Minientrevista com Cristina Porto, direto da cidade de Tietê!

[Minientrevista com Cristina Porto, professora, editora, tradutora e escritora, direto de Tietê -SP]

1508100_10201804255847961_670085247_nFotos divulgação, cedidas pela autora.

A vida é cheia de coincidências. O primeiro contato que tive com a Cristina foi através dos seus divertidos livros, Joana Banana  e Olívia Pirulito. A autora foi na escola em que a nossa filha estudava, para um bate-papo e autógrafos. Creio que essa visita aconteceu em 1998. Bons tempos! Hoje nos conhecemos pelo Facebook e trocamos curtidas, rs. E foi assim que resolvi convidá-la para a série de minientrevistas. Obrigada pela gentil participação e pela amizade, Cristina. Abraços Dobrados.

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Como foi a sua infância/adolescência e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida?

CP: Minha infância e adolescência foram passadas em Tietê, naquele tempo – estou com 64 anos de vida – um lugar calmo, absolutamente seguro, onde as crianças brincavam nas ruas e praças, à tardinha, enquanto os adultos colocavam cadeiras na calçada para prosear. Moramos alguns anos com meus avós maternos, vó Cota e vô Abílio, em um casarão imenso, o casarão das delícias… Além do quintal enorme cheio de árvores frutíferas, vó Cota fazia doces para vender: goiabada mexida em tachos, nos fogões a lenha, marmelada, laranjas em compotas (laranja-cavalo, amarga, só dava para fazer doce), figo em calda, pessegada…

As primeiras histórias que eu ouvi foram das senhoras negras que ajudavam no tempo da goiabada, a mais procurada: lisa ou cascão, mole ou em ponto de cortar com faca. Dona Pedrina, Chica, Tego, Ninica… Foram histórias do tempo da escravidão, passadas de geração em geração, histórias tristes, verdadeiros lamentos, que elas contavam de um jeito todo particular.

Acho que veio daí, também, parte do conhecimento de músicas e brincadeiras que compunham o repertório da criançada. O livro entrou bem mais tarde na minha vida. Alfabetizada por uma das tias, irmã de minha mãe, precocemente, meu amor pela palavra escrita e ouvida veio antes do amor pelas palavras lidas.

Com a chegada da TV em nossa casa, conheci as histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Os livros de Lobato e, em especial, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, foram os mais marcantes da minha infância. Sempre digo que, não fossem Alice e Emília, Serafina não teria nascido…

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Cristina, você é formada em Letras pela USP, correto? Já trabalhou profissionalmente como professora, tradutora e editora. Comente sobre essas carreiras. Com qual delas você se identificou mais?

CP: Sou formada em Letras, sim, pela USP. De todos os trabalhos que já desempenhei, o de alfabetizar foi um dos mais gratificantes: em uma escola municipal, da periferia de São Paulo, trabalhar com crianças que vinham “cruas” de suas casas, sem saber pegar no lápis, e aos poucos, ver o seu progresso na leitura das primeiras palavras, arduamente escritas, sempre provocou em mim uma sensação inexplicável. Era a alegria de dar a essas crianças a primeira ferramenta para que elas pudessem enfrentar a vida, talvez. E foi para uso em sala de aula que comecei a escrever os primeiros textos para fixar algumas dificuldades ortográficas dos alunos: palavras com x, ch, h inicial, g, j… Alguns acabaram se transformando em livros, mais tarde.

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Em 1978, você foi morar na Alemanha e fez estágio na Biblioteca Infantil de Munique, conte-nos como foi essa experiência. A literatura e as crianças alemãs são muito diferentes da literatura e das crianças brasileiras?

CP: 1978 foi meu ano sabático. Usei todas as economias que tinha e pude conhecer vários países da Europa. Comecei morando em Madrid e, de lá, viajando para a França, Inglaterra, Itália, Portugal… Quanto à Alemanha, depois de ter participado do Congresso Internacional de Literatura Infantil, organizado pelo IBBY, ganhei uma bolsa para estagiar durante um mês na Biblioteca de Munique, onde meu trabalho foi organizar as obras em língua portuguesa que constavam do seu acervo. Tive pouco contato tanto com crianças como com adultos, pois era novembro, já fazia muito frio e às 4 da tarde era noite… Isso, sem contar a dificuldade de comunicação, pois havia outros estagiários de várias partes do mundo. Mesmo assim, foi uma experiência enriquecedora e inesquecível.

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Qual a sua opinião, como escritora, professora e editora, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea? Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

CP: Lancei o meu primeiro livro – com a personagem Serafina – na Bienal do Livro de 1980, em São Paulo. De lá para cá – quantas mudanças!!! – não foi possível continuar acompanhando os inúmeros lançamentos, que aumentavam ano a ano.

Por motivos pessoais, fiquei bastante ausente nos últimos anos, escrevi menos, viajei muito pouco… Agora, sim, estou voltando e fazendo uma sondagem mais apurada dos novos escritores e ilustradores, especialmente, pois sempre me surpreendo com os novos talentos na arte de ilustrar.

Quanto à literatura para crianças e jovens e para adultos, acho que já não existe tanto preconceito, desde que seja uma literatura de qualidade. O que importa é a qualidade, independente da faixa etária a que o livro se destine.

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Se… Será, Serafina? foi o seu livro de estreia. A personagem Serafina já completou 30 anos em 2011, portanto é muito famosa, inquieta e contestadora! Sabemos que ela não aceita o jeito como as coisas são, correto?A personagem tem um quê de autobiográfico ou é na verdade uma homenagem à sapeca Emília de Monteiro Lobato? Comente.

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CP: Serafina? Ah… Quantas alegrias essa criaturinha já me deu e continua dando!

Já faz algum tempo que, tendo que pensar para responder as perguntas das crianças, acabei chegando à conclusão de que ela era a minha síntese: muito do que eu fui, sou, gostaria de ter sido…

A minha alegria maior, no entanto, é o fato de ela ter sobrevivido a três gerações, ( já entrando na quarta), e continuar conquistando as crianças, numa época em que as invenções eletrônicas, o progresso tecnológico chegaram e caminham em uma velocidade-luz, oferecendo-lhes mil outras opções de entretenimento.

Serafina foi, efetivamente, a minha mais completa criação. Só por ela eu já diria que a vida valeu a pena.

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Depois de publicar mais de 50 livros, você diria que dá pra sobreviver financeiramente apenas de literatura, no Brasil? Qual o conselho que você daria para os autores iniciantes?

livrosCP: Faz alguns anos que sobrevivo – e vivo! – da literatura e alguns trabalhos paralelos e correlatos. Para isso, tive que alterar totalmente as minhas prioridades, eliminar os supérfluos, levar uma vida simples, caseira, o que, na verdade, não é nenhum sacrifício… Deixei de consumir sem sofrimentos… Optei por viver só, não ter filhos, convencida de que liberdade e solidão têm um limite muito tênue. E a solidão nunca me assustou, ao contrário, é nela que posso exercitar, ainda que inconscientemente, o meu ócio criativo.

Agora, então, vivendo em uma cidade do interior, consigo fazer mais economias, pois a vida é mais simples e custa menos. E as economias são para viajar, viajar, conhecer o mundo, outras culturas, outros povos.

Escolhi um tipo de vida muito particular; por isso, abstenho-me de dar conselhos ou sugestões a quem está começando agora. Além do que, 34 anos correspondem a muita estrada percorrida.

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Você mora na cidade de Tietê, no interior de São Paulo, e posta muitas fotos de natureza, pássaros e animais na rede social (facebook). Comente essa relação com a mãe natureza, ela se reflete em sua literatura? E o que você diria sobre essa nova rede de amizades?

CP: A minha volta a Tietê, cidade onde nasci e passei os primeiros 18 anos de vida, foi circunstancial. As únicas irmãs vivas de minha mãe, as mais velhas, que ajudaram a nos criar, a mim e a meus irmãos, já nonagenárias, quebraram a perna, em curto intervalo de tempo e estavam precisando de cuidados. Não opus resistência e tudo ficou mais fácil: nos primeiros três anos, fiquei de idas e vindas; mas, à medida que o tempo passava, eu tinha menos vontade de voltar para minha casa, em São Paulo. Finalmente, em 1995, concretizei a mudança: vendi meu apartamento e construí uma casa em um loteamento novo, chamado Infinito, onde há um bom pedaço de mata preservada por conta do Ribeirão da Serra, que passa muito perto.

Em 2006 partiu uma das tias, um ano depois se foi a outra; no dia 22 de maio de 2007, pela primeira vez, dormi na minha cama, no meu quarto, na minha casa, a Morada das Flores.

O reencontro com a terra, com a natureza foi muito forte, mexeu muito com minhas emoções, minhas entranhas, até. Por isso fiquei ausente, retraída, escrevendo, sim, mas compondo e recompondo fragmentos das vivências, das lembranças que me trouxeram de volta tanta gente, tanta coisa! Eu me tornei outra pessoa depois dessa experiência tão marcante. E isso, é claro, vai se refletir – já está se refletindo – na minha literatura.

A rede social da qual faço parte, o Facebook, me ajudou a trazer de volta amigos que eu não via há anos; me fez conhecer novas pessoas, que se ligaram na mesma sintonia, e, com isso, fiz novos amigos, vários deles que já passaram do virtual para o real. Além disso, como vivo só, em um lugar isolado, posso ter companhia nos momentos em que precisar dela. Posso acompanhar, por exemplo, o dia a dia de uma amiga das mais queridas, que vive na Espanha. Penso que, sabendo usar, o Facebook é uma ótima ferramenta, profissional, inclusive. Não entro em discussões, por princípio, preservo minha intimidade, apenas conto e mostro as belezas do meu dia a dia neste pedaço de paraíso que se chama Infinito.

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Voltei à terra das raízes e virei semente. No tempo certo, no cio da minha terra, fecundei, germinei, deitei brotos, virei planta. Raízes de todo o sempre, galhos novos, novas folhas me encorparam, devagar, no ritmo da natureza. Agora, nas veias corre seiva, sangue verde, revigorado pelo húmus da terra. Novo ciclo, em tanta vida já vivida.

Espero as flores, depois os frutos e a chegada de novas sementes.

E é nesta paz infinita, entre sons e cores de nascentes e poentes, uma nova descoberta a cada dia – um pássaro,um teiú, uma flor, um coelho do mato, uma folha, um tatu, um fruto — de preferência, ao lado de Ninas e Filós, é neste manancial inesgotável que eu quero respirar até a última gota de ar que me couber. E é aqui, no meu Infinito, que eu quero renascer Infinito.

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Maria Cristina Porto Martins

Paulista de Tietê, Cristina Porto formou-se em Letras, pela Universidade de São Paulo.

Desde o começo de sua carreira profissional, em 1971, sempre esteve ligada à criança: como professora de alfabetização, durante 7 anos, em uma escola municipal da periferia de São Paulo; depois, como funcionária da Editora Abril, no departamento de publicações infantojuvenis, onde trabalhou para as revistas Recreio, Alegria e Corujoca, como colaboradora e editora; a partir de 1980, como escritora, estreando com o livro Se, Será, Serafina?, editado pela Ática.

Entre 1981 e 1983, participou, como coordenadora geral, do projeto Taba: Histórias e Músicas Brasileiras, criado e editado por Sonia Robatto e a equipe do estúdio que levava seu nome.

Depois disso, passou a dedicar-se exclusivamente à literatura; tem, hoje, mais de 50 livros publicados por várias editoras, dentre os quais, os premiados:

Serafina e a Criança que Trabalha  (Editora Ática) — prêmio de melhor livro infantil informativo, conferido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 1996;

O Diário Escondido de Serafina (Editora Ática) – prêmio de melhor livro infantil, conferido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), em 1997.

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Facebook: https://www.facebook.com/cristina.porto1?fref=ts

Linkedin: http://www.linkedin.com/pub/cristina-porto/37/430/880

Ática

http://www.atica.com.br/SitePages/autores.aspx?Autor=2239

http://sites.aticascipione.com.br/serafina/videos.html

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Como nasceu serafina

http://youtu.be/NwHCqqIWkhY

30 anos de Serafina

http://youtu.be/E-Jwen-cfB8

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Michele Iaccoca – vídeo

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