Minientrevista de Tereza Yamashita com Mauricio Negro, ilustrador, designer e escritor.

[ Minientrevista de Tereza Yamashita com Mauricio Negro, ilustrador, designer e escritor ]

Conheci o Mauricio (por e-mail, rs) através do Orlando Pedroso (confira a sua mini, aqui no Abraços). Arigatô!
Dessa forma, comecei, através do face, a acompanhar o seu trabalho maravilhoso. Virei fã de sua arte, rs. E recentemente ele foi um dos ilustradores selecionados para representar o Brasil na Feira de Bologna, que honra, não?! Então, resolvi fazer essa minientrevista, um modo singelo de homenagear todos os ilustradores que representam o Brasil pelo mundo. Abraços Dobrados e muito obrigada pela sua participação!

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Mauricio, como foi a sua infância/adolescência, e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte de sua vida?

Gustave_Dore_Inferno34Gustave Dore – Inferno

MN: Desde cedo tive contato com livros. Muitos parentes e amigos eram leitores. Lembro de xeretar livros alheios por toda parte. Sempre tive essa curiosidade de saber o que liam as pessoas que respeitava ou tinha admiração. Queria saber dos seus interesses e prazeres. Tinham livros em casa, e meu avô conservou o acervo do pai. Dele herdei algumas belas edições: A Divina Comédia (ilustrada pelo Doré), Lobato completo, coleções inteiras de capa dura. E por aí vai. Tive uma infância e uma adolescência muito boas. Hoje é claro para mim, viver entre o mato e a praia foi o maior dos luxos. Cresci no meio de bicho, planta, nascente, cachoeira, pomar, horta, passarinho, galinheiro. Nas terras da antiga Fazenda Santa Rosa, fracionada depois em sítios entre os herdeiros da família, me embrenhava pelos matos e esquecia de tudo. A área tinha sido uma fazenda colonial tradicional, onde se plantou muita cana. Os filhos e netos de escravos, após a abolição, por ali permaneceram como empregados. Foi a comitiva da própria Princesa Isabel que abriu a estrada de acesso até a porteira da fazenda. Com afeto, lembro do Seu Altino. Preto velho que me benzia e preparava os xaropes de guaco e outras ervas para aliviar a minha bronquite e me ensinava outras coisas, mesmo quando pitava, pescava pitus e guardava silêncio. Quatro gerações da minha família viveram ou passaram longas temporadas por lá, nos arredores do município de Cotia. Tinham escoteiros acampados pelas matas. Por lá também trabalharam muitos colonos japoneses. Sinto saudades do ruído do vento nas árvores, das águas geladas, dos cheiros, de tocaiar os bichos, de pegar fruta no pé e verdura na horta, do forno à lenha, do tempo que sentia fruir em vez de passar. Quando não estava por lá, e não tinha escola, frequentava também o litoral na casa de amigos. De um jeito ou de outro, minhas bibliotecas inaugurais foram verdes e azuis. E os livros, de papel, sempre estiveram por perto. Baita sorte! Aprendi a tirar da leitura o mesmo prazer que o futebol – e por vezes, o samba – me davam, nos finais de semana com amigos ou acompanhando o meu pai, que jogava e batucava muito bem. Pelo lado da minha mãe, o lance era pintar e escrever. Herdei esses gostos. Além de óleo, carvão e porcelana, minha mãe fez peças formidáveis em charão. Arte tradicional oriental que suponho extinta (ou quase), em razão dos materiais empregados e da enorme dificuldade técnica. Depois descobri o cinema, já pela vivência urbana. Tenho dois primos cineastas. Moramos alguns anos nos arredores da Av. Paulista. E ali o circuito cultural é mesmo um privilégio. Livrarias, museus, parques, salas de cinema etc. Mais tarde, mudamos para Vila Madalena. E de lá, para Perdizes, onde moro hoje com a família.

livros negroDesign de livros

Após uma temporada de estudos, pesquisa e projetos na França, você retornou ao Brasil, em 2006. Desde então tem produzido monotipias, pirogravuras e scratchboards. Foi nesse período que você se identificou com os registros étnicos, ancestrais ou indígenas, e com a chamada arte bruta ou espontânea?

MN: A passagem pela França me deu a tal experiência do afastamento, como acontece com outros tantos, e permite um balanço de valores. Mergulhei de cabeça no cotidiano daquele jeito de ser velho mundo. Cinza, racionalista, existencialista. E do choque cultural veio o retorno. Minha mulher e eu voltamos reciclados. Mais importante do que assimilar a cultura local foi mesmo o acesso àquele vasto repertório cultural e artístico de tantas culturas. E isso foi importante pacas para motivar o que me importa. Pouco antes da vivência na França, meu trabalho tinha uma pegada mais pop. Mas, digamos, que a vivência européia intensificou o que já havia de brasilidade em mim. A vida rural, às identidades, à diversidade natural, artística, visual, musical, aos interesses e preocupações que sempre me acompanharam a vida toda. Curto mitologia, meio ambiente, arte popular e nativa e culturas circulares.

Captura de tela 2014-03-23 às 07.05.02Exposições: http://negroaporter.blogspot.com.br/

Você já participou de várias exposições nacionais e internacionas, como: Brasil: Incontáveis Linhas, Incontáveis Histórias e participará da Feira do Livro para Crianças e Jovens de Bolonha, em 2014. Qual a sua opinião a respeito desses eventos literários? Eles ajudam a colocar o autor brasileiro em evidência no Mercado internacional?

MN: Só uma correção. A exposição da qual participarei em Bolonha, quando o Brasil será o país homenageado, é essa que você menciona: Brasil: Incontáveis Linhas, Incontáveis Histórias. Mas, respondendo a sua pergunta, é difícil dimensionar a importância dessas participações internacionais. A literatura brasileira tem, é claro, uma baita oportunidade de mostrar seu força. Bogotá no ano retrasado, Frankfurt no ano passado, Bolonha neste ano, e dizem que também em Paris, Londres e Nova York na sequência, escolheram o Brasil como o país homenageado. São eventos literários consagrados, o que nos dá prestígio. Somos ainda pouco conhecidos e traduzidos no exterior e, com essa exposição toda, é bem possível que as perspectivas melhorem. Oxalá isso também repercuta por aqui, de alguma forma. Carecemos ainda de leitores espontâneos no Brasil. Que uma coisa, portanto, se alimente da outra!

Capas Negro
Você tem livros publicados (Jóty, o tamanduá, A palavra do grande chefe, Quem não gosta de fruta é xarope, Zum Zum Zum, Balaio de gato, Mundo cão) e vários ilustrados, e já
ganhou diversos prêmios. Qual o livro que lhe trouxe maior satisfação e reconhecimento?

ArquivoExibir

MN: Em vez de citar um livro, diria que em todos eles me reconheço. Pelos efeitos e também pelos defeitos. Minha ficha caiu, por exemplo, quando fiz Zum Zum Zum. Só por esse motivo, esse livro vale muito para mim. Quem não gosta de fruta é xarope, por exemplo, é fruto (sic) direto do meu mergulho íntimo. A palavra do grande chefe, coautoria com o Daniel Munduruku, é a síntese: a vida, não como se vive aqui e agora, mas como a deveríamos compreender e aproveitar. O choque entre as tradições, linearidade e circularidade, está no discurso maravilhoso do Chefe Seattle que recontamos. Houve até uma leitura presencial desse livro, durante a FLIMT (Feira do Livro Indígena do Mato Grosso), tendo como ouvintes vários lideranças indígenas. Jóty, o tamanduá é também um projeto em parceria com uma autora indígena, a Vângri Kaingáng. Feito no Mato Grosso, publicado no Brasil, e depois traduzido na França. Fala do sentido da arte, para os Kaingang e para todos nós. Todos esses livros me deram muito trabalho, cansaço e depois alegrias, aprendizados, amizades e até alguns prêmios.

Além de escrever e ilustrar, você ministra palestras educativas, é curador e coordenador editorial, correto? Com qual dessas atribuições você mais se identifica? Numa outra entrevista você respondeu que ilustrar um livro é: …fazer música. Comente, por favor.

Curiosidade: Mauricio Negro fala sobre as técnicas de ilustração e como as aplica no dia a dia da profissão. Clique aqui.

vimeohttp://vimeo.com/2179333

MN: A música dá inveja da boa. Vai direto ao sentimento. A assimilação visual e literária é mais intelectual, tem atalhos. Na nossa educação ocidental, ainda por cima, há um nó. Quando se cresce, mais valor damos à palavra escrita. Menos à falada e, especialmente, à imagem. Por isso, gosto dessa ambição: o texto está para a letra assim como a ilustração está para a música. Nos melhores momentos, o livro é canção. Bem, acho que há um continuum em tudo que faço, e preciso ligar as coisas. Tem vezes que me assusto com o rumo que, às vezes, as coisas tomam. Brincar de criar é coisa séria. Mas gosto da transversalidade, sim. É pura vontade de fazer e compartilhar o que acho merecedor.  Mas sou um amador, ou melhor, faço por amor seja lá o que for. E acho que a diversidade brasileira profunda ainda é pouco conhecida. Me incomodam os velhos paradigmas, o etnocentrismo, os modelos ideológicos vencidos, a indústria de consumo e a monocultura em geral. E preciso dividir minhas impressões e sentimentos sobre essa linearidade, daí vou me arriscando a assumir papéis imprevistos. Tudo se conecta, mas sou um autor.

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Qual a sua opinião, como autor de literatura infantojuvenil contemporânea: você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

 MN: Há e é uma tremenda tolice. Cada criança, como um adulto, tem sua própria identidade. Não se cria para um público específico. Literatura é Arte. Livros ilustrados são para crianças? Talvez, embora não exclusivamente. Livros sem ilustrações são para adultos? É certo, mas para algumas crianças também. São convenções e questões de mercado que geram ideias pré-concebidas. Aquilo que diz feito para a criança, em geral, é esquemático, redutor, estereotipado ou oportunista. A indústria é hábil em manipular. Uma criança pode ser diferente da outra pela idade, Mas também pela educação, referências culturais, sensibilidade, valores familiares, região onde vive, circunstâncias socioeconômicas e muitos outros aspectos. E uma criança – seja qual for – costuma ser mais maleável, crítica, sincera e sensível que um adulto. Penso que se há um desdém pelas crianças, está então por toda parte. Se viramos consumidores, em vez de cidadãos, com a garotada isso ainda é mais crítico.

Boa parte do crédito e interesse que nossa literatura tem conquistado no exterior, acredito, deve-se à qualidade notável dos nossos livros ilustrados. Em geral, feitos para os mais jovens. Ali estão as mais ousadas experiências de texto, ilustração e projeto gráfico. A literatura dita infantil trata dos temas e questões essenciais da filosofia. Sem firulas. linguiças e chaleiradas. Quando honesta, vai ao que interessa para tocar qualquer leitor. E ainda conta com o encanto narrativo das ilustrações.

livros ilustradosDepois de escrever e ilustrar muitos livros, que conselho você daria aos novos autores e aos novos ilustradores?

MN: Quem não rabisca, não petisca. Evite modismos e tendências, salvo como exercício. Copie para aprender e depois desaprenda. Conhecer é bom, mas informação tem limite: a sua sensibilidade. Estilo é decorrência, não se persegue. Use espelho. Medite. Cada coração tem sua batida. O tempo dirá. Escrita e desenho são feitos do mesmo barro. Respeite tanto um quanto o outro. E valorize cada gota de tinta ou de suor.

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Mauricio Negro: Ilustrador, designer gráfico e escritor identificado com temas fantásticos, ancestrais, mitológicos, ambientais, étnicos ou ligados à diversidade cultural e artística brasileiras. Seleção Brasil: Incontáveis Linhas, Incontáveis Histórias (Bolonha, 2014), Prêmio Jabuti – Infantil (Brasil, 2013), Finalista Prêmio Jabuti – Capa (Brasil, 2013), Seleção Prêmio Latino-americano de Ilustração – UP (Argentina, 2013), The Merit Award/Hiii Illustration (China, 2012), Prêmio Editorial XX SIDI (Brasil, 2012), Seleção CJ Picture Book Festival (Coreia do Sul, 2009), Prêmio Incentivo NOMA (Japão, 2008), Menção Honrosa XV SIDI (São Paulo, 2007), White Ravens: Special Mention (Alemanha, 2000), Várias vezes Altamente Recomendável pela FNLJ. Coordenador editorial da Coleção Muiraquitãs (Global Editora) e membro do conselho gestor da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB). Autor-ilustrador de sete livros: Jóty, o tamanduá (em francês pela Éditions Reflets d’Ailleurs), A palavra do grande chefe, Quem não gosta de fruta é xarope, Zum Zum Zum, Balaio de gato e Mundo cão (todos pela Global Editora). E, em breve, Por fora bela viola (Edições SM, 2014). É bacharel em Comunicação Social pela ESPM. Após uma temporada de estudos, pesquisa e projetos na França, retornou ao Brasil em 2006. Desde então tem produzido monotipias, pirogravuras e scratchboards. Também utiliza pigmentos naturais, material alternativo ou reciclado, anilinas e elementos orgânicos. Sua abordagem visual flerta tanto com os registros étnicos, ancestrais ou indígenas, quanto com a chamada arte bruta ou espontânea. Faz uma releitura contemporânea, poética e subjetiva dessas referências circulares.

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Sites: http://mauricionegro.blogspot.com.br/    ou    http://negrofolio.blogspot.com.br/

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No facebook: https://www.facebook.com/mauricio.negro.5?fref=ts

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Novo site: https://blackbox.allyou.net/1273631

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