, e a cada dia se torna mais importante. Não vivemos sem ela. Se a esquecemos, é como se saíssemos nuas pelas ruas.

Os formatos da bolsa vão se modificando em relação à moda e as gerações: grandes, pequenas, de crochê, de papel, de lona, em formato de mochila, de pasta, de saco, enfim… Bolsas hiper-mega-coloridas, com tons claros, com tons neutros, pretas, brancas, transparentes. Importadas, nacionais ou falsificadas.

Guardamos dentro delas: um ou dois celulares, cartão de crédito, um batonzinho, uma escova de cabelo, um kit de higiene bucal, um absorvente, uma caixinha de lenço, algumas moedas, um mini-guarda-chuva, um kit costura, mamadeiras, fraudas, um chocolate, um estojo com canetas, um estojo de maquiagem, um óculos de sol, uma caixinha de Band-Aid, um rolo de fita adesiva, uma chave de fenda, uma calcinha, uma blusa, preservativos, brinquedinhos sexuais, um porta remédios e cerejas… enfim coisas básicas. Outras extrapolam, e aí nem as outras mulheres entendem. Armas de fogo, canivetes, drogas e afins.

As bolsas das mulheres, dizem os homens, são mágicas, charmosas e sedutoras. Eles não resistem, querem conhecê-las, senti-las ou penetrá-las. Querem tocá-las, até mesmo, algumas vezes, sem a nossa permissão.

Eles não conseguem imaginar o que carregamos nelas. Pra eles, somos esquisitas e loucas. Carregamos o mundo dentro de nossas bolsas… até a vida de outro ser. Na tradição, ou por pura superstição, e até mesmo por simples higiene, diz a regra que não podemos deixar as nossas bolsas em qualquer lugar. Bolsa aberta e no chão atrai mau agouro, você fica perdida. Você perde a sua identidade. Não podemos deixá-las abertas e não podemos abri-las para qualquer estranho. Mas ainda hoje, se o fizermos, o mundo se importará? Outros tempos!

Ao logo da vida, nossas bolsas vão ficando mais personalizadas, independentes e muito mais interessantes. Da bolsa da menininha que ficava vazia, agora ela vive cheia de mistérios, sonhos e segredos. Algumas bolsas continuam vazias por opção, outras cheias, por obrigação. Infelizmente, outras rasgadas, por terem sido forçadas a se abrir.

Bolsas e suas mulheres, ou mulheres e suas bolsas. Quantos segredos podemos guardar nesse ninho tão aconchegante e devastador? Nossa sina é carregarmos uma bolsa desde que nascemos. Creio que é por isso que nós mulheres idolatramos nossas bolsas e não vivemos sem elas.

Que cada mulher cuide muito bem de suas bolsas.

#

Terceira crônica de 2016 – 10 de fevereiro

ilustracegosIlustração com a técnica mista: desenho, colagem/photoshop.

Empatia
Tereza Yamashita

Do meu modo, sempre fui simpatizante das causas sociais. Nunca fui militante, mas gosto de rascunhar ou refletir sobre o assunto. Fui convidada para dar um workshop sobre igualdade de gêneros, e, cavando aqui e ali, descobri que já escrevi vários textos sobre o tema. Pequenas reflexões, principalmente quando participava das Escritoras Suicidas. Alguns exemplos: A cética ascética, Em nome da mãe, Mulheres criam sapos e sonham com príncipes (pequena crônica tipo conto de fadas). Em meados de 2005, foi a minha estreia como escritora infantojuvenil, ao participar como coautora do livro Bia Olhos Azuis (Bia é deficiente visual, ela é cega de nascença). Depois de um tempo, escrevi um conto para o livro Dias incríveis, sobre outra garota cega: Minha vó não ouve bem, mas é dez!. Nesse livro, em coautoria também com o Luiz Bras, nós trabalhamos com temas delicados: as deficiências, o preconceito e outros. Troca de pele, edição de 2009, foi o meu primeiro livro solo. Agraciado com o prêmio ProAC-2007, uma bolsa de incentivo literário da Secretaria da Cultura do Estado de SP. Nele o tema principal foi o preconceito racial. Enfim, relembro esses textos e livros para concluir que, antes, eu apenas defendia ou adotava as palavras simpatia e empatia, mas sentir na pele mesmo, me colocar no lugar do outro, compreender emocionalmente o que o outro sente, isso aconteceu somente na experiência Diálogo no Escuro, criada pelo filósofo alemão Andréas Heinecke. Trata-se de uma exposição que já passou por 130 cidades de 19 países. Aqui no Brasil, está acontecendo na Unibes Cultural. Foi a experiência mas marcante que tive nesses últimos anos, única. Ouso recomendar. Depois das explicações do nosso guia, já com uma bengala na mão esquerda e com a mão direita na parede (para tatear) fomos caminhando em fila indiana por um corredor sem luz, na total escuridão. Escuridão de um lado, escuridão do outro lado, em cima e embaixo. Pra dizer a verdade, eu senti medo e claustrofobia. Respirava fundo e ao mesmo tempo tentava ouvir o que o guia dizia. Agora eu estava cega de verdade. Que angústia, não conseguia saber onde estava pisando. Pelo caminho, algumas vezes o chão se transformava: de estável passava para instável, com pedras, buracos e até movimento, acho que era uma ponte pênsil. O pior: alguns degraus e paredes apareciam do nada. Na escuridão, com a bengala em movimentos agitados de vai-e-vem, e com a mão direita erguida e ao léu… Ia tateando, como um bebê calculando os primeiros passos. Os meus sentidos: o tato, a audição e o olfato ficaram desconexos. Muitos ruídos, o grupo falando alto, meu corpo esbarrando em tudo, principalmente na pessoa da frente. Constrangida, me desculpava o tempo todo. Preocupada com o meu marido e a minha filha que vinham atrás, talvez medo de perdê-los, rs. Uma sensação de solidão, de desamparo, sem rumo, totalmente desorientada. Nessa hora eu percebi o que realmente a palavra empatia significava. Me coloquei no lugar de uma pessoa com deficiência visual, me senti muito triste e me emocionei. Percebi o quanto as pessoas com deficiência devem sofrer (eu estava sofrendo), mas posso estar enganada, elas podem não sofrer tanto quanto imagino. Compreendi que a vida delas é diferente, e por isso concluí (talvez erroneamente) que a vida delas é sofrida. Eu tenho os dois olhos perfeitos, não tenho nenhuma deficiência, e por isso me considero normal. Mas o que é ser normal?

“Aqui as pessoas que enxergam precisam da ajuda de quem não enxerga. Essa inversão de papéis nos faz pensar sobre os nossos preconceitos. No escuro, raça, religião, nacionalidade, sexo, idade ou profissão, nada disso importa”, afirma Heinecke.

Nessa reflexão, eu declaro a minha admiração por todos os que de alguma forma superaram as suas deficiências, e ainda lutam por essa superação. Rogo contra a cegueira das autoridades, que elas sintam mais empatia pelas pessoas com alguma deficiência, que pensem menos em si mesmos e em quanto irão lucrar… Capitalismo cego.
Agradeço aos profissionais da saúde, voluntários de ong’s e entidades como Laramara e Dorina Nowill, que juntos contribuem para uma melhor acessibilidade para essas pessoas.
Ah, o segundo guia era uma rapaz de 18 anos, com baixa visão. Teve seu diagnóstico de perda de visão gradativa aos doze anos. Foi com esse rapaz, o Renan, a minha segunda experiência: um diálogo no escuro. Ele contou que está se preparando para prestar o vestibular, e em nenhum momento eu senti raiva ou rancor em sua voz, apesar de ele revelar como enfrenta tantas dificuldades apesar do pouco apoio recebido do governo. Senti em sua voz apenas esperança e muita vontade de trabalhar.
A ele deixo aqui meu profundo agradecimento, infelizmente não o conhecemos, ou melhor, não o vimos fora do ambiente escuro. Mesmo assim, fiquei encantada com o moço, aqui a beleza física não existe, apenas a beleza da alma.
Abraços Dobrados com empatia, e um pouco menos de escuridão em minha vida.

A ilustração − uma releitura minha − foi baseada no famoso quadro de Bruegel, A parábola dos cegos, e no poema Os cegos, de Baudelaire.

Corações e almas cegos Bruegel era capaz de transformar o que via na vida cotidiana em uma alegoria significativa. Os cegos do quadro são um aviso claro: não confie cegamente em líderes cegos. Aqui quando se fala de cegueira, com frequência não se refere apenas aos olhos fechados à visão, mas a um coração e alma igualmente fechados.”

Os cegos críticos afirmam que existe uma grande possibilidade de o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) ter-se inspirado n’A parábola dos cegos para escrever seu soneto Os cegos. O poema, incluso n’As flores do mal, retrata a posição em que se encontram os cegos: olhando para o céu, como no quadro de Bruegel.”

Os cegos

Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!
Iguais aos manequins, grotescos, singulares,
Sonâmbulos talvez, terríveis se o olhares,
Lançando não sei onde os globos tenebrosos.

Suas pupilas, onde ardeu a luz divina,
Como se olhassem à distância, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Se um deles a sonhar sua cabeça inclina.

Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silêncio infinito. Ó cidade!
Enquanto em torno cantas, ris e uivas ao léu,

Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! também me arrasto! e, mais do que eles pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?

 

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal; tradução e notas de Ivan Junqueira.
– Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia de todos os tempos).

 

Fonte: “Desde as primeiras páginas de O que faz de um Bruegel um Bruegel?, último volume ilustrado da coleção criada pelo Metropolitan Museum of Art de Nova York, e editado no Brasil pela Cosac Naify, o leitor é convidado a olhar todas as ilustrações primeiro, antes de emitir qualquer juízo. ‘Descobrir o que faz de um Bruegel um Bruegel exige a descrição do que está na superfície de seus quadros, mas também do que ele escondeu’, explica o autor, Richard Mühlberger.” – site: Artefato Cultural/Cristiane de Andrade Carvalho.

#

Segunda crônica de 2016 – 2 de fevereiro

mascara cronica1Criação: autor desconhecido, dobrado por Tereza Yamashita.

Máscaras
Tereza Yamashita

O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Personagens de ficção científica.
Amantes à moda antiga.
Heróis disfarçados ou apenas ladrões de almas.
Uma máscara de cirurgião ou apenas uma máscara de carnaval.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Olhares misteriosos, bocas sedutoras ou narizes aduncos.
Sujeitos ocultos.
Mulheres, homens ou apenas anjos.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Desejos, loucuras ou apenas tristezas.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Lindos rostos, cicatrizes ou maldições.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Lembranças, emoções sutis ou paixões.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Velhos amigos, velhos amantes ou novos amantes.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Magias, sexo solitário ou orgias.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Intenções veladas.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Demônios com sorriso largo ou anjos de sorriso franco.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Marcas, rugas ou dobraduras.
O que uma máscara pode esconder ou revelar?
Instintos.

mascara cronica2#

Segunda crônica de 2016 – 9 de janeiro

aquarelagatoOKparceriaIlustração – técnica mista: desenho, aquarela e colagem de Tereza Yamashita

Círculo vazado na parede
Tereza Yamashita

O apartamento já não é mais o mesmo. Ficou mais apertado, porém mais divertido. O gato veio morar conosco.
Alugamos o outro apartamento, de um dormitório, que havíamos transformado em estúdio. Ultimamente a inquilina começou a atrasar o aluguel. A crise está aos poucos nos consumindo, devagar, como um câncer silencioso.
Quando ainda podíamos manter uma empregada doméstica (como chamamos agora? “Funcionária”? Um luxo nos tempos atuais…), ela comentava com todos que o nosso gato tinha um teto só pra ele (isso foi verdade durante uns bons catorze anos), enquanto ela e o marido… alugavam dois cômodos: quarto e cozinha pro casal e para os quatro filhos.
Ela não gostava muito do nosso gato, e vice-versa.
A nossa menina, o nosso maior investimento, “ainda” volta pra casa nas férias. Mudou-se para outro Estado, pra cursar a tão sonhada faculdade… e assim nosso apê se transformou novamente.
O quarto que era dela virou escritório, mas com a sua vinda a sala se torna o escritório. O terceiro quarto virou o meu refúgio. Ele é aberto. A entrada tem a forma de um círculo vazado na parede. O sofá branco virou a cama do gato.
A mesa de jantar vira uma escrivaninha, durante o mês de janeiro.
Daqui, eu observo um gato esparramado no sofá, ronronando, e um escritor esparramado na cadeira, cofiando a barba. Observo a disputa entre os gatos, se um vai pra cozinha, o outro pega o seu lugar. Depois do sofá, a cadeira giratória é o segundo lugar mais apreciado pelo gato. Um dos dois volta com uma xícara de café expresso, e toca o outro. O gato resmunga e volta para o sofá. Um mundo à parte. Coisas de gatos e escritores.
Às vezes, eu me confundo… Quem escreve os livros aqui de casa? O gato ou um dos escritores. Paisagem Personas?
A parede lateral da sala foi pintada de cor laranja (dizem que é a cor da criatividade), há alguns livros dispostos em uma nova decoração, são livros flutuantes.
Estou avançando na idade, agora eu preciso usar óculos pra enxergar de perto. Os óculos me dão vertigem. Acho que é por isso que nunca sei onde estou, com quem estou. Uma confusão visual, mental ou virtual? Talvez um buraco branco temporário.
No final da vida, meu pai arranjou um amigo, o Al (o ardiloso Alzheimer). Tenho medo desse senhor, não o quero também como meu amigo. E assim tento escrever essas crônicas, essas mal traçadas linhas. Observando e anotando o que ainda posso, através de um círculo na parede.

#

Primeira crônica de 2016 – 5 de janeiro

barriga mae22anos2016Ilustração – desenho, nankim e colagem de Tereza Yamashita

22 anos de puro aprendizado
Tereza Yamashita

Outro dia, eu li um texto sobre como dói ser mãe. Não estou reclamando, apenas constatando. Ser mãe é a experiência mais incrível do mundo, é transformadora. Pois é, dói muito mesmo. Dói quando você sente culpa, e infelizmente sentimos culpa o tempo todo. Desde o nascimento do nosso filho… o medo por ser mãe de primeira viagem, sem experiência, com mil dúvidas e  muita ansiedade. E aí doi muito quando as pessoas ao seu redor te culpam, te julgam, te dão palpites, te criticam quanto à sua forma de educar ou criar o seu primeiro e talvez único filho, e principalmente quando te desautorizam, desrespeitando as regras que você acha importante, em que você acredita. Afinal são os seus valores.
Com o passar do tempo essas dores aos poucos vão cicatrizando, você aprende com os erros e acertos e aí vêm outros medos, outras culpas. Seu lindo bebê cresceu, agora você tem medo do futuro, medo de que o seu filho passe por tudo que você passou, pelas mesmas frustrações, pelos mesmas incertezas, pelos mesmas decepções (amorosas, profissionais, familiares). O medo dessa nova sociedade tão capitalista, individualista, competitiva e principalmente violenta.
E se o seu bebê era uma menina, agora transformou-se em uma linda mulher, e como sabemos a vida de uma mulher é muito mais complicada, nesse mundo ainda tão machista.
Nós, mães, gostaríamos muito de poder protegê-los a vida toda, como fazíamos quando eles eram bebezinhos indefesos, mas isso não é possível. Filhos são do mundo, agora nós, mães e pais, somos meros espectadores, torcendo para que nossos filhos sobrevivam nessa imensa selva.
Dói muito saber que agora o seu filho não o considera mais um super-herói, agora você passou para o segundo, terceiro, quarto plano… eles alçam voo. Dói saber que virão te visitar apenas quando der, ou nem aparecerão, mandarão um WhatsApp.
Dói a saudade, a ausência a falta. Dói saber que alguns valores e tradições mudaram e outros ainda estão mudando.
A vida é um ciclo, dói saber que já passamos por isso, e que nossos pais sentiram ou sentem o mesmo.
Mas, quem sabe, aos poucos, nós possamos mudar alguma coisa (pois tudo muda, se transforma), sermos pais mais pacientes, resilientes e menos protetores, aceitar o que os filhos têm a nos ensinar, ouvir mais as suas reivindicações, cultivarmos mais a empatia. Sermos menos orgulhosos e aceitarmos que nossos filhos poderão saber mais do que nós e vice-versa, e que nossos filhos também aceitem nos ouvir mais, pois, apesar de ficarmos algumas vezes meio ultrapassados em matéria de tecnologia, de avanços científicos, ainda contamos com a velha e boa experiência de vida, porque também já erramos muito, mas acertarmos também e continuamos a aprender.
E, assim, se passaram muitos anos… essa crônica eu escrevi especialmente para a minha filha, que completou 22 anos.
Aos trancos e barrancos, vamos sobrevivendo, não é mesmo? E os meus medos e dores ainda continuarão, nossas filhas terão os seus medos quando forem mãe, ou não, não sabemos se elas vão querer ser mãe. Mas uma coisa eu posso garantir: a experiência de ser mãe é única, absoluta e te transforma a cada dia.
Muito obrigada por fazer parte dessa minha (nossa) experiência. Adoro ser  mãe, filhos são a nossa carne, a nossa respiração. Dói muito, mas essa dor aguentamos com muito amor.

#

Crônica 8 – 30 de dezembro

E depois de 9 anos… 2015, o que mudou?

a cética ascética
tereza yamashita

Sonhos? Como o brasileiro  sonha? Chamam-me de Maria, Amélia, Ana, João, Pedro. O ano 2.006? Revoluções, avanços tecnológicos, o pós-modernismo. A internet e a globalização. Aids, liberalismo sexual (hetero, homo, pansexualismo), drogas, álcool, bichinhos virtuais, a manipulação dos genes. Guerra, terrorismo. Um homem-bomba — buuuuuunda!

Divórcio versus casamento. Débito ou crédito na conta bancária? Melhor rever o investimento. Sexo? Depende! Cash, motel, cu, buceta bem depilada. Do cacete maior? Não, só da cor… do carro. Amor, das novelas — raça, posição social? A Mariazinha da periferia, sem almoço, comendo erres e esses, mas boazuda. Casa-se com o jovem rico, que a torna uma princesa… do lar. A princesa desdentada, intelectual, magra ou gorda. Sempre à procura de um sapo. Os sapos em minoria, à espreita, com a arma em riste. O sonho nunca acaba. A princesa que ama outra princesa que ama outro príncipe que ama outro vagabundo.

Violência. Bundade disfarçada em moedas debitáveis no IR. Padres show-bussines. A religião e seu capitalismo disfarçado em orações e músicas sacras. Seus cordeiros, cegos pela fé ou pela dor. Deus sem imagem? E o diabo? O diabo gosta! Músicas e danças nos rituais. Que diabos estou escrevendo?! O demo sou eu, somos nós! Pobres-diabos, multiplicai-vos. Cagam e riem o tempo todo. Jogam na mega-sena, compram títulos de capitalização e assistem aos domingos da alegria. Um dia a sorte chega, pena que um dia depois da sua morte. Filhos se matam pela herança. Filhos da puta, filhos da mãe. Não pedimos pra nascer. Os filhos da Terra do futuro — 500 anos de Brasil, somos independentes, abolicionistas. Que história! Que História! Histeria pura. Filhos sem-terra, sem-teto, a seca e a fome do nordeste, nossos jovens e a Febem, nossas crianças e seu tráfico. Governantes tão patriotas, e o seu dinheiro no exterior. Ex-presidentes — perdoai-nos meu povo, errar é humano. O perdão… a maior das virtudes!

Perdoai-me, serei menos cética no novo ano-novo. Prometo! Palavra de bandeirante. Feliz Ano Novo!
O sonhos ainda existem. Mesmo que seja Páscoa.

[ Publicado: ex-escritoras suicidas – edição 9 | agosto de 2006 – sonhos ]

#

[ Crônicas do mês ]

Crônica/poesia 7 – 11 de dezembro

cheiro2015-12-11

cheiro
tereza yamashita

Cheiro de cocuruto de nenê

Cheiro bom

Cheiro de esperança

Cheiro de recordação

 

Cheiro de flor

Cheiro bom

Cheiro de mulher

Cheiro de tentação

 

Cheiro encontrado

Cheiro ruim

Cheiro perdido

Cheiro de desilusão

 

Cheiro de homem

Cheiro bom

Cheiro de amor

Cheiro de sedução

 

Cheiro de perfume

Cheiro ruim

Cheiro no colarinho

Cheiro de traição

 

Cheiro de chuva

Cheiro bom

Cheiro de ar limpo

Cheiro de renovação

 

Cheiro de cidade

Cheiro ruim

Cheiro de máquinas

Cheiro de devastação

 

Cheiro de mata

Cheiro bom

Cheiro de árvore

Cheiro de reconstrução

 

Cheiro bom

Cheiro ruim

Cheiro da vida

Cheiro da morte

 

Cheiro

#

Crônica 6 – 29 de novembro (#meuamigosecreto2)

mascara

em nome da mãe
tereza yamashita

Pare!, gritou ele silenciosamente.
— Charlie? — murmurou a esposa.
Ele tirou o outro sapato lentamente.
Sua mulher sorria dormindo.
Por quê?
Porque ela é imortal. Ela tem um filho.

Dizem que nós, mulheres, temos inveja do pênis. Em contrapartida os homens têm inveja de nosso útero. Porque nós geramos filhos, e de certa forma, somos imortais. A raça humana é preservada por nós, mulheres e mães. O homem nunca sabe se realmente o filho é seu, sempre existe a dúvida. Ele não carrega o filho no ventre, não sente as dores do parto.

Que homem é capaz de se deitar na escuridão, como uma mulher, e se levantar com um filho? Seus sorrisos suaves e gentis, guardam o segredo. Ah, que relógios estranhos e maravilhosos são as mulheres. Elas se aninham no tempo. Elas criam a carne que agarra e une a eternidade.

O homem só sente a paternidade na hora em que o filho é colocado nos seus braços. O amor vai crescendo aos poucos.

E como os homens invejam e freqüentemente odeiam esses relógios cálidos, essas esposas que sabem que vão viver para sempre. E então, o que fazemos? Nós, homens, tornamo-nos terrivelmente mesquinhos, porque não podemos nos prender ao mundo ou a nós mesmos ou a coisa alguma. Somos cegos para a continuidade, tudo se quebra, cai, derrete, pára, apodrece ou foge. E, como não podemos moldar o tempo, como ficamos? Insones, olhando.

De Tróia, de Esparta, do Ocidente, do Oriente, de todas as civilizações. O herói e os tiranos querem apenas ser lembrados, querem ficar para a eternidade. Matam e morrem em nome da mãe. Mães poderosas geram tiranos, geram heróis, geram fracassados. Mulheres sempre puderam interromper uma gravidez (hoje, em alguns países, com a aprovação da sociedade). Pelo mundo, com a aprovação ou não, elas têm em suas mãos o poder da vida. O livre-arbítrio. Em nome da mãe.

[Trechos do livro Algo sinistro vem por aí, de Ray Bradbury, Editora Bertrand]

Publicado em julho de 2007: Ex-escritoras suicidas.

#

Pensamento/rascunho de crônica 5 – 26 de novembro (#meuamigosecreto1)

Face tempo 2015-11-26 às 08.15.40

Tempo
Tereza Yamashita

Para alguns, tempo é dinheiro, para outros o tempo é o passado, o presente ou o futuro. Poucos têm a noção exata do tempo, outros o desperdiçam com bobagens… Enfim, para outros é a oportunidade para a realização de alguma coisa. Outro dia ouvi essa frase de um personagem, num filme, agora não me lembro o nome: “O que você vai fazer com a única vida (tempo) que você tem?”
Passei a refletir sobre isso. E agora, aos cinqüenta anos, depois de muitas perdas, até de amigos jovens, que infelizmente já partiram, a perda dos meus pais, a presença da morte ficando mais freqüente, comecei a perceber que perdemos muito tempo com nada. Nada significada o tempo gasto sem proveito. Perdemos tempo com mágoas, lembranças ruins, perdemos tempo na internet, principalmente no face, perdemos tempo com mimimi(s), perdemos tempo de estar com quem amamos, com nossos filhos e conosco mesmo.
O pior,  perdemos tempo matando uns aos outros nas guerras, nos atentados, na ganância do poder. E, quando nos damos conta do tempo, já está na hora de fazermos o check out de nossas vidas…
“E nos queixávamos de como é triste que, exatamente quando você aprende a viver, quando você entende o truque, tenha de fazer o check out. Uma série inteira de indícios menores, desde uma dor nas costas até a perda de cabelo, está aí lembrando você de que há uma bala que vem em sua direção e você não vai se esquivar. Então, mais vale usar bem esse tempo que resta.” Ian McEwan.
Pensamentos… Ontem estávamos na fila de espera para entrar no teatro, na Casa Mário de Andrade. Antes eu perdia o meu tempo… Ficava nervosa, reclamando do atraso, da irresponsabilidade das pessoas, das instituições que nos fazem esperar por horas em filas, enfim… Estou aprendendo a usar o meu tempo (nada de mimimis), tentando realizar pequenas coisas de que gosto, como esse esboço/pensamento de crônica, e alguns rabiscos no meu sketchbook.

#

Crônica 4 – 5 de novembro

[Uma crônica antiga (30/08/2012) que  publiquei em uma das primeiras versões do site Vagalume, da escritora Cida Sepúlvida ]

cronicate1

Não sou judia, mas hoje quero pedir perdão à minha filha
Tereza Yamashita

Dez dias após o ano-novo judaico, os judeus comemoram o Yom Kippur, o Dia do Perdão (também chamado de Dia do Arrependimento).

Para os judeus, esse é o dia em que todas as promessas de arrependimento, amor e amizade são seladas no plano divino. É nesse dia que os judeus têm a chance de se desculpar pelos maus atos e de pedir perdão à pessoa contra a qual cometeram alguma injustiça. Se o pedido for de fato sincero, todo mal que foi cometido anteriormente é anulado.

Sendo assim, apesar de não ser judia e não pertencer à religião judaica, hoje, neste dia especial, eu quero pedir perdão à minha filha, pelo que sou e pelo que não posso ser.

Outro dia assisti a um programa sobre drogas, e um dos palestrantes disse uma frase que ficou e ainda está martelando na minha cabeça. A frase é: “o exemplo não é a melhor forma de ensinar, é a única.”

Essa frase ficou gravada no meu cérebro como uma tatuagem invisível. Não consigo vê-la, mas ela está lá e, a cada nova atitude minha, ela aparece como um pisca-alerta.

Às vezes nos sentimos tristes e vazios, não compreendemos a nossa vida e buscamos respostas em tudo, menos em nós mesmos. E a resposta está aí, estampada na gente, só que não queremos enxergá-la.

Tudo é reflexo dos nossos atos. Digamos, do nosso exemplo. De como nos relacionamos com os entes queridos, com o vizinho, com um desconhecido e conosco mesmo.

“Pura bobagem”, você deve estar pensando ao ler estas palavras.

Outra vez o exemplo de um programa de televisão. Sabemos que os programas são fabricados, que a televisão poda a imaginação, que ela não passa de um entretenimento fácil. Mas tenho assistido a uns programas interessantes, como a SuperNanny e, O aprendiz e outros que só passam de madrugada. Ou seja, em horários fora do circuito comercial, como o seriado O Jim é assim, o programa educacional Salto para o futuro, O bom dia saúde, o programa do Sebrae para microempresas, Encrencas em Família, Tudo em família.

Na SuperNanny o mais engraçado é que, na maioria das famílias, as lições aplicadas são para os pais. As crianças são apenas o reflexo de pais desorientados, que se perdem na educação dos filhos e tornam o convívio familiar insuportável.

Outra vez a questão do exemplo. Na vida, na política, na economia, nas artes. Imitar faz a diferença.

Não quero ser piegas e dizer que só os bons exemplos funcionam. Os maus também ensinam. Depende apenas do seu receptor, do nosso livre-arbítrio.

Somos responsáveis pelas nossas escolhas. É um ciclo vicioso, sem fim. Essa é a armadilha da vida: nossas escolhas. Elas vão refletir em toda a nossa vida.

E como saber se uma escolha é certa ou não?

Volto à questão do exemplo, que martela a minha cabeça.

Algumas frases que circulam pelo mundo há anos: “Filho de peixe, peixinho é”, “Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão”, “É próprio da criança imitar os adultos”, “Você é responsável por aquilo que cativa”.

Quanta responsabilidade, não é mesmo? Somos pais, mães, professores, artistas, ídolos, escritores, comerciantes, políticos, religiosos, fanáticos e loucos. Alguém sempre vai seguir os nossos passos ou desprezá-los. Tudo no mundo gira em torno da reprodução, da semelhança, da analogia, da imitação. Você pode se ver refletido em outro ser. Será que você irá agüentar tal reflexão? Sim. Não. Tudo depende de você.

A arte que imita a vida que imita a arte que… é a própria vida… Oscar Wilde dizia que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Na escolas ouço crianças brincando umas com as outras, repetindo a tão fatídica frase do Roberto Justus n’O aprendiz: “Você está demitido!”

Nada como tirar proveito de um ensinamento, nada como estabelecer uma opinião.

Enfim, não sou judia, mas hoje quero pedir perdão à minha filha, pelo que sou e pelo que não posso ser. Por não largar do seu pé, por ser superprotetora e às vezes chata. Não posso ser a mãe ausente, a mãe que fecha os olhos, a mãe que perdoa tudo, a mãe que não dá o exemplo. Sou a mãe que erra e quer acertar, sou a mãe que não tem vergonha de pedir perdão.

#

Crônica 3 – 27 de outubro
Escrevi  a crônica para o site das Escritoras Suicidas, em 2006, mas ainda tão atual, rir ou chorar?

mulheres criam sapos e sonham com príncipes
(pequena crônica tipo conto de fadas)
tereza yamashita

12074880_981862628536791_8905469533935843997_n

Mulher é um bicho esquisito, disso já estamos cansadas de saber. Sabemos que príncipes não existem, mas poderiam existir. Loucura? Devaneio? Não. Simplesmente criamos sapos e nem nos damos conta disso. Somos todas responsáveis. Do que estou falando? Não somos simplesmente mães, irmãs, amigas ou amantes. Somos formadoras de seres humanos. Gestação? Um bom pré-natal resolve. Estou falando do dia-a-dia, do tête-à-tête. Acham loucura? Talvez, mas ultimamente estive matutando e descobri que as mulheres são machistas, mais do que os homens. Como? Vocês não estão entendendo nada? Século vinte e um, o machismo já foi extinto? Não. Creio que apenas disfarçado e maquiado. Mulheres criam sapos e sonham com príncipes. Quer um exemplo?! Revistas femininas, quer algo mais machista e decadente? Lá só se fala de homens, como agradar os homens, como enlouquecer um homem, como laçar um príncipe. Novela, nem se fala. Tudo gira em torno de um grande amor, a mulher gostosa, nua, seminua, e tudo isso pra agradar quem? Pra conseguir o quê? Um bom casamento! Vejam só, as mães sonham com o marido ideal pra sua filha, mas em casa tratam o filho homem como um rei. Elas esquecem que um dia ele, o seu filho queridinho, será um marido também. E coitada da nora! Creio que cheguei ao ponto principal. É pura vingança, o inconsciente age naturalmente. O filho é tratado como rei, ele ganha o tão sonhado carro aos quinze anos, ele pode perder a virgindade aos dez, ele não precisa arrumar o quarto, ele é tão inteligente, pra que aprender a cozinhar e a limpar, coisas do lar? Tarefas caseiras são pras meninas, que um dia vão se casar. A mãe ensina ao filho como enfrentar o mundo, a lutar e bater, e ensina à filha que não se bate, não se luta, que ela é a mais fraca. Uma delicadeza de flor. A filha ganha Barbies e bichinhos de pelúcia, o menino ganha videogames, Lego e jogos de estratégia. O menino vai a campeonatos de judô, de natação e de xadrez. A menina vai ao shopping, conferir a última moda e as promoções das lojas de departamento. O menino ganha revistas masculinas, de esportes, de carros, a menina ganha revistas de horóscopo, da Bruxinha e de artesanato. Alhos pra meninos e bugalhos pras meninas, mas quem instituiu isso? Como um bebê sabe a diferença? A mãe, a mulher! Ela institui a diferença já nos primeiros anos. O pai cuida do menino e a mãe cuida da menina. Se a menina é inteligente, isso é herança do pai. Se o menino é bonito, isso é herança da mãe. Conclusão: criamos sapos e sonhamos com príncipes. Agora vocês entenderam por que somos machistas? Nós, mulheres, somos as formadoras de homens, concordam? Algumas dirão que estou exagerando. Somos modernas e os tempos são outros. Tá certo, vocês são um por cento das milhares de mães-mulheres do mundo, só vocês pensam e agem assim. E os outros noventa e nove por cento das mulheres machistas? Só pra relembrar, vocês já ouviram da boca das próprias mulheres essa frase, aposto: “Prefiro homem, em mulher não dá pra confiar” (no consultório, na oficina mecânica, no trânsito). E essa outra: “Atrás de um grande homem, sempre há uma mulher de fibra”. Atentou para o “atrás”? Se você faz dupla com um homem, em qualquer área, o homem é sempre mais valorizado. E sempre por outra mulher, já reparou? Medo da concorrência? Se a mulher ganha mais do que o homem, ela vai confessar que o marido ganha menos? O que as amigas dirão? Que o seu marido é sustentado por você? Que você casou com um fracassado? E o marido, então? Preciso dizer mais? Assim, lanço a tese: mulheres criam sapos e sonham com príncipes japoneses, árabes, judeus, italianos, africanos, ingleses, brasileiros.

#

Crônica 2 – 3 outubro 2015

Existiram mesmo livros de R$ 1,99
Tereza Yamashita

Parece tão fácil inventar atividades ou mesmo escrever sobre criatividade, literatura ou arte, lendo os livros Fantasia: invenção, criatividade e imaginação e A arte como ofício, do Bruno Munari. Parece mas não é.

Acredito que escrever está até certo ponto ligado à vocação de cada um, mas também está ligado a muito trabalho de pesquisa, leituras e interpretações.

As palavras e os pensamentos parecem crianças, às vezes são arredias e sem o menor constrangimento fogem da gente. A nossa mente é bem oportunista, sem mais nem menos fazemos conexões com o passado.

Relendo os livros citados acima, lembrei-me de um episódio de escola, de um passado muito, muito distante. Ao lembrar, até achei engraçado.

Um dia, a professora da minha filha me enviou uma mensagem, querendo marcar uma reunião presencial, sem mais detalhes. Qual o motivo? Preocupadíssima, marquei para o dia seguinte. Mãe de primeira viagem, não conseguia imaginar o que estaria acontecendo.

Na noite anterior, nem dormi direito, ficava conjecturando qual seria o problema. Qual seria o problema?!? Minha menina estaria com alguma dificuldade de aprendizado? Estaria sofrendo bullying? Estaria se comportamento mal? Ou seria algum problema de saúde que eu não tinha percebido?

Dúvidas. As mães de primeira viagem vivem rodeadas de dúvidas e medos. E o pior: essas dúvidas e esses medos não vão embora, mesmo depois que nossos bebês crescem. (Mas esse assunto fica pra outra crônica.)

Voltando para a reunião… Cheguei na escola apreensiva. Na sala de espera fiquei imaginando como seria recepcionada pela professora. Será que eu tomaria uma reprimenda de uma professora muito mais jovem do que eu, que ainda nem tinha tido o prazer de ter um filho? Ou seria recepcionada com louvores, dizendo que a minha filha tinha sido escolhida para a minimaratona anual científica infantil?

Pois é, nada disso aconteceu. A professora, muito delicada e cuidadosa, mencionou que a nossa menina, tão esperta e com todo o potencial pra ser a líder da turma, não estava participando da atividade de retirar livros na biblioteca.

Puxa, sofri tanto, e era apenas isso? Sem querer eu comecei a rir. O olhar de espanto da professora fez eu me sentir uma idiota. Como rir de uma situação tão grave? Uma criança que não vai à biblioteca emprestar livros, ela não gosta de ler? Como os pais não incentivam a criança a ler?

Me recompus e expliquei, envergonhada com a situação. Não sabia como dizer. A nossa filha já tinha lido quase todos os livros da biblioteca do ensino fundamental 1. Tínhamos todos eles em casa, e muitos mais (a biblioteca da escola não era assim uma Brastemp!).

A professora entendeu, e, meio constrangida, pediu desculpas. Conversa vai, conversa vem, tivemos a ideia da Roda de Livros. Toda semana as crianças emprestariam livros entre elas, seria bem divertido, as crianças leriam os livros e poderiam trocar ideias sobre a leitura.

Eu já estava imaginando livros nacionais e importados, novos autores, livros infantis lindíssimos como os pop-up. (Ainda não existiam os e-books.)

Em casa foi uma agitação, depois de contar sobre a atividade nova. Nossa menina seria a estreante. Que alegria poder escolher junto com ela os melhores livros para apresentar aos amiguinhos. Pegamos os mais bonitos, com as histórias que tinham encantado a minha menina. Foi um momento de felicidade em família.

Mas qual não foi a minha − a nossa − desilusão. Semana após semana, apareciam apenas livros de promoções, desses vendidos nas feiras e bienais, os famosos livrinhos de R$ 1,99, alguém se lembra?

Passadas algumas semanas e até surgiu um ou outro livro interessante, mas os de R$ 1,99 ganhavam de lavada. Com a decepção da nossa menina e, acredito, de outras crianças também, dessa vez era eu quem queria marcar uma reunião do tipo audiência com a coordenadora da escola, e até com os pais dos alunos. Mas fiquei na minha. Meu marido quase surtou com essa ideia.

Nossa filha recebia elogios pelos seus livros, alguns pais pediam pra ficar com eles mais dias. Meses passaram, e nada mudou. Os feiosos livros de R$ 1,99 se reproduziam feito coelhos.

Ficávamos perguntando qual seria o motivo de tamanho disparate, de tamanha desfaçatez e desrespeito com uma atividade tão importante. Falta de tempo dos pais, muito trabalho? Não queriam emprestar os livros bons? Não tinham livros em casa? Era mais fácil mandar qualquer livro? Achavam os livros infantis caros? Como?!? Numa escola de classe média alta? Era uma atividade de leitura para os nossos filhos. Não percebiam a importância de cultivar a leitura de forma lúdica?

Infelizmente, até hoje não tive uma resposta, nem cheguei a uma conclusão. Enfim… A atividade morreu, a biblioteca continuou às moscas. Mudamos nossa filha de escola, claro.

Leitores ou não leitores, todas aquelas crianças cresceram, com certeza, mas espero sinceramente que tenham aprendido uma pequena lição. Espero que um dia não decepcionem seus próprios filhos, colecionando apenas livros de R$ 1,99.

Ainda bem que esse perrengue aconteceu num passado muito, muito distante…

 

ilustra cronica22015-10-03

#

Depois dos cinquenta anos, eu creio que devemos viver apenas o presente: um dia após o outro, e se lembrar somente das coisas boas do passado. Não esperar muito do futuro. Infelizmente a Dona Morte estará mais próxima, talvez ela apareça de surpresa amanhã mesmo, ou daqui a trinta anos, quem sabe? Então, pensei com os meus origamis, farei o que gosto e tenho vontade (rebeldia tardia?, rs), desde que não desrespeite ninguém e fique em paz comigo mesma. Foda-se a opinião pública ou os achados & perdidos. Adoro origami, cerâmica, ser mãe, adoro gatos, literatura infantojuvenil e artes. Enfim, estou experimentando, pois a vida é pura experimentação, não é mesmo? E agora eu fiquei com vontade de escrever crônicas, sem mais nem menos… talvez influenciada pelo livro de crônicas que acabei de ler, Meio intelectual, meio de esquerda, do Antonio Prata, de quem virei fã. Abraços Dobrados Pós Cinquenta, rs.

Curiosidade

O que é Crônica

Anotações sobre a crônica, de Luiz Bras

Jornalista: “O que é crônica?”
Rubem Braga: “Se não é aguda, é crônica.”
(Anedota contada por Ivan Ângelo)

Origem etimológica: a palavra crônica vem do latim chronica (narrativa que segue a marcha do tempo), que vem do grego khronikos (relativo ao tempo), de khronos (tempo).

Cuidado: não confundir a crônica historiográfica da Idade Média e do Renascimento, sobre reis e impérios (Crônica de Dom Pedro, Crônica de Dom João etc.), com a crônica moderna, totalmente diferente.

A crônica moderna é um texto curto, de quatrocentas a quinhentas palavras. É uma xícara de café, um sorvete. Um lampejo de inteligência pra ser apreciado em poucos minutos.

Pop star há mais de um século, sua popularidade cresce sem muito esforço entre jovens e adultos. “A crônica é a iniciação do brasileiro ao prazer de ler” (Joaquim Ferreira dos Santos).

Analogia: a crônica é um cartum, uma fotografia, enquanto o conto é uma história em quadrinhos, um curta-metragem.

Continue lendo sobre as anotações no link: https://luizbras.wordpress.com/2014/07/22/anotacoes-sobre-a-cronica/

#

Crônica 1 – 05 setembro 2015

gatoazulverde

Ailurófila assumida, por dois gatos.

Primeiro, me apaixonei perdidamente pelo gato de olhos verdes.

Só mais tarde, me apaixonei pelo segundo gato, agora, o de olhos azuis.

Os dois têm temperamentos completamente diferentes, por isso sempre estão se estranhando: miados e arranhões. Luta de machos, marcando cada um o seu território.

O sofá é o mais disputado, onde fazem a sesta. Disputam também a cadeira giratória do computador. E disputam pra ver quem chega primeiro à cozinha.

A pia de mármore amarelo capri é seu local predileto. Olhares ferozes e ameaçadores, quem fará o primeiro assalto?

Dois gatos que se alimentam igual a leões, chegam famintos e devoram tudo. Não mastigam, engolem a comida, sua caça. Um adora carne de frango, o outro detesta. Um foge da água, o outro se banha com água gelada.

Ambos me amam, disputam o meu colo acolhedor e quente. Pedem carinho e atenção a todo o instante, exigem afagos e cafunés.

Quando sentem prazer, eu sinto a inspiração e a expiração. Ronronam duas, três notas diferentes.

Nada foge do seu olhar, eles caçam com o ouvido e o nariz.

Seus olhos hipnotizadores foram desenvolvidos para enxergar movimentos até no escuro. São observadores atentos, captam as sutilezas do mundo e das pessoas. Inteligentes e amorosos, mas independentes. Eu diria que são únicos!

Não sei qual dos dois é o mais exibido. Brincalhões, fazem qualquer coisa apenas pra chamar a atenção e cativar. E como são charmosos, ai meu Deus!

São leais, e adoram voltar pra casa depois de uma longa viagem.

Ah, e como não se lembrar do aviso: “a curiosidade matou o gato”? Como são curiosos e meticulosos! Nada os detém, vasculham tudo, tim-tim por tim-tim.

São misteriosos e românticos, e sempre guardam um segredo em algum lugar.

Outra frase divertida: “o gato comeu a sua língua?”

Um adora a biblioteca, o seu lugar predileto é entre os livros. O outro adora o computador, não desgruda dele.

Os meus dois gatos são ótimos companheiros, sempre do meu lado, mesmo que eu não lhes dê a mínima atenção. Sempre no mesmo cômodo, apenas pelo prazer da companhia. E se no ambiente houver musica clássica, se deleitam.

Foi muito difícil conquistá-los. Indomáveis, mas depois que os conquistei… ou eles me conquistaram?

Nada poderá nos separar, apenas a senhora morte. Espero que o mito das sete vidas se realize nesse casamento a três.

O gato mais velho do mundo foi o inglês Puss, que morreu em 1939, um dia após ter completado 36 anos.

Ailurófila: qualidade de quem tem amor ou paixão aos gatos ou felinos em geral.

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s