Minientrevista com Livia Garcia-Roza, escritora.

[ Minientrevista com Livia Garcia-Roza, escritora carioca ]

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Conheci Livia da melhor maneira que um leitor pode conhecer um escritor: através do seu primeiro livro, Quarto de menina. Lembro-me que fiquei apaixonada pela história e até enviei um e-mail, como fã, elogiando e comentando o romance. Creio que ela não se recorda, faz tanto tempo, rs. Depois li outros livros da autora, e agora a acompanho no facebook. Assim resolvi fazer uma entrevista com a querida Livia, e esta gentilmente aceitou. Obrigada pela participação! Com admiração e Abraços Dobrados de Sampa.

Como foi a sua infância/adolescência e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida?

LGR: Nasci no Rio de Janeiro, mas cresci em Icaraí, Niterói, numa grande casa, próxima à praia. Uma verdadeira open house. Pela nossa casa circulavam artistas, em sua maioria músicos (minha mãe era musicista), assim como maestros, poetas (não me recordo de nenhum escritor, o que não exclui que tenham frequentado à nossa casa), amigos, e um cachorro collie transitavam pelo ambiente. Esse cachorro veio a ter grande importância na minha vida. Eu o ganhei e ele chegou já nomeado, como a sinalizar minha trajetória futura: Narro.

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Minha mãe, como disse, era harpista. Tocava dias inteiros, se preparando para concertos; ensaiava duetos, tercetos, quartetos, quando não dava aulas de harpa em casa. Meu pai era um advogado conceituado, e gostava de alguns poetas. Quando não estava trabalhando, recitava em voz alta pela casa, em especial o poema Ingratidão, do poeta Raul de Leoni, autor de Luz Mediterrânea, livro que não saía de sua cabeceira. Ideias sublimes, dizia ele, se referindo ao poeta, sublimes! Adorava também Gonçalves Dias, sobretudo a Canção do Tamoio, com que costumava me acordar pelas manhãs: “ Não chores, meu filho (meu filho!) / Não chores, / A vida é luta renhida, / Viver é lutar…” Mas acima de tudo, meu pai era um contador de “delírios”, não apenas dos próprios como dos de outros. Divertia-se muito narrando. Eu me assustava e me divertia simultaneamente. Data daí, meu encontro com a palavra.

Quanto aos livros, eles me eram narrados por uma prima da minha idade, que passou boa parte da infância conosco, e que lia para mim quase todas as noites. Graças a ela “li” um pouco. Na verdade, “lia” o mundo e seus habitantes. Até o dia que dispensei a ajuda da prima e dei início ao meu errático percurso de leitora.

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Livia, você é psicanalista com pós-graduação em psicologia clínica. Conte-nos como essas áreas influenciam a sua literatura.

LGR: Fui psicanalista até cinco anos atrás quando fechei o consultório. Não o sou mais. Conscientemente, não detectei nenhuma influência da psicanálise na minha literatura; em termos inconscientes, nada posso afirmar.

SDC14056Primeiro livro que li da Livia, e logo me apaixonei pela história.

Você estreou na literatura em 1995, com o romance Quarto de menina, que ganhou o selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então lançou vários outros romances, coletâneas de contos e infantojuvenis, correto? Comente, por favor.

LGR: Estreei na literatura em 95 com Quarto de menina (minha semente de sol) e não parei mais. Minha literatura pouco a pouco se encorpava. Vários foram os títulos publicados, entre romances, livros de contos e literatura infantojuvenil. Escrever, além de trabalhoso, me dá muita alegria. Sinto como um encontro com a palavra de meu pai, com essa palavra solta, espontânea, livre — a palavra da liberdade. A literatura nos exige liberdade e disciplina, coisas distintas, que eu tento conciliá-las até hoje.

infantisQual a sua opinião, como escritora e psicanalista, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea. Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

LGR: Como estou sempre escrevendo não disponho de muito tempo para ler como gostaria. Mas sempre que vou abrir um livro procuro alternar as leituras. Se leio um romance, depois pego um livro de contos, em seguida um infantil, ou faço o caminho inverso. O que leio todos os dias é poesia. É o disparo para a minha imaginação. Quanto ao preconceito em relação à literatura infantojuvenil, é lamentável. Livros são a infância do mundo.

Você é bem participativa no facebook e tem muitos seguidores-admiradores. Uma curiosidade: você lançou um livro com a reunião de frases que foram postadas nessa rede social. Elas foram escritas especialmente para o face, mas já com o objetivo de publicação no formato tradicional, em papel?

Sobre o livro: http://lendocomendo.blogspot.com.br/2011/10/resenha-faces.html

LGR: Sim, sou adepta das redes sociais. Participo de duas delas diariamente: do facebook e do twitter. Penso que atualmente é o espaço que temos para divulgação do nosso trabalho. No Rio, onde moro, temos apenas um jornal com caderno de cultura; senti necessidade de encontrar um lugar para canalizar meu trabalho. Quando entrei no facebook, me dispus a postar literatura. Dispomos de apenas 420 caracteres para postar no facebook, e no twitter, menos ainda, apenas 140 caracteres. Com isso, é preciso escrever textos curtos, e através deles, alcançar a concisão, a precisão literária; tudo que eu necessitava adquirir. Tenho me exercitado durante todos esses anos. Foi assim que, de repente, percebi que eu tinha uma quantidade razoável de posts, e tive a ideia de publicá-los. Falei com a editora da época, e veio a público Faces, pela editora Record. Inicialmente os posts foram escritos apenas com o objetivo de eu me exercitar na escrita. Como um exercício de linguagem.

“Há tantos sentidos para um texto quanto forem as pessoas que o lerem.
É a isso que se chama riqueza literária. Quanto mais sentidos um texto produzir, mais rico ele é.”

“A função da literatura não é persuadir, mas provocar”

Como psicóloga, qual a sua opinião a respeito dessa nova rede de relacionamentos?

LGR: Minha opinião como usuária, e não como psicóloga, uma vez que não exerço mais a profissão, é que sendo o face uma rede de relacionamentos (nossa ágora contemporânea), de trocas, não só de experiências profissionais como também de troca afetiva, isso só pode vir a enriquecer seus usuários. Claro está que vai depender do uso que cada um faz. Meu critério de avaliação para que alguém participe da minha página é se estou diante de uma pessoa ética ou não. E isso com o tempo transparece.

E, pra terminar: você é casada com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza. Dúvida frequente dos leitores: existe alguma competição entre os escritores, ou o que vigora é uma cumplicidade, tanto na escrita quanto na psicanálise? 

Livia e Luiz Alfredo Garcia-Roza em foto de Bel Pedrosa (29.07.14Livia e Luiz Alfredo Garcia-Roza em foto de Bel Pedrosa 29/07/2014.

LGR: Luiz Alfredo e eu somos casados faz muito tempo. Respeitamos profundamente o trabalho um do outro, e eles apontam para caminhos diferentes. Conversamos bastante sobre literatura, como também sobre outras áreas do conhecimento, mas não intervimos no trabalho um do outro. Nos acompanhamos, sem que haja competição, tampouco cumplicidade. O que existe são as alegrias pelas conquistas que cada um faz.

Captura de tela 2014-05-11 às 08.42.21Prêmio Jabuti 1997, categoria Romance. Livro: O SILÊNCIO DA CHUVA (1996)
Prêmio Nestlé de Literatura 1997, categoria Romance (2o. lugar). Livro: O SILÊNCIO DA CHUVA (1996)

 

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10256016_779516088725386_4626735357885606634_nLivia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista, pós-graduada em psicologia clínica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1995, com o romance Quarto de menina, que ganhou o selo altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então lançou vários outros romances, livros de contos e infantojuvenis; entre os quais Meus queridos estranhos, Cartão-postal, A cara da mãe e A casa que vendia elefante. Ora trazendo histórias cotidianas, ora situações extraordinárias ou dramáticas; a prosa de Livia sempre imerge nas emoções humanas, com extrema delicadeza e profundidade. A autora é casada com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza. Os livros Cine Odeon, e Solo Feminino foram indicados ao Prêmio Jabuti de Literatura. Seus livros possuem o selo de Altamente Recomendável concedido pela Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Obras

Romances
Cine Odeon  – 2001, Record Foi finalista do Prêmio Jabuti.
Meus Queridos Estranhos – 1997, 2005, (nova edição no prelo) Companhia das Letras
Cartão-postal – 1999, Record
Solo Feminino: Amor e Desacerto  – 2002, Record Foi finalista do Prêmio Jabuti.
A Palavra que veio do Sul – 2004, Record
Meu Marido  – 2006, Record Foi finalista do Prêmio Portugal Telecom.
Milamor  – 2008, Record Foi finalista Prêmios São Paulo de Literatura  e Passo Fundo Zaffari & Bourbon
O Sonho de Matilde – 2010, Record
Amor em dois tempos – Companhia das Letras

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http://terezaeluiz.blogspot.com.br/2009/02/lancamento-do-balacobaco-treze-contos.html

Contos & Crônicas
Ficções Fraternas /organização – 2003, Record
Filhos e Cenas (co-autor Fernando Bonassi) – 2004, Callis
Restou o Cão e Outros Contos – 2005, Companhia das Letras
A Cara da Mãe  – 2007, Companhia das Letras Foi finalista do Prêmio Jabuti.
Era outra Vez  – 2009, Companhia das Letras
Faces – 2011, Record 2003

Infantil & Juvenil
Quarto de Menina  – 1995, 2009, Record Ganhador do selo de Altamente Recomendável, pela FNLIJ.
A Casa que vendia elefante (il. Mariana Massarani)  – 2008, Record
Betina tem um Problema (il. Mariana Massarani)  – 2010, Galerinha Record
O Caderno de Liliana (il. Taline Schubach)  – 2011, Companhia das Letrinhas
Betina fica sozinha (il. Bruna Assis Brasil)  – 2012, Galerinha Record

Participou das seguintes antologias de contos:
A Alegria: 14 ficções e 1 ensaio (Editora Publifolha, 2002)
Boa Companhia – Contos (Companhia das Letras, 2003)
25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizado por Luiz Ruffato (Editora Record, 2004)
Aquela canção: 12 contos para 12 músicas (Editora Publifolha, 2005)
35 segredos para chegar a lugar nenhum: Literatura de baixo-ajuda, organizado por Ivana Arruda Leite (Editora Bertrand Brasil, 2006)
Contos de agora – Audiobook, coletânea de 21 contos selecionados por Moacyr Godoy Moreira, na voz da atriz Leona Cavalli (Editora Livro Falante, 2007)

Links

faceFace: https://www.facebook.com/lgarciaroza?fref=ts

twiterTwiter: https://twitter.com/Imbassahy

Mídias

PAIOL_Livia-Garcia_Roza_6
Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/livia-garcia-roza/

Agência Riff: http://www.agenciariff.com.br/site/AutorCliente/Autor/26  e
http://agenciariff.com.br/Site/NoticiaEntrevista/ShowEntrevista/29
Revista Bravo on line: http://bravonline.abril.com.br/materia/meu-bem-ficcao-inedita

Captura de tela 2014-05-11 às 09.42.36
Digestivo Cultural: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2334&titulo=O_Casal_2000_da_literatura_brasileira

Revista Época: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI63870-15224,00-LEIA+TRECHOS+DE+LITERATURA+POR+CELULAR+E+DEPOIMENTOS+DE+AUTORES.html

“ Microconto de celular é literatura?
Por que não lançar mão de outras possibilidades de escrita? É literatura sim. Qualquer forma de expressão escrita é literatura. Estórias são literatura. E microconto no celular é história, mesmo curta. É literatura porque se cumpre, mesmo que com poucas palavras.” (Lívia Garcia-Roza, autora participante do projeto Curta no Celular da Mostra Sesc de Artes de São Paulo.

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