Rogério Pereira, editor do Rascunho

[ Minientrevista com Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho e do site Vida Breve, atual diretor da Biblioteca Pública do Paraná, que publica o Jornal Cândido ]

ROGERIO PEREIRAFoto: Guilherme Pupo

Mais um ano está começando, como passou rápido! Esta é a terceira minientrevista de 2014! É sempre muito interessante conhecer um pouco da vida e da carreira de todos esses profissionais do livro. Adoro! Com as mini, eu presto uma pequena homenagem a eles, agradeço por todas as parcerias, relembro saudosamente o passado e espero continuar presente na vida de todos, ainda num futuro bem distante, rs.

Se minha memória não estiver falhando, conheci o Rogério em meados de 1999, quando fomos, Joca Terron, Nelson de Oliveira e eu para Curitiba, lançar o livro Treze, da extinta editora Ciência do Acidente. Deixamos a Érica com os meus pais, e, de buzão, partimos à meia-noite. Que viagem cansativa, mas foi muito divertida! O Nelson e eu fomos recebidos pela simpática família do saudoso Valêncio Xavier. Nos hospedamos, na época, na pequena edícula do casal. Lembro-me que o Nelson/Luiz Bras e eu quase não falávamos, apenas ouvíamos as fantásticas histórias do Valêncio, de cabelo branco e com uma vitalidade insuperável. Ele nos contagiava com sua enorme alegria de viver. Ah, Valêncio nos levou para conhecer Curitiba em seu velho fusca branco, debaixo de chuva… sem enxergar direito, e mesmo assim dirigindo! Eu via cada esquina como o cenário possível de um pequeno acidente. Que aventura, rs.

Depois, não me recordo bem, acho que fomos convidados para um almoço, e ali eu acabei conhecendo o Rogério Pereira: alto, magro, falante e elétrico, rs. Um almoço rápido, no centro da cidade, na mesa estavam alguns autores, entre eles o Manoel Carlos Karam, creio que a professora e escritora Luci Colin também estava presente.

Enfim, foi assim que conheci pessoalmente o Rogério, a partir daí o nosso contato foi só através de e-mails. Comecei a colaborar esporadicamente com o Rascunho, com ilustrações. O polêmico editor do Rascunho até publicou um conto meu, rs. Clique aqui! Foi um dos meus contos expressionistas, publicado primeiramente no site das Escritoras Suicidas (confira  a minientrevista com a editora do site: Silvana Guimarães). Ah, o conto, com uma ilustração minha, também foi publicado na Revista Continente de Pernambuco! Bons tempos.

A minha primeira ilustração colorida para o Rascunho foi publicada em novembro de 2005, para o poema do Carlos Nejar: Antielegia à justiça. Depois fiz várias ilustrações, mas a minha maior participação no jornal foi com as ilustras para o romance-folhetim de Nelson de Oliveira, Poeira: demônios e maldições, de novembro de 2006 até fevereiro de 2008. E em 2010, o romance foi publicado pela editora Língua Geral.

Em novembro de 2009 fui convidada pelos editores Rogério Pereira e Luís Henrique Pellanda para fazer parte do grupo de ilustradores do site Vida Breveilustrando as crônicas da Ana Paula Maia. Depois ilustrei as crônicas do Fabrício Carpinejar e, por último, as delicadas e emocionantes crônicas do Rogério Pereira.

Bom, já falei, ou melhor, escrevi demais. Agora, se deliciem com a mini do Rogério. Aqui fica o meu agradecimento, por ter tido a honra de ilustrar vários autores conceituados, e vários dos meus escritores prediletos, rs. Valeu, arigatô!

Como foi a sua infância/adolescência e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida? Você começou a trabalhar como contínuo (office boy) na Gazeta do Povo aos 14 anos, correto?

Minha infância esteve, desde sempre, muito distante da leitura e de qualquer expressão cultural. Tínhamos algo muito mais importante e urgente entre nossas preocupações: a sobrevivência da espécie. Neste caso, nós mesmos. Éramos um bando vindo da roça para a cidade grande (Curitiba). A leitura começou a fazer parte da minha vida na escola. Em casa, nosso contato com a alta cultura se dava por meio de uma velha televisão Telefunken (preto-e-branco). Ali, assisti ao desenho Tarzan. Foi o que apareceu quando o pai ligou aquela geringonça. Um menino no meio da floresta. Eu era um menino selvagem no meio de prédios. Trabalho desde que passei do estado rastejante para o estado vertical. Quando as pernas aguentaram mais de dois passos, lá fomos nós para a lida. Não era ruim. Era normal entre nós. Comecei vendendo flores na rua, depois em frente aos cemitérios, em seguida nas belas praças de Curitiba. Ou seja, aos poucos evolui. Depois, trabalhei em fábrica de móveis e dentais. Aos 14 anos, entrei na Gazeta Mercantil. Descobri que a palavra escrita fazia algum sentido. Homens (alguns até sérios) sentavam em máquinas de escrever e, incrivelmente, escreviam. E ganhavam a vida escrevendo em pedaços de papel. Muito melhor que vender flores, carregar cadeiras, cortar lenha, assentar tijolos e outras maravilhas do mundo laboral. Então, resolvi copiar aqueles homens: comecei a escrever. Estou por aqui escrevendo até hoje. Só ainda não sei se não deveria ter insistido um pouco mais com as cadeiras.

Rogério, você é jornalista, com pós-graduação em Comunicação e Gestão Política pela Universidade Complutense, de Madri (Espanha), correto? Conte-nos como você criou o jornal Rascunho, lançado em abril de 2000. Em outra entrevista, para a jornalista Eliana Brum, você revela que foi por pura vingança. Comente.

Acho que criei o Rascunho por tédio e um pouco de arrogância. Tinha acabado de voltar da Espanha, estava aqui num empreguinho de assessor de imprensa na Prefeitura de Curitiba (um dos trabalhos mais chatos da minha vida; pior que lamber os ossos dos defuntos em frente ao cemitério). Então, resolvi criar um jornal de literatura. Reuni alguns malucos, sentamos num bar e começamos o Rascunho em 8 de abril de 2000. E estou fazendo isso até hoje (14 anos agora em abril). Mas como sinto saudades dos velórios, do chororô dos parentes e das muitas flores que vendia! Se o Rascunho é uma vingança? Claro que é. Só não sei muito bem contra quem. Talvez contra mim mesmo e contra aquela maldita escolha que ficava tão longe na infância da mãe. Ela só lia a Bíblia com a ponta dos dedos. Catava milho pelos passos de Jesus com a ponta áspera dos dedos. Até o dia em que os dedos se enrijeceram para sempre. E a jogamos no fundo de um caixão ordinário.

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Em um de seus depoimentos, você brinca que criou uma holding: editor do jornal Rascunho, coordenador do Paiol Literário, editor do site Vida Breve, já foi sócio do Quintana Café & Restaurante e atualmente dirige a Biblioteca Pública do Paraná, editando o jornal Cândido. Conte-nos como é esse seu outro lado, o de executivo.

Claro: a holding da sobrevivência. É tudo muito simples: precisamos fazer algo para passar o tempo enquanto alguém não vende flores para adornar o nosso caixão. A lógica é muito simples, apesar de assustadora. Gosto de criar coisas que me parecem impossíveis. Adoro passar o tempo com muitas preocupações na cabeça. Adoro ter insônia. E gastrite. Sou fanático por dívidas nos bancos. Aprecio amealhar muitos inimigos. Salutar considero os falsos amigos. Então, nada melhor do que ter um jornal de literatura, escrever ficção, editar um site de crônicas, dirigir uma biblioteca. Estou no paraíso, apesar de ele se parecer muito com um paraíso em chamas, cujo bombeiro é próprio demônio. De resto, sou muito organizado. Sobreviver requer paciência e organização. Quando o caixão de bracatinga chegar, não terei contas, tampouco deixarei herança. Só os inimigos a lamber os beiços às bordas de ordinários crisântemos.

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Qual a sua opinião, como escritor, editor e leitor-crítico, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea, agora que você é pai de dois futuros leitores?

Tenho lá minhas dúvidas se meus filhos serão leitores. Acho que isso é um problema deles. Eu dou um empurrão, mas sem qualquer ilusão. A literatura infantojuvenil é boa e ruim como tudo nesta vida. Como qualquer outra coisa que consumimos: carros, sabonete, pipoca e preservativos. Existem excelentes escritores. E escritores medíocres. Como sou um leitor razoavelmente rodado, procuro ler bons livros para os meus filhos. A vida é muito curta para se perder tempo com má literatura. O problema da literatura infantojuvenil é que boa parte dos escritores a considera algo fácil e simplória. A maioria dos autores escreve como se do outro lado do livro estivesse um retardado, um ser incapaz de compreender o mundo. É um monte de bobagem. É estúpido tratar a criança com um ser delicado, ingênuo, bobinho etc. As crianças são terríveis. E sofrem muitíssimo na infância. A infância não é o melhor momento da vida. Longe disso. E grande parte da literatura infantojuvenil tende a pintar um mundo estúpido e colorido. A vida, em qualquer momento, tem seus momentos coloridos. Mas ela é sombria e ameaçadora.

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Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior? A seção Rabisco, no jornal Rascunho, foi criada justamente para tentar quebrar esse suposto preconceito?

Acho que respondi parte desta pergunta anteriormente. A questão é que muitos autores tornam a literatura infantojuvenil em algo banal, sem importância, menor. É claro que existem muitas exceções. E excelentes exceções no Brasil. Poderia citar diversos autores de literatura infantojuvenil de grande qualidade. A seção Rabiscoserve para fortalecer o Rascunho como o “jornal de literatura do Brasil” — o que é de uma arrogância terrível.

Em 2011, você lançou a versão online do jornal Rascunho e criou, junto com Henrique Pellanda, o site Vida Breve. Você acredita que os e-books, num futuro próximo, substituirão os livros de papel? E em relação ao jornal impresso, você acredita que esse veículo também tomará o mesmo rumo?

O site do Rascunho existe desde 2002. Nos últimos anos, venho trabalhando para melhorar a versão online do jornal. Minha opinião sobre tudo isso: o papel e o digital vão viver em harmonia. É certeza que o digital supere o papel em grande escala. Mas os livros de papel estarão sempre por aí. Mas isso vai demorar muito tempo. Não podemos esquecer que o Brasil é um país de banguelas e analfabetos. Precisamos de muitas dentaduras e ensinar muitos brasileiros a ler. O jornal impresso vai ladeira abaixo. Mas também acho que sempre haverá gente disposta a sujar os dedos para ler algo de pouco importância. Muitos ainda têm o DNA de traça. Mas sobre o futuro, a única certeza que tenho é de que o paraíso em chamas me aguarda ali na esquina. De resto, mais nada.

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E, pra terminar, uma curiosidade: depois de lançar o seu primeiro romance, Na escuridão, amanhã, pela Cosac Naify – um livro que levou dez anos pra ser escrito (comente) –, você planeja um dia escrever também literatura infantojuvenil?

Levei dez anos escrevendo Na escuridão, amanhã. Até a publicação, foram quase 14 anos. O longo tempo de gestação significa excessivo rigor, desmedida autocrítica e certa incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada sobre retirantes. Foi um inferno: a história que eu imaginava tomou outros rumos, ganhou vida própria, me colocou contra a parede, voltou ao caminho original, desembestou outra vez. Ao final consegui parir (não sem muita dor) este magricelo Na escuridão, amanhã. Pretendo escrever dois livros infantojuvenis: Bartolomeu subiu na geladeira e Meu pai é daltônico. Só não sei se terei tempo. Sabe, o paraíso em chamas é sempre uma possibilidade.

ROGERIO PEREIRAFoto: Guilherme Pupo

ROGÉRIO PEREIRA nasceu em Galvão (SC), em 1973. É jornalista, editor e escritor. Em 2000, fundou em Curitiba o jornal Rascunho — uma das raras publicações sobre literatura no Brasil. É idealizador do Paiol Literário, projeto que já recebeu cerca de 60 grandes nomes da literatura brasileira para debates literários na capital paranaense.

Desde janeiro de 2011, é diretor da Biblioteca Pública do Paraná, onde coordena o Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura; o Sistema de Bibliotecas Públicas Municipais do Paraná e o Núcleo de Edições da Secretaria da Cultura.

É editor e escreve crônicas semanais para o site Vida Breve (www.vidabreve.com.br). Tem contos publicados no Brasil, Alemanha e França. É autor do romance Na escuridão, amanhã, pela editora Cosac Naify.

No facebook: http://www.facebook.com/Rascunho.Jornal

Jornal Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ 

Site Vida Breve: http://www.vidabreve.com/escritores/rogerio-pereira/e https://www.facebook.com/vidabreveVB?ref=profile

No twitter: https://twitter.com/jornalrascunho

Para assinar o jornal Rascunho: clique aqui.

imprensa_sidebar15 anos de publicação, abril de 2015. Parabéns!

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http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/escritor-celebrado-e-nao-lido-e-um-descompasso-8qskihsxm0sw5pr9trtksfjdf

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