Contos & Minicontos InfantoJuvenis

[ Uma fábula sobre a fábula, agora no Japão.]

Conto adaptado por Tereza Yamashita

fabulafabulaConfecção e criação da boneca: Tereza Yamashita

Quando a mulher foi moldada no barro, também foi criada a Fantasia.

Num belíssimo palácio situado ao pé de uma das mais famosas montanhas japonesas, o Monte Fuji, morava um Samurai e o seu guardião: o Tsuru Vermelho.

fabula

Essa mulher resolveu visitar o palácio trajando um vestido de seda transparente e macia, e assim foi bater à porta do rico palácio. O guardião, ao ver aquela linda mulher quase nua, perguntou-lhe:

01verdade

— Quem és?

— Sou a Verdade — respondeu ela, com voz firme. — Quero falar com o mestre dos mestres, o grande Samurai.

O Tsuru voou rapidamente e, curvando-se humildemente, disse ao seu mestre:

— Mestre, uma mulher desconhecida, quase nua, quer conhecê-lo!

— Como se chama?

— Chama-se Verdade.

— A Verdade quer penetrar neste palácio? Não quero me encontrar com a verdade! Ela seria a minha perdição, a nossa desgraça. Diga-lhe que uma mulher nua e despudorada, não entrará no meu palácio!

O Tsuru retornou ao portão e, abrindo as suas longas asas, disse à mulher:

— Não podes entrar, mulher. A tua nudez iria ofender o nosso Samurai. Com esse ar impudico não poderás ir à presença do nosso mestre.

Percebendo que não conseguiria realizar o seu intento, a Verdade ficou muito triste e afastou-se lentamente do grande palácio, cujas portas foram-lhe fechadas.

 

Mas… Quando a mulher foi moldada no barro, também foi criada a Obstinação.

 

A Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar o grande palácio.

E havia de ser o próprio palácio em que morava o mestre dos mestres, o grande Samurai.

No dia seguinte, cobriu-se novamente, agora com um tecido grosseiro de algodão, como os que usam os peregrinos, e foi novamente bater à porta do misterioso palácio.

acusação

Ao ver aquela formosa mulher, mas grosseiramente vestida, agora com trapos, suas penas se arrepiaram, e o Tsuru Vermelho, quase sem voz, perguntou-lhe:

— Quem és?

— Sou a Acusação — respondeu ela, em tom alto e severo. — Quero falar com o grande Samurai, o mestre dos mestres.

O Tsuru voou rapidamente, zeloso e apreensivo e, curvando-se humildemente, disse ao seu mestre:

— Mestre, uma mulher desconhecida, vestida grosseiramente, quer conhecê-lo!

— Como se chama?

— Chama-se Acusação.

— Acusação? — repetiu o mestre, aterrorizado. — A Acusação quer penetrar neste palácio? Não quero me encontrar com a Acusação! Ela seria a minha perdição, a nossa desgraça. Diga-lhe que uma mulher tão grosseira e mal-educada não entrará no meu palácio!

O Tsuru retornou ao portão e, abrindo as suas longas asas, disse à mulher:

— Não podes entrar, mulher. A tua rudeza iria ofender o nosso Samurai. Com esse ar austero não poderás ir à presença do nosso mestre.

Percebendo que não conseguiria realizar o seu intento, a Verdade ficou muito decepcionada e afastou-se rapidamente do grande palácio, cujas portas foram-lhe fechadas, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

 

Mas… Quando a mulher foi moldada no barro, também foi criado o Capricho.

 

A Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar o grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o mestre dos mestres, o grande Samurai. Cobriu-se dessa vez com riquíssimos trajes de seda pura, adornou-se de pérolas e lenços, cobriu o rosto com um leque todo pintado a mão, como usavam as misteriosas gueixas, e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio.

fábula

Ao ver aquela formosa mulher ricamente vestida, suas penas se arrepiaram de deslumbre, e o Tsuru Vermelho, quase cantando, perguntou-lhe:

— Quem és?

— Sou a Fábula — respondeu ela, em tom meigo e melodioso. — Quero falar com o grande Samurai, o mestre dos mestres.

O Tsuru voou dando piruetas, alegre e encantado, e, curvando-se humildemente, disse ao seu mestre:

— Mestre, uma linda mulher, vestida como princesa, quer conhecê-lo!

— Como se chama?

— Chama-se Fábula.

— Fábula? — repetiu o mestre, cheio de alegria. — A Fábula quer penetrar neste palácio? Que seja bem-vinda! Ela será recebida como se fosse uma verdadeira rainha! Diga-lhe que as portas do palácio serão todas abertas.

E foi assim, pela porta principal, com aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer para o mestre dos mestres, o grande Samurai.

duasfrente

Adaptação do conto Uma fábula de uma fábula, do livro “Minha vida querida”, de Malba Tahan. Rio de Janeiro: Conquista, 1957, p.93-98.

Um raio de sol
Tereza Yamashita

Ilustra.Tsuru 16.MetamorfoMandala Sol 016.16032017

Acordei com vontade de ir ao parque para andar de bicicleta, mas

estava chuviscando. Fiquei triste, voltei para a cama, mas a minha mãe me acordou com um beijo especial.

— Hora de levantar, hoje está um lindo dia! Teremos biscoitos assados e quentinhos. Saindo do forno!

Mães! Um lindo dia?! Urgh… Mas os biscoitos estavam uma delícia.

Da janela, mamãe me mostrou um lindo arco-íris que se formou depois da chuva, colorindo o céu. Apontou a grama verde, riu dos pássaros saltitando nas poças de água e das borboletas que brincavam entre as flores.

Minha mãe insistiu que eu pegasse a minha bicicleta e fosse até o parque. Fui contrariado, pedalando ligeiro.

De repente, caí de cara no chão. Abri os olhos…

— Quem foi o maluco que deixou uma sacola no meio do caminho?

Na sacola, encontrei um livro grosso com as páginas em branco. Era um caderno de desenho. No fundo da sacola, um estojo cheio de lápis! Urghhh. Que dia!”

Coloquei a sacola na garupa e saí pedalando. Que dia chato, não encontrei nenhum amigo. Cansei e me sentei embaixo de uma árvore.

Que susto! O estojo de lápis escorregou e um lápis caiu na minha mão.

Peguei o lápis e abri o caderno. Olhei pra folha em branco, ela olhou pra mim.

De repente, na minha frente, um esquilo estava tentando roer a roda da minha bicicleta. Que danado!

— Vou fotografar isso, eu pensei… mas esqueci o meu celular.

Então, peguei o lápis e resolvi desenhar. Não ficou muito bom, mas parecia um esquilo. Caramba, sem querer eu tinha feito o meu primeiro desenho.

Ouvi passos pesados, eles se aproximaram e pararam. E uma voz aguda feriu os meus ouvidos:

— Então foi você? Você pegou a minha sacola!

Pedi desculpas, quase sem fala… entreguei o caderno aberto.

Fui saindo de mansinho quando… a mulher me segurou pelo braço.

— Minha mãe compra outro caderno pra você — eu falei amedrontado.

— Que desenho lindo! — Ela falou mais gentilmente — Eu também adoro desenhar, sou professora de biologia.

Ufa! — Pensei que ela ia me dar uma bronca.

Eu respondi aliviado:

— Não ficou muito bom. É apenas um rascunho, eu disse sem graça.

Ela me contou histórias muito legais sobre a importância da natureza, da ecologia e da estrela sol.

No final, ela me pediu desculpas, por ter sido rude no começo, e então, ela me presenteou com o seu caderno.

Tem dia que parece que tudo vai dar errado. Então, como num raio de sol, tudo dá certo. A chuva vai e vem, o sol aparece e num piscar de olhos, encontramos um amigo.

Pensando bem, que bom que fui saído do quarto, rs, e fui parar no parque. Acho que a natureza, a estrela sol e os beijos das mães são mágicos. Elas são feitas de amor!

[Ciúme]
Tereza Yamashita
Foi sem querer. Eu não queria magoá-lo, mas aconteceu. O meu diário era lindo! Suas folhas eram todas coloridas, e em cada página um desenho diferente.
— Ei Carol, não força a ponta da caneta, não. Você está me fazendo cócegas, você esqueceu que o papel das páginas são muitos delicadas?
Ele era o meu melhor amigo. Além de resmungão, como já deu para perceber, ele era muito legal. Os meus segredos estavam todos lá. Ele era demais, sabia guardar segredo como ninguém. Às vezes ficava todo emocionado com as minhas confissões, mesmo assim, me dava bronca com a voz embargada:
— Pare de chorar, você irá borrar as minhas páginas. Essa tinta se desfaz à toa, cuidado.
Mas um dia conheci outro cara legal que logo se tormou meu amigo.
Era o blog.
Nele eu conseguia escrever e desescrever sem ter que usar o corretivo. Era só digitar e editar. Dava pra colocar fotos sem a sujeira de antes. Cola pritt e durex, nem pensar! Minhas amigas logo o conheceram, foi o maior sucesso. Todos queriam vê-lo, dar sugestões e participar. Era o máximo, e o meu novo melhor amigo ficou muito vaidoso.
— Não sou demais?! Milhares de pessoas já me acessaram — dizia todo convencido.
Logo o danado começou a ficar muito popular. Por isso, muitos invejosos começaram a se meter em nossa vida. Criticando, fazendo brincadeiras bobas, deixando recadinhos grosseiros. E o pior, os antipáticos deixavam os posts, mas não se identificavam, só deixavam os apelidos. Até que eram engraçados: Perna-de-pau, Cachorrão, Gata Mimada, Chulé, Dedo Duro, Se Enxerga, Olho Vivo, Buscapé, Caramba, XD, BV.
Um dia, cansada de ficar com o blog, sentada na minha velha escrivaninha eu ouvi um soluço triste vindo da gaveta:
— Chuif… Ela não escreve mais em mim. Os tempos mudaram. Odeio esse tal de blog.
Então me lembrei do meu diário. Coitado, estava com a cara mais triste do mundo. Cara de amigo abandonado. Fiquei sem-graça e fui logo pedindo desculpas. Coloquei ele pertinho do coração e fizemos as pazes.
Ele ainda estava com a carinha meio triste, então tasquei um beijinho na sua capa e fomos colocando a prosa em dia e, quando vimos, estávamos íntimos novamente.
— Não me fale desse blog — ele reclamou, fechando as páginas correndo.
— Calma, você nem o conhece? Como pode menosprezá-lo?
Logo percebi que ele estava com um tremendo ciúme. Eu disse ao diário que ele, o blog, era um amigo diferente. Era do tipo brincalhão, amigo de festas, diferente dele que sabia guardar os maiores segredos. Disse que eu adorava os dois, cada um do seu jeitão, que ele não precisava ficar enciumado.
E assim os dois ficaram amigos. O ciúme passou.
— Somos demais, não somos? Formamos o trio mais legal do mundo! — disse o blog todo metido.
— Não exagera — respondeu o diário, todo encabulado.
Disso tudo eu aprendi uma grande lição: a valorizar cada amigo por ele ser único, pois acho que a diferença é que nos une.
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Obs: Este contito já foi publicado também em:
• Germina
 
 Mais uma vez o meu miniconto Ciúmes foi escolhido. Da primeira vez saiu na Folhinha, e agora vai fazer parte de um livro didático: Para Ler o Mundo – Língua Portuguesa – 8º ano. Autoria de Antônio Barreto, Graça Sette, Maria Angela Paulino e Rozálio Starling da Editora Scipione.
 
• Folhinha de São Paulo
Aqui a reprodução do miniconto que saiu na Folhinha na edição de 2005.