Minientrevista com Nair de Medeiros Barbosa

 

 

[ Minientrevista de Tereza Yamashita com Nair de Medeiros Barbosa, ex-gerente de artes da Editora Saraiva-Atual, e escritora infantil ]

 

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Conheço a Nair há uns dezesseis anos! Tempo demais… Na época a Érica tinha uns quatro anos. No final do ano, quando íamos visitar a editora (lembra Nair? ), ela mexia nos seus objetos da mesa do escritório, rs. A sede da editora ainda era na Marquês de São Vicente. Bons tempos!
Começamos a trabalhar primeiro com as capas e depois com os projetos de capa e miolo dos livros didáticos, paradidáticos, jurídicos, universitários e de  literatura infantojuvenil, e até com eventos de origami. Nair foi uma das primeiras pessoas a acreditar no meu trabalho com dobraduras (na época, ainda como hobby, rs). Fiz ilustração, participei com porta-retratos de origami da Exposição dos 95 anos da Editora Saraiva, fiz uma mini-oficina de origami para os filhos dos funcionários da editora na comemoração do Dia das Crianças, um dos meus últimos trabalhos sob a sua supervisão.

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Agora estou me lembrando, Nair sempre me convidava para participar das exposições internas da editora. Ela chamava os designers e ilustradores colaboradores da casa. As exposições eram especialmente para convidados, professores e funcionários. Muito legal!

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Não sei quantas capas de livros e projetos fiz, mas foram muitos! Quero aproveitar a oportunidade para agradecer por todos esses anos, e dizer que aprendi bastante com você, que é uma profissional muito competente e responsável, com muita visão e determinação. Obrigada, Nair (e espero que possamos trabalhar juntas novamente), e a toda a equipe que te acompanhou nesses 24 anos de Saraiva (a Márcia Trindade, o Antonio Roberto Bressan, a Grace Alves, a Letícia, a Maria Paula, a Silvia da editoração)!

Puxa, quantas lembranças… são muitas, mas fica para uma próxima vez, e vamos para a cativante entrevista!

Nair, em uma biografia, você comenta que sempre foi fascinada por artes, o que a fez procurar o curso de arquitetura, mas com o passar do tempo esse fascínio mudou para as artes gráficas. Foi esse contato com o mundo editorial que a levou a se dedicar aos livros infantojuvenis?

NMB: Sem dúvida foi a porta de entrada para despertar o interesse pelos livros infantis. O convívio com o mundo da produção dos livros, as lindas ilustrações, os contos maravilhosos me fizeram querer ver e descobrir cada vez mais livros, desenhos e autores. Passava horas em livrarias e feiras de livros, mergulhando nesse universo fascinante e sem sentir o tempo passar.

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Curiosidade: projeto gráfico da capa, Nair de Medeiros Barbosa e projeto do miolo Tereza Yamashita,
do livro Vivendo a Filosofia para a Editora Atual.

Em sua infância, quais os autores e artistas plásticos de que você mais gostava e quais os que mais a inspiraram?

NMB: Monteiro Lobato e as obras clássicas dos irmãos Grimm foram muito marcantes. A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen, foi também um livro que me fascinou. Ilustradores como Gustave Doré, Franz Jüttner e outros com traço mais descontraído para a época em que ilustravam, como, por exemplo, Herbert Leupin, em 1946, representado abaixo nas ilustrações de A Bela Adormecida.

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Como ex-gerente de artes de uma das maiores editoras do Brasil (24 anos de experiência), você teve muito contato com os originais de outros autores. Quais os critérios que você utilizava para a escolha dos ilutradores? Os autores influenciavam nessa escolha?

NMB: Alguns autores, sim,  já têm as suas escolhas, mas o fator preponderante é sempre o tipo de história, se merece um traço mais realista, mais solto ou estilizado. Numa história forte abordando temas polêmicos para adolescentes, por exemplo, eu sempre prefiro usar um desenho mais subjetivo, que não reforce a temática da história mas que ajude a levar o leitor à reflexão.

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O Sítio do Tio Chico e  Hoje é domingo Pé de Cachimbo, editora Paulinas.

Como escritora e ilustradora (ilustrou dois dos seus próprios livros), e já tendo quinze livros publicados, entre eles dois selecionados para o Programa Salas de Leitura do MEC, qual a sua opinião sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?

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NMB: Acho que tivemos um grande avanço, não só porque saímos um pouco do mundo da fantasia, mas porque, em paralelo, estão sendo utilizados temas importantíssimos para a época  em que vivemos. Embora muitos pais não gostem de alguns  livros selecionados por muitas escolas, é importante que esses temas  sejam abordados, pois o mundo não é uma bolha de vidro e as crianças precisam conhecer o mundo em que vivem. Livros que aproximam a criança da arte, que falam dos grandes artistas, como Portinari, por exemplo, lançado em versões diferentes por algumas editoras. Livros que falam sobre a diversidade cultural, religiosa etc., são temas que contribuíram muito para o avanço da literatura infantojuvenil no Brasil.

Os livros O gol da vitória (Editora Saraiva) e O sonho de Beto (FTD) foram escritos a quatro mãos. Você poderia nos contar um pouco da história de sua parceria com Ruy Mendes Gonçalves (em memória)?

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NMB: São três livros em parceria: O sonho de Beto, Os dias felizes de Pagu e O gol da vitória. O Ruy tinha três temas que queria transformar em histórias com o personagem Gentileza. Esse personagem foi criado a partir de uma visita dele ao Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de conhecer José Datrino, um ex-empresário e então morador de rua, conhecido como Profeta Gentileza e responsável pela célebre frase Gentileza Gera Gentileza. Como homem de negócios e diretor superintendente da Saraiva, Ruy,  naquele momento, não se sentia com habilidade para escrever histórias infantis. Um dia me chamou em sua sala, me contou sua intenção e pediu que eu escrevesse as histórias a partir de três roteiros que ele iria redigir. E assim foi. Ele me passou um roteiro de cada vez e fizemos um vai-e-vém até a história ficar do jeito que achamos legal. Nos desenhos, feitos pela dupla Cris e Jean, o personagem Gentileza foi desenvolvido a partir de uma foto do Ruy, que dei aos ilustradores, embora o Ruy não soubesse. Isso serviu para tornar o personagem mais parecido com ele, pois ficou claro que o Gentileza da história era ele mesmo. Ele amou!

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Para encerrarmos esta mini-entrevista, duas curiosidades:

Agora que está numa fase de transição de carreira, você continuará a trabalhar com livros impressos ou com livros digitais?

NMB: Certamente com as duas mídias; a impressa e a digital ainda devem andar juntas por um bom tempo.

Conte-nos como foi a sua visita/experiência à gráfica parceira do grupo Saraiva nos EUA, sobre os novos processos digitais

NMBA viagem foi para conhecer o sistema de provas de cor digitais implantado no setor de pré-impressão da Donnelly, provas essas que já estavam vindo a substituir as tradicionais provas de prelo.

Segunda curiosidade

Como escritora, você pretende se dedicar mais à literatura, aos livros infantojuvenis?

NMB: No momento não penso em escrever, mas no futuro… quem sabe?

Nair de Medeiros Barbosa

Nair

Nascida em São Paulo, onde passou a infância, estudou e vive até hoje, Nair de Medeiros Barbosa sempre teve fascínio pela arte, o que a fez procurar a carreira de arquitetura. Mas, com o passar do tempo, o mundo das artes gráficas pareceu-lhe mais atraente, por isso, esse é o caminho que percorre desde 1977, após a graduação em Comunicação Visual (FAAP). Foi gerente do departamento de Artes da Editora Saraiva por 24 anos, responsável pela gestão da área de arte visual gráfica em empresas nacionais do segmento editorial. 
Tem larga experiência em desenvolvimento e produção gráfica visual de livros didáticos, jurídicos, universitários, interesse geral e literatura infantojuvenil, desde o planejamento e elaboração do projeto visual da obra, criação de capas, definição do conteúdo ilustrativo, até a diagramação. 
Amplo conhecimento do mercado de livros educacionais para escolas de Ensino Fundamental I, II e Ensino Médio. 
Atuação na estruturação de área, formação de equipes, estabelecimento de parceiras com fornecedores de serviços e terceirização de produção gráfica. 
Experiente na gestão de projetos de coleções didáticas em versões digitais. Exposição internacional.

Como escritora infantojuvenil, seu primeiro livro infantil foi produzido em 1985, quando, depois de desenhar uma história infantil sequenciada, sem palavras, sentiu que faltava algo. Olhando para os desenhos, começou a contar a história que eles mostravam. A partir daí, começou a escrever para crianças. Seus primeiros livros, Na praia e Na mata, pela editora FTD, foram selecionados para o Programa Salas de Leitura do MEC. Atualmente, tem treze livros publicados, sendo dois deles ilustrados por ela própria. Ilustrar era uma das atividades preferidas de Nair, que, porém, tornou-se difícil, uma vez que desenhar, assim como escrever, exige tempo, disciplina e dedicação constantes. Por outro lado, Nair declara ser surpreendente ver seus livros ilustrados por outros artistas, já que cada pessoa tem um jeito especial de sentir e interpretar as histórias.

Mais uma curiosidade:

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Gota Borralheira, que Nair publicou para a Unidade de Negócio de Tratamento de Esgotos da SABESP,
“O livro faz parte de um programa de Educação ambiental, cujo projeto, desenvolvido para crianças, tem como objetivo motivar a população a alterar seu comportamento e hábitos em relação ao uso da água.  O então diretor Geraldo Julião dos Santos criou a personagem, A Gota Borralheira. Tivemos algumas reuniões para que eu tomasse conhecimento dos detalhes  do tratamento de esgotos e de como poderia desenvolver a história. O texto é meu e os desenhos e desenvolvimento da personagem Cristalina, são do artista Sérgio Palmiro. O livro também gerou um desenho animado muito legal.”

Veja no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=qiEsqSOxNFA

Mais informações no Linkedin: br.linkedin.com/in/nairbarbosa/

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11 pensamentos sobre “Minientrevista com Nair de Medeiros Barbosa

  1. Gostei muito!
    A Nair foi uma das primeiras pessoas a abrir as portas para mim no universo dos livros. Foram muitas e muitas ilustrações, sempre sob a coordenação de sua sensível e competente batuta. Grande pessoa, grande profissional.
    Desejo-lhe um sucesso ainda maior nesta sua nova fase.

  2. Por e-mail, arigatô!

    Maravilha Tereza! Essa mini está rendendo muitos e-mails bacanas! Nem imaginava que as pessoas tinham todo esse reconhecimento.

    O Nelson, da Setup Bureau, não sei se conhece, e o Zeca ex-diretor da Atual, comentaram sobre você. Copio abaixo os e-mails deles:

    “Oi, Nair. Tudo bem sim, e com você?
    Que maravilha essa entrevista, isso foi melhor do que qualquer currículum, precisamos enviar isto para o mercado inteiro. Nos conhecemos e trabalhamos juntos há muitos anos, fiquei encantado com a entrevista e com a Tereza que além de profissionalismo demonstrou amizade e carinho pela pessoa e profissional que você sempre foi. Volto a reiterar o que já lhe disse, estou e estarei sempre a sua disposição para o que precisar, você sempre foi uma das poucas pessoas em que confio plenamente e sinto orgulho de ser um amigo.”
    Grande abraço.
    Nelson”

    “Oi, Nair, gostei muito da entrevista, obrigado por ter mandado. Como há pouca coisa na mídia focada no mundo editorial, acho que a Tereza Yamashita presta um grande serviço a todos os profissionais da área mantendo esse blog que me pareceu bem interessante, sobretudo quando abre espaço a pessoas experientes como você. Li rapidamente algumas outras entrevistas, inclusive a do meu amigo Jiro, que faz tempo que não vejo. Interessante, a gente conviveu por tantos anos e eu conhecia muito pouco desse seu interesse por literatura infantil (como autora), e dos livros que já publicou. Eu conhecia apenas aqueles que você fez com o Ruy e sabia que o texto era seu mesmo, pois o Ruy poderia ter dado a ideia ou o roteiro, mas ele não era de escrever. Quem sabe agora você se anima e retoma a vocação.
    Vamos mantendo contato. Vou gostar de ter notícias suas.
    Abração.
    Zeca”

  3. Via e-mail, rs.

    Nair! Belíssima homenagem a profissional que você é, e que tanto representa para o mercado editorial brasileiro.
    Você construiu um história de sucesso e conquistas na Saraiva, acompanhando a evolução do mercado, os novos processos, as novas tendências de grafismo e design. Tudo isso foi inserido em todas as publicações didáticas que a editora lançou ao longo desses anos, graças a sua sensibilidade e extrema competência.
    Fiquei com uma invejinha da Tereza, rsrsrs, pois queria ter feito primeiro no meu blog….rsrsrs.
    Tenho boa parte de um texto já escrito sobre ilustrações em livros didáticos, que quero incluir comentários seus, mas ainda não sei quando vou colocar no ar. Mas espero contar com seu depoimento.
    Parabéns mais uma vez a você e a Tereza.
    Abraços

    ALEXANDRE SILVA

  4. Nair é uma das pessoas mais extraordinárias que conheço. Além da competência profissional, foi uma parceira de primeira hora em desafios delicados que tive de superar. Sem questionar ou impor condições acionou seus contatos e me apresentou o problema completamente solucionado. Foi impressionante. Jamais vou me esquecer de sua solidariedade pronta e desinteressada. Hoje com toda experiência de ter publicado 21 livros em países de quase todos os continentes sei, com certeza, ninguém teria sido tão parceiro e solidário como ela foi. Obrigado, amiga.
    Reinaldo Polito

  5. Tive o prazer de trabalhar com Nair Medeiros desde que a Editora Atual foi comprada pela Saraiva. Eu já vinha da Atual com uma concepção muito diferente de linguagem visual e de projeto gráfico em livros didáticos. E, passando para a nova Casa, encontrei em Nair uma parceira aberta às inovações, sempre disposta a dialogar, em busca do melhor.
    Nunca recebi de Nair um não. Pelo contrário, ela sempre acolheu com muita tranquilidade as sugestões e críticas que fazia e, assim, pudemos crescer juntos, como tem de ser um trabalho em equipe.
    Também foi com o apoio incondicional da Nair que pudemos vencer a barreira do tempo, conseguindo aprovar 60 objetos digitais no PNLD 2013, sem uma única reprovação sequer.
    A você, Nair, o meu reconhecimento e meu MUITO OBRIGADO!
    William R. Cereja

  6. Eu também fui invadido por uma saudade ao ler esta reportagem. Quando conheci a Nair, ela estava trabalhando no projeto “A Gota Borralheira”, junto com Julião. Eram ambos meus alunos de Francês. Foi mesmo uma coincidência saber que meus dois alunos se conheciam. De lá pra cá, eu e Nair somos bons amigos. Das aulas na Marquês de São Vicente, aos “Banhos de sol” no clube do Palmeiras, sem falar nos Chops deliciosos e na companhia de nossa amiga Rosângela. Nair é uma excelente profissional e uma excelente amiga. Parabéns pela reportagem. feliz 2014. beijos mil, Luis Antonio

  7. Muito legal essa entrevista!
    A Nair sempre foi e é uma profissional competentíssima (dessas que você pode assinar embaixo de olhos fechados), além de pessoa admirável, delicada e responsável. Tive o enorme prazer de conhecê-la, não tanto como gostaria, mas o suficiente para não esquecê-la.
    Um grande abraço p/ vc, Nair!

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