Minientrevista com Cláudio Brites, escritor e editor-chefe da Terracota Editora

[ Minientrevista de Tereza Yamashita com Cláudio Brites, editor-chefe da Terracota Editora, escritor e graduando em psicologia. ]

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Conheci o Cláudio creio que num lançamento do Nelson de Oliveira (Luiz Bras), em seu primeiro livro editado pela Terracota. Quando fui visitar o Espaço Terracota, o Nelson ainda ministrava aulas nessa escola. E, assim, tive o prazer de conhecer toda a turma: Nanete, Petê, Tiago, Ricardo Delfin, Marcelo Maluf, Renato Torelli (e até fiz a edição do booktrailer da primeira turma do curso).

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Como já entrevistei muitos editores com grande experiência, dessa vez resolvi fazer uma minientrevista diferente e ter o depoimento de um jovem editor e escritor. Assim, resolvi convidar o Claudio Brites, que aceitou gentilmente responder as perguntas abaixo. Arigatô!

Ah, e aproveitando a oportunidade, quero agradecer em meu nome, e em nome do Luiz Bras, ao Carlos Andrade, ao Cláudio e a toda a equipe da Terracota pelas várias parcerias. A mais nova surpresa é o novíssimo lançamento da coleção Oficina de Bolso (em 25 de abril, lançamento online!). O projeto gráfico é assinado pelo designer e ilustrador Fernando Lima. Nosso obrigado, e fica aqui registrada uma singela homenagem.

A coleção já está sendo vendida pelo site: http://terracotacultural.com.br/loja/colecao-oficina-de-bolso/

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Acima, as capas desenhas por Fernando Lima.
Abaixo, uma das ilustrações do miolo do livro do Luiz Bras, por Teo Adorno.

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Cláudio, como foi a sua infância/adolescência, e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte de sua vida?

CB: Minha história é meio clichê: eu era gordinho, não manjava de futebol e acabava me retraindo e estabelecendo pouquíssimas amizades. Entre elas, videogames e livros. Minha mãe, que achava o mundo um lugar perigoso pro filhinho dela, encorajava a nerdice e livros não faltavam. O primeiro lembrado foi um didático do professor. Era um livro com respostas, minha professora da terceira série me deu pois eu faltava muito na escola. Aquilo me deu uma sensação de poder, sabe? Tinha o livro da professora, um oráculo. Ao mesmo tempo eu conheci Marcelo, Marmelo, Martelo e tantas dentro daquele baú. (Aqui é importante um parênteses, as pessoas podem não entender a magia da coisa pois hoje todos têm livros didáticos, mas naquela época só o professor ou quem podia comprar é que tinha, o livro servia como base para as lições que o professor passava na lousa. Sendo assim, a nem todo conteúdo do livro nós teríamos acesso no ano letivo). Depois desse livro veio a coleção Vagalume com o Escaravelho do Diabo, A ilha perdida, o Cadáver ouve rádio e quadrinhos (Superman, Batman, Turma da Mônica). E os livros me apresentaram o RPG, com a coleção da Abril Você é o Herói. O RPG me aproximou do grupo dos “caras do RPG”, alguns deles jogavam futebol, o que me fez ser menos zoado. Na sexta série, então, eu conheci o teatro. Escrevi uma peça com uma amiga, sobre Mitologia Grega. Fui Vulcano (só hoje entendo o significado irônico do papel), ao final da apresentação os meninos que me zoavam/batiam vieram me elogiar pelo trabalho, aquilo foi algo inexplicável. Não só me aproximava deles, mas tinha agora o respeito deles. Abracei o teatro, o que tornou minha vida na sétima e na oitava fáceis como nunca foram. No Ensino Médio, escolhi fazer técnico em Publicidade porque era um curso que tinha um grupo de teatro. O teatro fez parte da minha vida durante muito tempo, mas é um amigo que agora visito pouco. Ele me tirou da adolescência com vida, junto com os livros e videogames. Claro, não foi a melhor forma de resolver as coisas, o escapismo, mas foi como resolvi e acho que na média os resultados foram bons.

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Sua formação acadêmica (linkedin) é em Letras, você fez o mestrado em Linguística pela Universidade Cruzeiro do Sul (blogue) e atualmente está cursando a faculdade de Psicologia, correto? Por que você decidiu mudar de área?

CB: Eu fui parar em Letras meio que sem querer. Eu queria ser jornalista ou continuar com a Publicidade (descartava a ideia do teatro, pois os resquícios da juventude me criaram algumas fobias sociais e ansiosas que me atrapalhavam na rotina exigida). Comecei Comunicação Social, mas no terceiro ano já não dava conta de pagar. Foi quando uma professora me disse: – Você seria um ótimo professor. Eu já até tinha pensado naquilo, mas eu queria dar aula de História. Letras? Eu era péssimo em Gramática, cometia erros crassos de grafia (caza), nunca tinha pensado naquilo. Mas tinha que tomar uma decisão, a faculdade era barata, aceitei. Aproveitei muito das literaturas, mas não me dediquei tanto às questões de língua. O mestrado meio que foi colado com a faculdade, pois como bom aluno consegui bolsa da CAPES. Prestei concurso da Prefeitura e só consegui dar aula durante 3 anos. Na escola, percebi que odiava o sistema com todas as minhas forças, via a mesma cena que vivi sendo reproduzidas ali, tanto tempo depois, mas agora eu também conhecia o lado dos valentões… Então decidi que não queria mais aquilo, porque na prática eu não conseguiria ajudar a desconstruir aquela arena de rinha milenar. Terminando o mestrado vi que a única área profissional com a qual eu tinha afinidade era a Psicologia, porque eu não daria conta de viver como revisor – única parte de Letras que me sobrava – e embarquei nessa, e nunca estive tão apaixonado.

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Quando o conheci, você coordenava o Espaço Terracota, e junto com Carlos Andrade (sócio-fundador) você convidou o Nelson de Oliveira (Luiz Bras) para coordenar o curso de pós-graduação lato sensu de Prática de Criação Literária em parceria com a Universidade Cruzeiro do Sul, realizado no Espaço Terracota, correto? Foi a partir desse momento que você começou a editar livros, a trabalhar com design gráfico e a coordenar cursos e atividades?

CB: Foi. O Carlos Andrade tinha tentado uma empreitada editorial que não deu certo como ele queria, resolveu abrir outra editora e me convidou para editar. Eu acabei aprendendo a fazer tudo para que pudéssemos economizar, só pagávamos revisão e gráfica, o resto era comigo. Os cursos também vieram pela experiência dele com educação, eu embarquei a reboque. Eu adoro editar livros, gosto muito de todo processo que precede o lançamento, mas não tenho paciência para o que vem depois: a parte comercial, o canibalismo da coisa… Hoje temos um perfil quase artesanal, com edições pequenas, para poucos. Livros com qualidade literária indiscutível que acabam, com ajuda de seus autores e da internet, chegando no colo de leitores exigentes, que não se contentam com as prateleiras. Fora isso, temos o filão acadêmico, que nos mantém ativos. Eu pretendo editar livros enquanto a Terracota permitir, amo mesmo isso.

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Na editora você já organizou várias coletâneas em parceria com outros autores. Como surgiram as ideias desses projetos coletivos. Ah, você também escreve ficção e foi contemplado com uma bolsa do Programa de Ação Cultural – ProAC 2011 – da Secretaria Estadual de Cultura, e lançou o romance Talvez. Conte-nos como foi essa experiência.

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CB: As coletâneas, de início, foram uma estratégia de guerrilha. Queríamos divulgar o nome da editora para o máximo de pessoas e precisávamos que esse nome viesse, de cara, apadrinhado por qualidade. Então vieram as coletâneas, foram várias, com a participação de nomes que eu nunca imaginei conhecer pessoalmente – como Raimundo Carrero, Márcio Sousa, Moacyr Scliar –, elas não só trouxeram nome para editora, mas também para vários autores até então desconhecidos. Em algumas delas, publicava meus contos, a escrita para mim nunca foi algo fácil, mas eu usava como uma compensação de ter me afastado do teatro, e isso foi ganhando espaço na minha vida.

O romance nasceu antes da editora, nas oficinas do Marcelino Freire. Eu levava contos que ele destruía, nunca elogiou uma linha, um dia levei quatro capítulos do romance e ele disse: olha lá, isso sim. O grupo concordou e eu resolvi continuar. Fiz oficina com o Nelson de Oliveira, o grupo novo também gostou do material. Não tem jeito, oficinas são uma bússola e, errado ou não, você acaba se guiando pela opinião desse grupo de primeiros leitores. Então fui trabalhando, e veio a editora, logo soube do ProAC, tentei umas três vezes, na última acabei contemplado (o livro já tinha até esfriado). Foi uma experiência única, mesmo já tendo escrito minha dissertação, a feitura do romance foi outra coisa, ainda não sei muito falar sobre ela. O livro encontrou poucos leitores, mas o suficiente para obter a tão sonhada interlocução. E o dinheiro me ajudou um bocado, tenho que confessar.

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Você editou uma coletânea de ficções para crianças e jovens, organizada pelo escritor Marcelo Maluf, correto? Qual a sua opinião, como editor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea? Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior? Agora, com dois filhos pequenos, você pretende escrever um livro também para o público infantil?

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Autores: Cláudio Fragata, Cláudio Brites, Daniela Pinotti, Heloísa Prieto, Índigo, Jorge Miguel Marinho, João Anzanello Carrascoza, Leo Cunha, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Maluf, Marilia Pirillo, Maria José Silveira, Sandra Pina, Silvana Tavano, Sônia Barros, Tânia Alexandre Martinelli, Tatiana Belinky, Tereza Yamashita e Valquíria Prates. Confiram as minientrevistas! Infelizmente as mais antigas estavam no extinto Cronopinhos.

CB: O preconceito deve existir na crítica moribunda ou nos prêmios, não sei. Afinal, existe para a literatura chamada de “entretenimento”, não é? Embora esta última arrebate milhões de leitores (eu entre eles). Mas não existe no mercado e, muito menos, entre os leitores. A literatura Juvenil move milhões. A literatura infantil é o que mantém muitos escritores, e editores, da chamada literatura adulta. Quem disser que é uma literatura menor no que diz respeito a “qualidade” ou “permanência”, bem.. Não vale a pena perder tempo com essas pessoas. Ande por aí, existem livros de literatura infantojuvenil que são verdadeiras obras de arte tanto do ponto de vista literário quanto do ponto de vista gráfico, que vão muito além da idade e do tempo.

Eu comecei um livro, chama o Cemitério das Mariposas, mas ainda demorará anos para ser concluído – escrever para crianças e jovens exige certa maturidade e experiência que eu ainda não tenho.

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Depois de editar muitos livros e escrevê-los também, que conselho você daria aos novos autores? Você os aconselharia a entrar para o mundo dos e-books?

CB: Olha, eu acredito que se você quer ser lido, deve correr atrás de ser lido. E nem sempre ser lido quer dizer ter uma editora – aliás, às vezes isso até atrapalha. Publique por conta, publique em ebooks (que são mais em conta e melhores de administrar as vendas), não deixe seus textos na gaveta se acreditar que eles estão prontos, que você tem algo para dizer. Mas faça com cautela, passe os textos para amigos críticos, pague se for preciso um leitor profissional e antes de publicar mande para um revisor. Tente as editoras, claro! Não deixe de tentar, elas são curadores e podem dar uma visão nova sobre seu trabalho. E algumas podem realmente semeá-lo. Mas não dependa delas, porque elas são reféns do mercado. É o mercado que tem ditado o que vamos ler na próxima estação, as grandes varejistas, as grandes produtoras de entretenimento. Mas esse é um mercado que eu aprecio quando vou assistir Vingadores no cinema, mas existem outros: de leitores que não gostam do Hulk, mas que não se satisfazem com Cosac e Cia das Letras. Há espaço, a internet permite esse espaço, e o autor iniciante tem que saber o que quer para poder usar dos recursos disponíveis.

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 http://rascunho.gazetadopovo.com.br/pesquisa-sobre-a-evolucao-literaria-no-brasil-7/

Confiram também a mini com o editor do Rascunho Rogério Pereira

 

5 - Foto_por_Ana_LuisaFoto enviada pelo editor,  tirada pela pequena herdeira, Ana Luísa!

E, para terminar, você comentou que haverá uma grande reformulação no Espaço Terracota e na editora, e que a partir de 2014 você só editará livros acadêmicos e científicos, correto? Fale um pouco a respeito.

CB: O Espaço fechou, foi o fim de uma era muito legal. Focaremos mais na editora. Publicaremos livros acadêmicos com mais frequência. Diminuiremos a produção literária. E investiremos no recém divulgado projeto Oficina de Bolso, cadernos criativos para quem quer praticar sua escrita sem sair de casa. Não trabalhamos mais com consignação, o que faz com que encontremos pouquíssimo espaço na maioria das livrarias. Contudo, não vemos isso como problema e nem os autores com os quais trabalhamos, afinal o leitor pode obter nossos livros pelo site, a entrega é rápida e ainda com desconto – repassamos para ele o desconto que ficaria com a livraria. Mídias sociais e internet são suficientes para dar conta do nosso mercado.

Claudio Brites (1983) | pai de dois filhos. Formado em Letras e mestre em Linguística, atualmente cursa graduação em Psicologia. Trabalha como design gráfico e revisor e é editor na Terracota Editora. Organizou algumas coletâneas, tem publicado textos esparsos, em 2010 lançou um romance em coautoria com mais três ficcionistas, A Tríade. Seu primeiro romance, Talvez, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural – ProAC 2011 – da Secretaria Estadual de Cultura e lançado em 2013.

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 Links:

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Rogério Pereira, editor do Rascunho

[ Minientrevista com Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho e do site Vida Breve, atual diretor da Biblioteca Pública do Paraná, que publica o Jornal Cândido ]

ROGERIO PEREIRAFoto: Guilherme Pupo

Mais um ano está começando, como passou rápido! Esta é a terceira minientrevista de 2014! É sempre muito interessante conhecer um pouco da vida e da carreira de todos esses profissionais do livro. Adoro! Com as mini, eu presto uma pequena homenagem a eles, agradeço por todas as parcerias, relembro saudosamente o passado e espero continuar presente na vida de todos, ainda num futuro bem distante, rs.

Se minha memória não estiver falhando, conheci o Rogério em meados de 1999, quando fomos, Joca Terron, Nelson de Oliveira e eu para Curitiba, lançar o livro Treze, da extinta editora Ciência do Acidente. Deixamos a Érica com os meus pais, e, de buzão, partimos à meia-noite. Que viagem cansativa, mas foi muito divertida! O Nelson e eu fomos recebidos pela simpática família do saudoso Valêncio Xavier. Nos hospedamos, na época, na pequena edícula do casal. Lembro-me que o Nelson/Luiz Bras e eu quase não falávamos, apenas ouvíamos as fantásticas histórias do Valêncio, de cabelo branco e com uma vitalidade insuperável. Ele nos contagiava com sua enorme alegria de viver. Ah, Valêncio nos levou para conhecer Curitiba em seu velho fusca branco, debaixo de chuva… sem enxergar direito, e mesmo assim dirigindo! Eu via cada esquina como o cenário possível de um pequeno acidente. Que aventura, rs.

Depois, não me recordo bem, acho que fomos convidados para um almoço, e ali eu acabei conhecendo o Rogério Pereira: alto, magro, falante e elétrico, rs. Um almoço rápido, no centro da cidade, na mesa estavam alguns autores, entre eles o Manoel Carlos Karam, creio que a professora e escritora Luci Colin também estava presente.

Enfim, foi assim que conheci pessoalmente o Rogério, a partir daí o nosso contato foi só através de e-mails. Comecei a colaborar esporadicamente com o Rascunho, com ilustrações. O polêmico editor do Rascunho até publicou um conto meu, rs. Clique aqui! Foi um dos meus contos expressionistas, publicado primeiramente no site das Escritoras Suicidas (confira  a minientrevista com a editora do site: Silvana Guimarães). Ah, o conto, com uma ilustração minha, também foi publicado na Revista Continente de Pernambuco! Bons tempos.

A minha primeira ilustração colorida para o Rascunho foi publicada em novembro de 2005, para o poema do Carlos Nejar: Antielegia à justiça. Depois fiz várias ilustrações, mas a minha maior participação no jornal foi com as ilustras para o romance-folhetim de Nelson de Oliveira, Poeira: demônios e maldições, de novembro de 2006 até fevereiro de 2008. E em 2010, o romance foi publicado pela editora Língua Geral.

Em novembro de 2009 fui convidada pelos editores Rogério Pereira e Luís Henrique Pellanda para fazer parte do grupo de ilustradores do site Vida Breveilustrando as crônicas da Ana Paula Maia. Depois ilustrei as crônicas do Fabrício Carpinejar e, por último, as delicadas e emocionantes crônicas do Rogério Pereira.

Bom, já falei, ou melhor, escrevi demais. Agora, se deliciem com a mini do Rogério. Aqui fica o meu agradecimento, por ter tido a honra de ilustrar vários autores conceituados, e vários dos meus escritores prediletos, rs. Valeu, arigatô!

Como foi a sua infância/adolescência e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida? Você começou a trabalhar como contínuo (office boy) na Gazeta do Povo aos 14 anos, correto?

Minha infância esteve, desde sempre, muito distante da leitura e de qualquer expressão cultural. Tínhamos algo muito mais importante e urgente entre nossas preocupações: a sobrevivência da espécie. Neste caso, nós mesmos. Éramos um bando vindo da roça para a cidade grande (Curitiba). A leitura começou a fazer parte da minha vida na escola. Em casa, nosso contato com a alta cultura se dava por meio de uma velha televisão Telefunken (preto-e-branco). Ali, assisti ao desenho Tarzan. Foi o que apareceu quando o pai ligou aquela geringonça. Um menino no meio da floresta. Eu era um menino selvagem no meio de prédios. Trabalho desde que passei do estado rastejante para o estado vertical. Quando as pernas aguentaram mais de dois passos, lá fomos nós para a lida. Não era ruim. Era normal entre nós. Comecei vendendo flores na rua, depois em frente aos cemitérios, em seguida nas belas praças de Curitiba. Ou seja, aos poucos evolui. Depois, trabalhei em fábrica de móveis e dentais. Aos 14 anos, entrei na Gazeta Mercantil. Descobri que a palavra escrita fazia algum sentido. Homens (alguns até sérios) sentavam em máquinas de escrever e, incrivelmente, escreviam. E ganhavam a vida escrevendo em pedaços de papel. Muito melhor que vender flores, carregar cadeiras, cortar lenha, assentar tijolos e outras maravilhas do mundo laboral. Então, resolvi copiar aqueles homens: comecei a escrever. Estou por aqui escrevendo até hoje. Só ainda não sei se não deveria ter insistido um pouco mais com as cadeiras.

Rogério, você é jornalista, com pós-graduação em Comunicação e Gestão Política pela Universidade Complutense, de Madri (Espanha), correto? Conte-nos como você criou o jornal Rascunho, lançado em abril de 2000. Em outra entrevista, para a jornalista Eliana Brum, você revela que foi por pura vingança. Comente.

Acho que criei o Rascunho por tédio e um pouco de arrogância. Tinha acabado de voltar da Espanha, estava aqui num empreguinho de assessor de imprensa na Prefeitura de Curitiba (um dos trabalhos mais chatos da minha vida; pior que lamber os ossos dos defuntos em frente ao cemitério). Então, resolvi criar um jornal de literatura. Reuni alguns malucos, sentamos num bar e começamos o Rascunho em 8 de abril de 2000. E estou fazendo isso até hoje (14 anos agora em abril). Mas como sinto saudades dos velórios, do chororô dos parentes e das muitas flores que vendia! Se o Rascunho é uma vingança? Claro que é. Só não sei muito bem contra quem. Talvez contra mim mesmo e contra aquela maldita escolha que ficava tão longe na infância da mãe. Ela só lia a Bíblia com a ponta dos dedos. Catava milho pelos passos de Jesus com a ponta áspera dos dedos. Até o dia em que os dedos se enrijeceram para sempre. E a jogamos no fundo de um caixão ordinário.

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Em um de seus depoimentos, você brinca que criou uma holding: editor do jornal Rascunho, coordenador do Paiol Literário, editor do site Vida Breve, já foi sócio do Quintana Café & Restaurante e atualmente dirige a Biblioteca Pública do Paraná, editando o jornal Cândido. Conte-nos como é esse seu outro lado, o de executivo.

Claro: a holding da sobrevivência. É tudo muito simples: precisamos fazer algo para passar o tempo enquanto alguém não vende flores para adornar o nosso caixão. A lógica é muito simples, apesar de assustadora. Gosto de criar coisas que me parecem impossíveis. Adoro passar o tempo com muitas preocupações na cabeça. Adoro ter insônia. E gastrite. Sou fanático por dívidas nos bancos. Aprecio amealhar muitos inimigos. Salutar considero os falsos amigos. Então, nada melhor do que ter um jornal de literatura, escrever ficção, editar um site de crônicas, dirigir uma biblioteca. Estou no paraíso, apesar de ele se parecer muito com um paraíso em chamas, cujo bombeiro é próprio demônio. De resto, sou muito organizado. Sobreviver requer paciência e organização. Quando o caixão de bracatinga chegar, não terei contas, tampouco deixarei herança. Só os inimigos a lamber os beiços às bordas de ordinários crisântemos.

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Qual a sua opinião, como escritor, editor e leitor-crítico, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea, agora que você é pai de dois futuros leitores?

Tenho lá minhas dúvidas se meus filhos serão leitores. Acho que isso é um problema deles. Eu dou um empurrão, mas sem qualquer ilusão. A literatura infantojuvenil é boa e ruim como tudo nesta vida. Como qualquer outra coisa que consumimos: carros, sabonete, pipoca e preservativos. Existem excelentes escritores. E escritores medíocres. Como sou um leitor razoavelmente rodado, procuro ler bons livros para os meus filhos. A vida é muito curta para se perder tempo com má literatura. O problema da literatura infantojuvenil é que boa parte dos escritores a considera algo fácil e simplória. A maioria dos autores escreve como se do outro lado do livro estivesse um retardado, um ser incapaz de compreender o mundo. É um monte de bobagem. É estúpido tratar a criança com um ser delicado, ingênuo, bobinho etc. As crianças são terríveis. E sofrem muitíssimo na infância. A infância não é o melhor momento da vida. Longe disso. E grande parte da literatura infantojuvenil tende a pintar um mundo estúpido e colorido. A vida, em qualquer momento, tem seus momentos coloridos. Mas ela é sombria e ameaçadora.

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Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior? A seção Rabisco, no jornal Rascunho, foi criada justamente para tentar quebrar esse suposto preconceito?

Acho que respondi parte desta pergunta anteriormente. A questão é que muitos autores tornam a literatura infantojuvenil em algo banal, sem importância, menor. É claro que existem muitas exceções. E excelentes exceções no Brasil. Poderia citar diversos autores de literatura infantojuvenil de grande qualidade. A seção Rabiscoserve para fortalecer o Rascunho como o “jornal de literatura do Brasil” — o que é de uma arrogância terrível.

Em 2011, você lançou a versão online do jornal Rascunho e criou, junto com Henrique Pellanda, o site Vida Breve. Você acredita que os e-books, num futuro próximo, substituirão os livros de papel? E em relação ao jornal impresso, você acredita que esse veículo também tomará o mesmo rumo?

O site do Rascunho existe desde 2002. Nos últimos anos, venho trabalhando para melhorar a versão online do jornal. Minha opinião sobre tudo isso: o papel e o digital vão viver em harmonia. É certeza que o digital supere o papel em grande escala. Mas os livros de papel estarão sempre por aí. Mas isso vai demorar muito tempo. Não podemos esquecer que o Brasil é um país de banguelas e analfabetos. Precisamos de muitas dentaduras e ensinar muitos brasileiros a ler. O jornal impresso vai ladeira abaixo. Mas também acho que sempre haverá gente disposta a sujar os dedos para ler algo de pouco importância. Muitos ainda têm o DNA de traça. Mas sobre o futuro, a única certeza que tenho é de que o paraíso em chamas me aguarda ali na esquina. De resto, mais nada.

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E, pra terminar, uma curiosidade: depois de lançar o seu primeiro romance, Na escuridão, amanhã, pela Cosac Naify – um livro que levou dez anos pra ser escrito (comente) –, você planeja um dia escrever também literatura infantojuvenil?

Levei dez anos escrevendo Na escuridão, amanhã. Até a publicação, foram quase 14 anos. O longo tempo de gestação significa excessivo rigor, desmedida autocrítica e certa incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada sobre retirantes. Foi um inferno: a história que eu imaginava tomou outros rumos, ganhou vida própria, me colocou contra a parede, voltou ao caminho original, desembestou outra vez. Ao final consegui parir (não sem muita dor) este magricelo Na escuridão, amanhã. Pretendo escrever dois livros infantojuvenis: Bartolomeu subiu na geladeira e Meu pai é daltônico. Só não sei se terei tempo. Sabe, o paraíso em chamas é sempre uma possibilidade.

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ROGÉRIO PEREIRA nasceu em Galvão (SC), em 1973. É jornalista, editor e escritor. Em 2000, fundou em Curitiba o jornal Rascunho — uma das raras publicações sobre literatura no Brasil. É idealizador do Paiol Literário, projeto que já recebeu cerca de 60 grandes nomes da literatura brasileira para debates literários na capital paranaense.

Desde janeiro de 2011, é diretor da Biblioteca Pública do Paraná, onde coordena o Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura; o Sistema de Bibliotecas Públicas Municipais do Paraná e o Núcleo de Edições da Secretaria da Cultura.

É editor e escreve crônicas semanais para o site Vida Breve (www.vidabreve.com.br). Tem contos publicados no Brasil, Alemanha e França. É autor do romance Na escuridão, amanhã, pela editora Cosac Naify.

No facebook: http://www.facebook.com/Rascunho.Jornal

Jornal Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ 

Site Vida Breve: http://www.vidabreve.com/escritores/rogerio-pereira/e https://www.facebook.com/vidabreveVB?ref=profile

No twitter: https://twitter.com/jornalrascunho

Para assinar o jornal Rascunho: clique aqui.

imprensa_sidebar15 anos de publicação, abril de 2015. Parabéns!

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Minientrevista com o editor Sebastião Nunes

[Minientrevista de Tereza Yamashita com Sebastião Nunes (Tião Nuvens), editor de literatura e literatura infantojuvenil das editoras Dubolsinho e Aaatchim]

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Conheço o Tião há uns catorze anos! Tempo demais… Na época, a Érica tinha uns 5 anos. Fomos para Ouro Preto, e essa foi uma das viagens mais divertidas que já fizemos. Não encontramos ouro preto ou branco ou amarelo, mas trouxemos ótimas recordações dessa aventura. O Luiz estava escrevendo um romance, parte da história se passava na maravilhosa cidade histórica… Bons tempos! O Tião e a sua família (as meninas pequenas, uma de suas filhas é minha xará, a Teresa, rs) nos receberam em Sabará. Foi uma tarde muito gostosa, arigatô! E agora curtam a minientrevista, diretamente das Minas Gerais. Eita trem bão, sô!

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Tião, como foi a sua infância/adolescência, e como a leitura e outras expressões culturais (principalmente a poesia textual e a poesia visual) passaram a fazer parte da sua vida?

SN: Minha infância foi igual a de todo menino de cidade pequena do interior: futebol, pescaria, escola e brincadeiras de soldado e bandido até a luz apagar, às dez da noite. Comecei a ler por influência de meu pai, Levi, e, mesmo sem haver biblioteca na cidade, tinha os livros que ele trazia das viagens e os gibis, vendidos na única banca de jornais. E jornal também, claro. A poesia entrou na minha vida quando, de castigo, fui obrigado a decorar o famoso Bárbara bela e, no ato de decorar, descobrir toda a sua beleza. De forma que há castigos que vêm para o bem. A visual veio muito depois, e menos através de poetas do que dos artistas plásticos concretistas alemães, que tinham obra muito rica.

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A sua formação acadêmica é em publicidade e direito. Quando e como você começou a trabalhar com livros?

SN: Comecei a escrever a sério com quinze anos, decidido a ser escritor. Os cursos de publicidade e direito foram apenas meios de ganhar a vida, mas optei por publicidade, perambulando anos e anos por Belo Horizonte, Rio e São Paulo, em agências grandes e pequenas. Mas só como ganha-pão, pois nunca levei a sério a profissão. Direito, pior ainda, nem o diploma fui buscar.

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Além disso, desde cedo (com vinte, vinte e dois anos) já pensava em ter minha própria editora para editar meus livros. Quando optei pela poesia visual e experimental, vendo que não havia editora (nem mercado) à vista, reinventei o sistema de subscrição, pedindo dinheiro a escritores e outros intelectuais para publicar os livros, prática que durou mesmo quando fundei a Dubolso, em 1980. Assim, quase tudo que publiquei foi financiado por amigos de todo o país, que pagavam pra ver.

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A Dubolsinho surgiu em 2000. A editora é constituída por quarenta cotistas, residentes em Minas, Rio, São Paulo (como o Luiz Bras, autor de A última batalha dos Paratintins) e até no exterior. Ela não tem fins lucrativos e opta por preços baixos, grandes descontos para órgãos públicos e doação de livros, correto? Fale um pouco mais sobre essa proposta.

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SN: Em 1989 encerrei minha produção poética, me rotulando ex-poeta. Parti para a prosa e escrevi meia dúzia de livros, também experimentais. Tive elogios e detratores, como é natural. Em 2004 publiquei o último livro de prosa, quando a Dubolsinho  já existia desde 2000, porque cansei dos adultos e descobri (sempre fui otimista) que a única saída para um país como o nosso estava na cultura e na educação. Como é de menino que se torce o pepino, convidei um monte de gente a embarcar na aventura. Muitos toparam e a coisa foi crescendo, sempre com dificuldade, porque não é mole competir com as grandes editoras. Como treze anos, apostamos na diversificação, criando a Aaatchim! Editorial e o Instituto Cultural Dubolsinho, para fugir da pasmaceira e ter mais bala na agulha. Assim, desde 2013 estamos naquela de ou vai ou racha.

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 Depoimento gravado em Sabará, Minas Gerais, em outubro de 2008.

Em 2013, a editora Dulsinho foi uma das escolhidas para o catálogo da Feira do Livro de Frankfurt. Quais são as suas expectativas? E qual a sua opinião sobre as feiras literárias?

SN: Feiras são uma enorme ilusão. Quem ganha com feiras são vendedores de estandes, ou seja, os próprios promotores, que também alugam mesas, cadeiras e, frequentemente, bancam as lanchonetes, faturando os tubos. Aquilo de centenas de milhares de visitantes, milhões e milhões em vendas não passa de conversa fiada. Os visitantes existem mas vão passear, alguns poucos best-sellers vendem milhões, o resto fica chupando o dedo. Mesmo Frankurt não compensa o esforço e não dá retorno praticamente nenhum. A não ser muito oba-oba de quem já está no ramo do oba-oba.

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Você criou também a Aaatchim! Editorial, que nasceu da necessidade de diversificar o catálogo de sua irmã mais velha, a Editora Dubolsinho. Fale um pouco sobre ela.

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SN: A explicação é simples mas complexa. Os grandes compradores de livros hoje são o governo federal, através do FNDE, e raros órgãos municipais, como a prefeitura de Belo Horizonte, ou estaduais, como a secretaria de educação de São Paulo e do Ceará. Nos editais e convocações, quase sempre limitam o número de títulos por editora a dez ou quinze. Uma editora portuguesa, a Leya, desembarcou aqui há algum tempo com dezessete selos, entre bugalhos a alhos. A aritmética é simples: 17 x 15 = 255. Editoras grandes são cachos de selos editoriais, tendo cinco, dez, vinte selos, através de compras, fusões ou simples acordo operacional. Com a Dubolsinho, nosso limite era no máximo dez ou quinze por edital. Com a Aaatchim! pulamos para vinte ou trinta, ou seja, dobramos. Havia ainda a necessidade de diversificar o catálogo, com novos formatos e padrões editoriais, mas o que realmente pesou foi a desigualdade imensa de força entre as pequenas e grupos como Santillana, SM e tantas outras, apaixonadas pelo Brasil e por nossas modernas minas de ouro, os livros didáticos.

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Como escritor, você também publicou vários livros infantis. Como surgiu o interesse em escrever para esse público? Foi uma consequência inevitável da fundação das editoras?

SN: Sempre gostei de diagramar e ilustrar, e meus livros adultos são sempre colagens de texto e imagem. Simplesmente transportei esse gosto para o infantojuvenil, que permite muito mais variações, inclusive com muita cor e bastante invenção tipográfica. Simples assim: só mudança de foco.

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Resenhas na Revista Ciência Hoje das Crianças,
por Cathia Abreu (veja minientrevista com editoras).

Qual a sua opinião, como editor e escritor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea? Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

SN: Acho que existem autores bons e ruins distribuídos igualmente. Claro que há diferenças entre os dois ramos da árvore literária, mas essas são devidas à capacidade de assimilação do leitor, a seu leque cultural, a sua bagagem existencial. Crianças pequenas leem uma coisa, adultos leem outra, mas existem livros fora das faixas, inclusive multiplataforma, eu mesmo gosto de livros assim, que agradem igualmente a adultos e a crianças. Duro é convencer os educadores a entender isso.

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E, para terminar, depois de publicar e editar muitos livros, de diversas áreas, que conselho você daria aos novos autores?

SN: Ler muito, viver muito, aprender muito. Navegar na internet é preciso, mas sem muita leitura de todos os tipos (literatura principalmente) não há como escrever bem. Não basta ler literatura infantil para escrever bons livros infantis, é preciso ler literatura para todas as idades. É preciso suar, ou não sai nada que presta. O que recebo de autores que nunca leram nada, ou quase nada, é impressionante. Descarto logo, pois nas primeiras linhas a gente percebe a indigência literária.

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Sebastião Nunes, Sebastunes Nião, Sebunes Nastião, Bastião Nu, Sabião Bestunes etc. é escritor, editor e artista gráfico. O poeta tem onze livros de poesia experimental editados entre 1968/89, reunidos nos dois volumes da Antologia Mamaluca e na Poesia Inédita. O ficcionista surge com três livros: Somos todos assassinos (edições para subscritores pela Dubolso, 80, 81, 95, e uma edição comercial pela editora Altana, de S. Paulo, 2000); Decálogo da classe média (Dubolso, 1998), enviado a cento e vinte intelectuais de todo o país dentro de um pequeno caixão de defunto; História do Brasil — Estudos sobre guerrilha cultural e estética de provocaçam (edição para subscritores em 1991 e edição comercial em 2000, pela editora Altana, de S. Paulo). O ensaísta tem um livro pela Dubolso, em 1996: Sacanagem Pura, ensaios sacanas sobre publicidade; e uma apropriação lúcido-satírica do caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, 1996, enviada a 450 personalidades da cultura brasileira. Também é autor de três livros infantojuvenis pela RHJ, de Belo Horizonte (1998), e sete pela Dubolsinho (2000), assinando Sebastião Nuvens. Editou, pela Dubolso, mais de 50 autores, especialmente de poesia e prosa experimental, desde 1980.  É colunista dominical do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, há mais de doze anos.

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O escritor e editor Sebastião Nu(vens)nes, editor responsável das Editoras Dubolsinho e Aaatchim!, acaba de ganhar um verbete no Wikipedia.

Contato: e-mail: dubolsinho@gmail.com

Compre no Blogue da Dubolsinho: Agora é possível comprar nossos livros através deste Blog. E com uma grande vantagem: o frete é grátis!!!

E para terminar, divido uma grande alegria: assinei o contrato com a Aaatchim Editora, com o meu original  ilustrado por mim mesma com origamis! Viva, Arigatô e Abraços Dobrados!

E as minis programadas para os meses de:
Março: Rogério Pereira do Jornal Rascunho
Abril: Maurício Negro, escritor e ilustrador
Maio: Cláudio Brites da Terracota Editora

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Minientrevista de Tereza Yamashita com Rodrigo de Faria e Silva, editor-chefe das editoras do Sesi-SP e Senai-SP

[ Minientrevista de Tereza Yamashita com Rodrigo de Faria e Silva, escritor e editor-chefe das editoras do Sesi-SP e Senai-SP]

2016 – Novidades

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Na próxima quinta tem lançamento (na Choperia São Paulo, que fica na rua Pinheiros) da adaptação para quadrinhos do livro “Da Loucura dos Homens”, do escritor Rodrigo de Faria e Silva.  São nove histórias que se entrelaçam com o objetivo de apresentar a relação do homem coma as mulheres ao longo de sua vida, desde a infância até a maturidade.  Publicado pela Cama Leão – uma editora independente – o estilo adotado pelo ilustrador Sanzio Marden se assemelha aos clássicos dos quadrinhos underground americanos. O roteiro é fiel a estrutura narrativa do livro e tenta manter no texto a presença das reflexões poéticas da obra original.

Quinta, 12 de maio às 18:30 – Choperia São Paulo
Rua dos Pinheiros, 315, 05422-010 São Paulo

2013

Encontrei pessoalmente o Rodrigo faz pouco tempo, em 2013. Fui visitar a editora e pegar o meu exemplar, maravilhoso, do Mãos Mágicas! Ao vivo ou por e-mail ele é muito simpático, uma ótima pessoa. Já o conhecia através do Klickescritores. Ah, o Luiz Bras também lançou um livro pela editora, Vítor e o invisível.

Aproveito para agradecer ao Rodrigo, e à editora assistente, Juliana Farias, que, com muita dedicação e carinho, cuidaram da belíssima edição dos nossos  livros. Foi um prazer conhecê-los pessoalmente. Ah, o meu superobrigado também para a Paula Loreto, encarregada da primorosa produção gráfica. Arigatô e aproveitem a cativante mini-entrevista.

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Rodrigo, como foi a sua infância/adolescência, e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida?

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RFS: Não sou filho de intelectuais ou professores, mas meus pais tiveram uma boa formação e meu pai, que gostava muito de política e de educação, lia livros destas áreas. Já minha mãe lia e lê até hoje os best-sellers, os romances históricos e fantasiosos, as novelas românticas e tudo o que tem por aí, aqueles romances do Gore Vidal, Ken Follet, Jeffrey Archer e que foram os livros adultos que me instigaram na leitura por volta dos 16 anos de idade. Depois dos livros do João Carlos Marinho, Marcos Rey e outros da época de escola, foram livros como Juliano, de Gore Vidal, o Buraco na Agulha, de Ken Follet, e Caim e Abel, de Archer, que me seduziram, prendendo minha atenção como se num filme.

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Comecei lendo pouco e fui sofisticando a minha leitura conforme tentava me tornar poeta/escritor. Já com 12 anos arriscava meus versos e fui publicar, prematuramente, um livro aos 16. No mais, ia ao cinema, teatro e shows como qualquer outro adolescente, e via muita TV.

Queria ser escritor para ser boêmio. Antes de me encantar pela palavra e pela literatura, me encantei pela vida dos escritores e dos poetas, pela liberdade que representavam e que meu pai sempre tangenciou, ora mais ora menos intensamente.

Quando o conheci, você era editor da KlickEscritores (1998) e esse site foi um dos primeiros portais de literatura, com informações sobre obras e escritores, correto?

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RFS: Correto, o Klickescritores foi um projeto muito importante na época. Além de informações sobre os escritores, com hotsites de mais de 80 autores de renome e o objetivo de estruturar o site oficial de todos eles, pretendíamos ser um canal de contato entre leitores e escritores, com seus e-mails diretos ou, em alguns casos, sob o crivo da editoria do portal, e também um projeto de estímulo à leitura com informações, matérias e pautas leves e inteligentes sobre a questão da literatura.

Digo sem medo de errar que o klickescritores foi a primeira editora de livros eletrônicos do Brasil, antes mesmo de termos tablets tínhamos programas para ler os livros nos computadores de mesa, os quais podiam ser impressos em impressoras caseiras. Reeditamos livros de Ivan Angelo, Cristóvão Tezza, Domingos Pellegrini, Márcia Denser, Bernando Ajzemberg, entre outros, o que forçou estes autores a retrabalhar, revisar e muitas vezes atualizar seus livros, os quais, em alguns casos, foram reeditados também no formato físico. Tinha também uma seção destinada aos autores iniciantes e outra aos clássicos em formato digital.

A revista eletrônica com crônicas semanais que saiam concomitantemente em outros meios de comunicação impresso, com colunas do Ivan, do Domingos, da Heloísa Seixas, do José Nêumanne Pinto, matérias diversas voltadas ao universo literário e uma seção destinada à área acadêmica, com fortuna crítica e tudo mais.

Recontando agora percebo que era um projeto muito audacioso para um editor só, mas que certamente estaria ainda ai, encabeçando os projetos de literatura na rede se não tivesse sido criado em meio à bolha da internet que ruiu em 2002, consegui segurar o projeto até 2004 e depois ele foi tirado do ar.

Você tem vários livros publicados: Em busca de um caminho (Vega Lux), Um mês depois ainda existe porém? (publicação independente),  Zé Ferino, pela Ateliê Editorial, Da loucura dos homens e outros ensaios, pela Grua Editora, Canto do Mar, pela Com-Arte e Amar não é… (livreto independente). Você pretende dar continuidade ao seu lado de escritor (atualmente você está escrevendo um livro?), ou ficará apenas com o seu lado de editor?

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RFS: Tenho esperança de um dia voltar a escrever, mas só se for com a determinação e a paixão com que fazia e com a qual escrevi alguns dos meus livros. Tenho alguns livros parados ou em processo de construção sutil dentro do minha mente, mas não sei quando e nem se terei energia de concluí-los.

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Escrever para mim é um esforço, envolve muitas áreas da minha vida que não simplesmente o ato e o tempo dedicado a escrever. Enquanto isso, vou editando os outros autores, feliz de poder fazê-lo.

Você também já organizou vários livros, como: Inspiração, pela FSEditor (uma antologia reunindo fotografia e literatura), Corrupção, pela Ateliê Editorial, Crueldade masculina, pela SESI – SP editora. Conte-nos como surgiu a ideia dessas antologias?

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RFS: São três obras muito diferentes entre si. A primeira é um livro de arte, belíssimo que trás 12 ensaios fotográficos, entre os fotógrafos convidados estão Cristiano Mascaro, Arnaldo Papalardo, Cássio Vasconcelos, entre outros que tinham a capital paulista como foco, tendo em vista tratar-se de um livro em comemoração aos 450 anos da cidade.

Além dos ensaios fotográficos tínhamos 24 escritores que, ou nasceram aqui, como a Lygia Fagundes Telles e o Rodolfo Konder, ou escolheram São Paulo para viver, vindos do interior, como é o caso do Luiz Ruffato, do Ignácio de Loyola Brandão, do Marçal Aquino, ou de outros estados como o Ivan Angelo, o Marcelino Freire, o Milton Hatoum (que teve o seu primeiro conto publicado nesta antologia). O livro era ainda coroado com uma belíssima introdução do Benedito Lima de Toledo.

Foi um daqueles projetos custeados pela Lei Rouanet e que deu muito trabalho fazer, mas todo mundo recebeu condignamente e o resultado foi um belo livro, que infelizmente não teve uma divulgação à altura do livro que foi.

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Qual a sua opinião, como editor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea? Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

Agora, com uma filha adolescente, você pretende escrever um romance juvenil?

RFS: Acho que a literatura infantil vem ganhando status e criando possibilidades criativas como nunca antes. Não sei se entenderia como preconceito, mas o fato de serem raros os autores clássicos que escreveram também para crianças e jovens mostra que existia uma falta de preocupação com esse leitor, talvez isso não desse prestígio, o que se aproximaria da ideia de preconceito, ou simplesmente não fosse a linguagem infantil e infantojuvenil aquela ligada à expressão de sentimentos muito íntimos do funcionamento de nossa mente adulta.

Nesse ponto de vista, é possível que aos poucos estejamos nos libertando dos padrões e tornando a literatura infantil mais infantil e também a literatura adulta mais leve, criativa e simples, tanto nas formas como nas estruturas com que projetamos nossos pensamentos e reflexões no papel, e me parece que isso pode ajudar a aproximar esse texto também dos jovens, ou permitir que o escritor se valha de temas mais juvenis sem ter que processar um esforço de adaptação muito grande.

Tenho alguns projetos para crianças que podem sair em breve, e tenho um livro que comecei e que um dia, sabe-se lá, retomarei e que seria exatamente esse modelo de livro para jovem que pode agradar o adulto, não aquele adulto em formação ainda cheio de preconceito, mas aquele que busca a profundidade em estruturas e raciocínios menos complexos.

Tenho certeza que a minha volta para a escrita se dará por meio de livros para crianças e jovens.

Mesa de Debates: Educação Profissional

Depois de editar muitos livros e escrevê-los também, que conselho você daria aos novos autores?

RFS: Leiam Machado de Assis e não os seus pares, determinem vocês mesmos seus estilos e não se deixem seduzir pelas fórmulas fáceis, quando você tiver vencido todas as dificuldades, a sua literatura será fácil e simples, sem fórmulas, o que para mim é o espelho da grandeza literária. Assim como um raciocínio simples, uma construção simples consegue se comunicar e se propagar com muito mais eficiência e generosidade, desde que não seja construída pela ingenuidade nem pela acomodação, que minimizaria qualquer possibilidade de conhecimento profundo.

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E, para terminar, mudando um pouco o rumo da conversa, uma curiosidade: numa entrevista, em 2009, para a Revista Istoé – Quando a ansiedade vira doença, você comenta que tomava remédios, e aderiu à prática esportiva para controlar o pânico, e escolheu o remo, correto? Conte-nos como foi essa superação.

A crise de ansiedade aguda, também conhecida como crise de pânico, é uma doença catalogada pela OMS e atinge cerca de 20% da população mundial, em diversos níveis. Essa entrevista que dei para a Istoé e mais alguns programas de que participei visavam dar a real dimensão do problema que é visto por muitos como chilique, frescura, fraqueza etc.

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Imagino um pedreiro, um servente, um frentista falando para a esposa ou para um amigo de bar que está com pânico… Isso realmente me incomodava, então fiz, por um período e dentro das minhas possibilidades, certo proselitismo pela desmistificação da doença, que no meu caso está controlada. Não tomo mais remédios e faz mais de um ano que não tenho crises, mas tenho o remédio sempre por perto.

É uma sensação de morte horrível, e o esporte ajuda sim a aliviar a ansiedade e minimizar a incidência das crises, mas quando você tem a primeira crise sua cabeça entre num ciclo que para sair é difícil e requer ajuda de psicólogo, remédio e consciência do que está acontecendo.

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Rodrigo de Faria e Silva nasceu em São Paulo, em 1969. Tem seis livros publicados, entre eles
Zé Ferino (Ateliê Editorial, 1999) e Canto do Mar (Com-Arte, 2008). É mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Trabalhou como editor e organizador de diversas publicações, entre as quais o Jornal Proarte, a antologia Corrupção (Ateliê Editorial, 2002) e o livro Inspiração (FS Editor, 2004). É também fundador e editor do site klickescritores.com.br, pionerio entre os sites de literatura no Brasil (1998). É editor-chefe das editoras do Sesi e Senai de São Paulo.

http://www.sesispeditora.com.br/

site

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Minientrevista com Nair de Medeiros Barbosa

 

 

[ Minientrevista de Tereza Yamashita com Nair de Medeiros Barbosa, ex-gerente de artes da Editora Saraiva-Atual, e escritora infantil ]

 

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Conheço a Nair há uns dezesseis anos! Tempo demais… Na época a Érica tinha uns quatro anos. No final do ano, quando íamos visitar a editora (lembra Nair? ), ela mexia nos seus objetos da mesa do escritório, rs. A sede da editora ainda era na Marquês de São Vicente. Bons tempos!
Começamos a trabalhar primeiro com as capas e depois com os projetos de capa e miolo dos livros didáticos, paradidáticos, jurídicos, universitários e de  literatura infantojuvenil, e até com eventos de origami. Nair foi uma das primeiras pessoas a acreditar no meu trabalho com dobraduras (na época, ainda como hobby, rs). Fiz ilustração, participei com porta-retratos de origami da Exposição dos 95 anos da Editora Saraiva, fiz uma mini-oficina de origami para os filhos dos funcionários da editora na comemoração do Dia das Crianças, um dos meus últimos trabalhos sob a sua supervisão.

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Agora estou me lembrando, Nair sempre me convidava para participar das exposições internas da editora. Ela chamava os designers e ilustradores colaboradores da casa. As exposições eram especialmente para convidados, professores e funcionários. Muito legal!

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Não sei quantas capas de livros e projetos fiz, mas foram muitos! Quero aproveitar a oportunidade para agradecer por todos esses anos, e dizer que aprendi bastante com você, que é uma profissional muito competente e responsável, com muita visão e determinação. Obrigada, Nair (e espero que possamos trabalhar juntas novamente), e a toda a equipe que te acompanhou nesses 24 anos de Saraiva (a Márcia Trindade, o Antonio Roberto Bressan, a Grace Alves, a Letícia, a Maria Paula, a Silvia da editoração)!

Puxa, quantas lembranças… são muitas, mas fica para uma próxima vez, e vamos para a cativante entrevista!

Nair, em uma biografia, você comenta que sempre foi fascinada por artes, o que a fez procurar o curso de arquitetura, mas com o passar do tempo esse fascínio mudou para as artes gráficas. Foi esse contato com o mundo editorial que a levou a se dedicar aos livros infantojuvenis?

NMB: Sem dúvida foi a porta de entrada para despertar o interesse pelos livros infantis. O convívio com o mundo da produção dos livros, as lindas ilustrações, os contos maravilhosos me fizeram querer ver e descobrir cada vez mais livros, desenhos e autores. Passava horas em livrarias e feiras de livros, mergulhando nesse universo fascinante e sem sentir o tempo passar.

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Curiosidade: projeto gráfico da capa, Nair de Medeiros Barbosa e projeto do miolo Tereza Yamashita,
do livro Vivendo a Filosofia para a Editora Atual.

Em sua infância, quais os autores e artistas plásticos de que você mais gostava e quais os que mais a inspiraram?

NMB: Monteiro Lobato e as obras clássicas dos irmãos Grimm foram muito marcantes. A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen, foi também um livro que me fascinou. Ilustradores como Gustave Doré, Franz Jüttner e outros com traço mais descontraído para a época em que ilustravam, como, por exemplo, Herbert Leupin, em 1946, representado abaixo nas ilustrações de A Bela Adormecida.

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Como ex-gerente de artes de uma das maiores editoras do Brasil (24 anos de experiência), você teve muito contato com os originais de outros autores. Quais os critérios que você utilizava para a escolha dos ilutradores? Os autores influenciavam nessa escolha?

NMB: Alguns autores, sim,  já têm as suas escolhas, mas o fator preponderante é sempre o tipo de história, se merece um traço mais realista, mais solto ou estilizado. Numa história forte abordando temas polêmicos para adolescentes, por exemplo, eu sempre prefiro usar um desenho mais subjetivo, que não reforce a temática da história mas que ajude a levar o leitor à reflexão.

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O Sítio do Tio Chico e  Hoje é domingo Pé de Cachimbo, editora Paulinas.

Como escritora e ilustradora (ilustrou dois dos seus próprios livros), e já tendo quinze livros publicados, entre eles dois selecionados para o Programa Salas de Leitura do MEC, qual a sua opinião sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?

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NMB: Acho que tivemos um grande avanço, não só porque saímos um pouco do mundo da fantasia, mas porque, em paralelo, estão sendo utilizados temas importantíssimos para a época  em que vivemos. Embora muitos pais não gostem de alguns  livros selecionados por muitas escolas, é importante que esses temas  sejam abordados, pois o mundo não é uma bolha de vidro e as crianças precisam conhecer o mundo em que vivem. Livros que aproximam a criança da arte, que falam dos grandes artistas, como Portinari, por exemplo, lançado em versões diferentes por algumas editoras. Livros que falam sobre a diversidade cultural, religiosa etc., são temas que contribuíram muito para o avanço da literatura infantojuvenil no Brasil.

Os livros O gol da vitória (Editora Saraiva) e O sonho de Beto (FTD) foram escritos a quatro mãos. Você poderia nos contar um pouco da história de sua parceria com Ruy Mendes Gonçalves (em memória)?

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NMB: São três livros em parceria: O sonho de Beto, Os dias felizes de Pagu e O gol da vitória. O Ruy tinha três temas que queria transformar em histórias com o personagem Gentileza. Esse personagem foi criado a partir de uma visita dele ao Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de conhecer José Datrino, um ex-empresário e então morador de rua, conhecido como Profeta Gentileza e responsável pela célebre frase Gentileza Gera Gentileza. Como homem de negócios e diretor superintendente da Saraiva, Ruy,  naquele momento, não se sentia com habilidade para escrever histórias infantis. Um dia me chamou em sua sala, me contou sua intenção e pediu que eu escrevesse as histórias a partir de três roteiros que ele iria redigir. E assim foi. Ele me passou um roteiro de cada vez e fizemos um vai-e-vém até a história ficar do jeito que achamos legal. Nos desenhos, feitos pela dupla Cris e Jean, o personagem Gentileza foi desenvolvido a partir de uma foto do Ruy, que dei aos ilustradores, embora o Ruy não soubesse. Isso serviu para tornar o personagem mais parecido com ele, pois ficou claro que o Gentileza da história era ele mesmo. Ele amou!

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Para encerrarmos esta mini-entrevista, duas curiosidades:

Agora que está numa fase de transição de carreira, você continuará a trabalhar com livros impressos ou com livros digitais?

NMB: Certamente com as duas mídias; a impressa e a digital ainda devem andar juntas por um bom tempo.

Conte-nos como foi a sua visita/experiência à gráfica parceira do grupo Saraiva nos EUA, sobre os novos processos digitais

NMBA viagem foi para conhecer o sistema de provas de cor digitais implantado no setor de pré-impressão da Donnelly, provas essas que já estavam vindo a substituir as tradicionais provas de prelo.

Segunda curiosidade

Como escritora, você pretende se dedicar mais à literatura, aos livros infantojuvenis?

NMB: No momento não penso em escrever, mas no futuro… quem sabe?

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Nascida em São Paulo, onde passou a infância, estudou e vive até hoje, Nair de Medeiros Barbosa sempre teve fascínio pela arte, o que a fez procurar a carreira de arquitetura. Mas, com o passar do tempo, o mundo das artes gráficas pareceu-lhe mais atraente, por isso, esse é o caminho que percorre desde 1977, após a graduação em Comunicação Visual (FAAP). Foi gerente do departamento de Artes da Editora Saraiva por 24 anos, responsável pela gestão da área de arte visual gráfica em empresas nacionais do segmento editorial. 
Tem larga experiência em desenvolvimento e produção gráfica visual de livros didáticos, jurídicos, universitários, interesse geral e literatura infantojuvenil, desde o planejamento e elaboração do projeto visual da obra, criação de capas, definição do conteúdo ilustrativo, até a diagramação. 
Amplo conhecimento do mercado de livros educacionais para escolas de Ensino Fundamental I, II e Ensino Médio. 
Atuação na estruturação de área, formação de equipes, estabelecimento de parceiras com fornecedores de serviços e terceirização de produção gráfica. 
Experiente na gestão de projetos de coleções didáticas em versões digitais. Exposição internacional.

Como escritora infantojuvenil, seu primeiro livro infantil foi produzido em 1985, quando, depois de desenhar uma história infantil sequenciada, sem palavras, sentiu que faltava algo. Olhando para os desenhos, começou a contar a história que eles mostravam. A partir daí, começou a escrever para crianças. Seus primeiros livros, Na praia e Na mata, pela editora FTD, foram selecionados para o Programa Salas de Leitura do MEC. Atualmente, tem treze livros publicados, sendo dois deles ilustrados por ela própria. Ilustrar era uma das atividades preferidas de Nair, que, porém, tornou-se difícil, uma vez que desenhar, assim como escrever, exige tempo, disciplina e dedicação constantes. Por outro lado, Nair declara ser surpreendente ver seus livros ilustrados por outros artistas, já que cada pessoa tem um jeito especial de sentir e interpretar as histórias.

Mais uma curiosidade:

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Gota Borralheira, que Nair publicou para a Unidade de Negócio de Tratamento de Esgotos da SABESP,
“O livro faz parte de um programa de Educação ambiental, cujo projeto, desenvolvido para crianças, tem como objetivo motivar a população a alterar seu comportamento e hábitos em relação ao uso da água.  O então diretor Geraldo Julião dos Santos criou a personagem, A Gota Borralheira. Tivemos algumas reuniões para que eu tomasse conhecimento dos detalhes  do tratamento de esgotos e de como poderia desenvolver a história. O texto é meu e os desenhos e desenvolvimento da personagem Cristalina, são do artista Sérgio Palmiro. O livro também gerou um desenho animado muito legal.”

Veja no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=qiEsqSOxNFA

Mais informações no Linkedin: br.linkedin.com/in/nairbarbosa/

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Novas mini-entrevistas com editores!

[ Novas mini-entrevistas com escritores e editores, aguardem!]

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Enrico Giglio – Retornando com as mini-entrevistas!

[ Mini-entrevista de Tereza Yamashita com Enrico Giglio de Oliveira, editor de literatura e literatura infantojuvenil da Editora Manole ]

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Não conhecemos o Enrico pessoalmente, apenas pelas trocas de e-mails, agora pela foto, também pelos livros que ele edita e, é claro, pelo meu primoroso livro (em coautoria com Luiz BrasA menina vermelha, selo Amarilys, da editora Manole.

Aproveitando a oportunidade, gostaríamos de agradecer ao Enrico e ao João Lin (que ilustrou A menina vermelha) pela dedicação ao nosso livro, que este ano foi escolhido para o catálogo de Frankfurt! Arigatô.

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Com mais de 40 anos de atuação, a Editora Manole lançou o selo Amarilys, exclusivamente dedicado à literatura e ao uso da palavra em suas diversas formas. A iniciativa tem por objetivo apresentar ao mercado editorial brasileiro uma grande variedade de títulos nacionais e estrangeiros muito bem selecionados, em publicações com apurado senso estético e esmero gráfico. 

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Sua linha editorial está organizada de modo a atingir três grandes focos de atenção. Os públicos jovem e adulto encontrarão ótimas opções em títulos de ficção brasileira e estrangeira (novas edições de clássicos, thrillers, dramas, policiais…), além de textos de não ficção com grande sabor literário (relatos de viagem, diários, reportagens…). 

Também serão publicados textos de referência no âmbito das ciências humanas, incluindo ensaios históricos, culturais e de crítica literária. Além disso, uma nova linha de literatura infantil e infanto-juvenil (fábulas, contos, lendas, textos indígenas…) privilegia aqueles que estão tendo o seu primeiro encontro com as letras e com o universo da leitura, bem como o jovem leitor autônomo.

E agora conheçam um pouco mais do profissional: o editor, sempre meio escondido nos bastidores, rs.

Enrico, como foi a sua infância/adolescência, e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida?

EG: Tive uma infância muito bacana. Nasci em São Paulo, capital, mas em função do trabalho do meu pai, tive a oportunidade de morar no interior durante essa fase. Com um ano, nos mudamos de São Paulo para Itumbiara, no interior de Goiás. Lá ficamos por cinco anos e depois fomos viver no interior de Minas Gerais, numa cidade chamada São Gonçalo. Aproveitei muito esse tempo morando nessas cidades pequenas… passava o dia na rua brincando, aprendi muitas brincadeiras de rua, fiz muitos amigos, andei muito de bicicleta, peguei muita carona nas charretes que passavam vendendo leite… foi uma época muito gostosa. Voltei em definitivo para São Paulo com oito anos de idade, feliz também porque tinha muitos parentes aqui e, além disso, sempre me impressionei com as luzes e o tamanho da cidade. Minha adolescência também foi muito boa… jogava muito futebol e basquete, viajava bastante pra praia, ouvia muita música e fiz grandes amigos nessa época.

A leitura começou a fazer parte da minha vida ainda bem pequeno. Meus pais não tinham o hábito de ler com freqüência, mas sempre compraram muitos livros pra mim e contavam histórias. O acesso aos livros era muito fácil, tranquilo e por isso o gosto por ler veio naturalmente durante minha infância. Já na adolescência, passei a ler um pouco menos. Comecei a me interessar mais por música… e a pesquisar mais sobre as bandas e artistas que admirava. Ainda assim, foi uma época importante em relação à leitura pois tive meus primeiros contatos com grandes escritores, com obras clássicas e foi também nesse momento que meu interesse por quadrinhos nasceu.

Qual a sua formação acadêmica? Quando e como você começou a trabalhar com a edição de livros? Você sempre trabalhou na Editora Manole, no selo Amarilys?

EG: Sou formado em Produção Editorial pela Universidade Anhembi-Morumbi. Meu trabalho de conclusão de curso tratava da análise do fantástico na literatura infantil e isso acabou me levando a fazer, em seguida, uma pós-graduação em Literatura Infantil pela Universidade Metodista de São Bernardo.

Sempre trabalhei na Manole. Entrei quando estava no terceiro ano da faculdade. Nessa época, a Manole não tinha um selo literário. Era uma editora conhecida e respeitada por seus livros de medicina, de áreas ligadas à saúde. Então, à princípio, eu comecei como estagiário e trabalhava na edição de livros médicos. Fui ganhando mais responsabilidades e, alguns anos depois, me tornei editor dos títulos de ortopedia. Passados dois anos, tive uma conversa com a diretora da Manole, que sabia do meu interesse por literatura infantil. Ela me falou sobre a ideia de criar um selo literário dentro da editora e me convidou para ser um dos editores responsáveis, cuidando principalmente dos títulos infantis e infantojuvenis. Aceitei a oferta na hora e desde então tenho a sorte de trabalhar editando literatura no selo Amarilys.

infantojuvenil

Como editor, a sua preferência são as traduções? Você editou uma obra rara de Tolstói, , com uma tradução direto do russo, não é mesmo? Ah, a capa, o projeto gráfico e as ilustrações são de Hélio de Almeida, correto? Como é o processo editorial de traduções?

EG: Na verdade, não. Gosto muito de trabalhar com traduções, mas minha preferência é editar textos de autores nacionais. Gosto de poder editar um projeto partindo do zero, desde a seleção do texto, pensar no formato, no ilustrador, no papel, no projeto gráfico. Acho que esse é o grande barato em ser editor… poder pensar em como organizar e apresentar um determinado conteúdo de uma forma interessante. Isso nem sempre é possível quando se trabalha com traduções, principalmente de livros infantis, pois muitas vezes temos de seguir o modelo da edição original.

Falando sobre Os cossacos, foi um dos projetos que mais gostei de editar. Primeiro por ser Tolstói, um dos grandes da literatura mundial, segundo por se tartar de um texto raro, muito pouco editado no Brasil e terceiro por ter sido uma tradução feita diretamente do russo, o que tornou o trabalho ainda mais desafiador, já que não conheço a lingua russa e por isso tive de conversar inúmeras vezes com Klara Gourianova, tradutora que teve uma participação fundamental durante o processo de edição. Tanto o projeto gráfico quanto as ilustrações foram desenvolvidas pelo Hélio de Almeida. Ele é o responsável pela arte dos livros de literatura russa que publicamos no Amarilys.

Cossacos, ilustração do livro

Os cossacos descreve a jornada de Olénin, um bem-nascido jovem russo que alista-se no exército para viajar pelos confins do Cáucaso em busca de experiências mais autênticas, afastando-se assim de sua antiga vida de excessos em Moscou. A convivência com o povo cossaco, tido como selvagem, e seu fascínio por uma jovem local – Mariana – levam-no a questionar os valores da civilização e provocam um importante despertar, repleto de consequências. Esta obra-prima de Tolstói, amadurecida ao longo de uma década, prenuncia as inquietações filosóficas e estéticas do autor e é fundamental para compreender o pensamento tolstoiano. A nova edição deste clássico, traduzida diretamente do russo por Klara Gourianova, tem introdução de Natália Quintero e ilustrações do artista plástico Hélio de Ameida

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Lev Tolstói nasceu em 28 de agosto de 1828, em Iasnaia Poliana, propriedade familiar de sua mãe, princesa Maria Volkónskaia (ela pertencia a uma das mais nobres e antigas famílias russas). Criado no meio da alta sociedade russa, Tolstói, apesar de não ter concluído o curso na universidade de Kazan, conseguiu obter perfeita educação e falava fluentemente várias línguas. Dentre as obras publicadas, encontram-se: Infância, Contos de Sebastópol, Os cossacos, Guerra e paz, Anna Kariênina, A morte de Iván Ilitch, entre outras. Faleceu em 20 de novembro de 1910.

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O processo editorial de traduções tem muitas similaridades com o processo de edição de textos nacionais. O principal diferencial na minha opinião é a figura do tradutor. É muito importante trabalhar com um tradutor que domine muito bem não apenas a lingua que irá traduzir, mas também o assunto… que pesquise, que tenha a sensibilidade para fazer as adaptações necessárias, sem interferir no ritmo do texto, que respeite o estilo do autor tentando preservar ao máximo as cartacterísticas do texto original. Outro fator importante na edição de traduções é a boa comunicação entre editor e tradutor pois dúvidas e divergências podem acontecer durante o processo.

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Ilustração de Tereza Yamashita  para o Jornal Rascunho
 Anna Kariênina e a inesgotável dor de viver, de Rodrigo Gurgel, 2006.

Qual a sua opinião, como editor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea? Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

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EG: Considero a literatura infantojuvenil atual muito rica. Ela permite experiências muito interessantes tanto na forma quanto no conteúdo com muito mais liberdade do que a chamada literatura adulta. Cabe aos autores, ilustradores e editores continuarem a tirar o melhor proveito dessa liberdade, usando sempre muita criatividade. Quando vou a uma livraria ou busco livros pela rede, noto que os projetos mais interessantes, mais criativos são quase sempre os de literatura infantojuvenil. Tem muita gente boa escrevendo, ilustrando e editando… é só prestar atenção.

Vejo preconceito com relação à literatura infantojuvenil geralmente por parte de quem não a conhece. Pessoas que acham que existe uma fórmula para se escrever para crianças e adolescentes, que subestimam sua inteligência e que pensam que a literatura para os jovens deve ser cheia de regras, tabus e ensinamentos ao invés de estimular a criatividade, a imaginação e o prazer por aquele momento com o livro. Temos obras que foram escritas pensando no público infantojuvenil mas que são lidas por pessoas de todas as idades, o que prova que a boa literatura é para todos e rejeita classificações e ideias pré-concebidas.

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E, para terminar, depois de editar muitos livros, de diversas áreas, que conselho você daria aos novos autores?

EG: Dar conselhos é muito difícil… rs… acho importante trocar ideias com pessoas ligadas ao universo dos livros, conhecer as novas tecnologias, estar atento às iniciativas inovadoras da área editorial e principalmente ler e estudar muito, recorrendo sempre às obras dos grandes nomes da literatura.

Mini-curriculum

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Enrico Giglio de Oliveira, é editor de literatura infantojuvenil do selo Amarylis e pai do Valentin e da Maria Luiza. Traduziu o livro Não fiz minha lição de casa porque… de Davide Cali e Benjamin Chaud, publicado pelo selo Amarilys, Editora Manole, em 2013.

Contato por e-mail:  enrico@manole.com.br ou info@amarilyseditora.com.br

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