Viva Vaia: o ciclo da vida 2

Viva Vaia

Tereza Yamashita


Nesse último mês eu enfrentei os dias mais frios da minha simples existência. Os pés, o corpo e a alma congelados. O frio extremo foi real, dez graus. O vento cortante e ácido vindo das entranhas da natureza, gritando e pedindo mudanças. Um pedido de socorro. Os jovens sentiram esse pedido antes, fizeram manifestações, reivindicando paz e justiça, muito mais do que os meros vinte centavos. Em toda a insensatez da juventude ainda resiste o sentimento de esperança, de que algo ainda possa ser feito e de que a vida ainda tem algum sentido.

Crescer não é fácil. Envelhecer é pura decadência, muitas perdas. Estou quase chegando aos cinquenta anos e acabo de perder minha mãe, foi no dia vinte e três de julho. O cordão umbilical foi cortado pela segunda vez. Separadas novamente, agora para sempre, sem volta. O que permanece é apenas a lembrança de que um dia fomos unidas. Há oito meses também perdi meu pai. Será o primeiro Dia dos Pais sem a sua presença, é muito estranho. Na época escrevi uma pequena homenagem, publiquei aqui em o Ciclo da Vida 1.

E em menos de um mês perderei minha filha para o mundo. Ela fará o seu primeiro voo solo, para a liberdade que todos os jovens almejam: morar fora e começar uma vida universitária plena. Enfim, começará uma nova vida, caminhando entre flores e espinhos. Caminhos que todos nós, quando jovens, um dia já percorremos. É o início da crise do ninho vazio, rs.

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O ciclo da vida não pára, nem com o frio mais congelante. Ele é implacável, o tempo não descansa, não tira férias, apenas caminha suavemente.

Ah, agora eu me lembrei de uma frase que li num livro: nós realmente sentimos a presença da morte, quando ela surge para a nossa mãe. Agora essa frase faz muito sentido. O fim chega, o cordão umbilical imaginário que ainda existia entre mãe e filha é rompido com uma lâmina fina e extremamente afiada. Você até consegue ouvir o som agudo dos estilhaços. Não tem retorno, é simplesmente o fim.

Não dá para negar, você está realmente sozinha, não é apenas uma sensação. Você com você mesma, entre paredes transparentes. O som é inexistente, apenas o ruído oco do passado que bate e volta em sua mente. Sem respostas.

Tento escrever umas linhas, mal traçadas linhas que ninguém lerá. O pior eu sei, o texto passará incógnito, assim como tantos outros textos publicados na internet, em blogues ou em redes sociais. Fico imaginando onde irão parar todos esses textos… Tantas palavras digitadas, sem dúvida, irão parar no limbo da internet, no ciberespaço.

Tudo muda: todo mundo, o mundo todo.

Nenhum ser humano quer sentir dor, nenhum tipo de dor: a física ou a psicológica. Como recentemente disseram: a primeira vaia a gente nunca esquece.

Nesses meus quase cinquenta anos, eu sinto que a vida está me vaiando, uma enorme vaia em uníssono. Mas, apesar de toda essa vaia, ainda sinto que preciso dizer algo.

Quero agradecer à minha mãe, pessoa simples que foi. Semi-analfabeta, mal completou o quarto  ano do primário, hoje o ensino fundamental. Quase não falava o português corretamente, misturando o japonês com a fala provinciana da fazenda, do interior onde nasceu. Mulher trabalhadeira e rústica, com apenas um metro e meio de altura.

Sim, eu a admirava, apesar das nossas diferenças e de todos os conflitos existentes entre mãe e filha. Mãe, eu te amo, e sentirei muitas saudades. Entre vaias e aplausos, eu dedico o meu aplauso a você, onde estiver.

Obrigada, e espero que você esteja num lindo jardim florido, com suas rosas prediletas.

Aqui, sem opção, eu devo continuar a contracenar com a  vida, entre aplausos e vaias.

Viva Vaia.

familia-de-rosas-vermelhas

 

Recebi da amiga Tamara Castro.  Arigatô.

Hilda Hilst, em Da morte – odes mínimas:

Levarás contigo
Meus olhos tão velhos
Ah, deixa-os comigo
De que te servirão?

Levarás contigo
Minha boca e ouvidos?
Ah, deixa-os comigo
Degustei, ouvi
Tudo o que conheces
Coisas tão antigas.

Levarás contigo
Meu exato nariz?
Ah, deixa-o comigo
Aspirou, torceu-se
Insignificante, mas meu.

E minha voz e cantiga?
Meu verso, meu dom
De poesia, sortilégio, vida?

Ah, leva-os contigo.
Por mim.

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4 pensamentos sobre “Viva Vaia: o ciclo da vida 2

  1. Teresa querida, me solidarizo com sua dor. Minha mãe se foi há 15 anos e até hoje eu me lembro o que disse nos momentos mais dolorosos: parece que enfiaram uma faca amolada e pontuda na minha barriga: cortaram o cordão umbilical definitivamente. Custou a passar, mas passou; a dor, não a falta, a saudade. Há alguns anos se foram as duas tias, irmãs da minha mãe, que ajudaram a nos criar. Cuidamos dela e, quando se foram, o sentimento foi parecido, embora menos profundo.
    Hoje posso dizer que sou uma outra pessoa: mais sábia, simplesmente porque aprendi a ser feliz com a natureza que tenho à minha volta, meus livros e amigos.
    Com muito carinho,
    Cristina

  2. Senti sua falta, querida Tereza… que tempo gelado passamos…
    Falta das suas palavras, da sua força excepcional através de sua arte e vida, muita disposição de superação. Mas estes dias vc passou muita solidão… perdoe-nos por não procurá-la, vc q merece tanto respeito e carinho.
    É um momento para vc assimilar, não sei como me sentiria de fato, pois penso q estou tentando me preparar para esse momento desde criança. Não fomos feitos para isto. Ouvi certa vez o termo “Ko-wakare”, então tento assimilar.
    Entristeço-me por vc, e desejo q fique bem, Tê…
    Agora, apenas um apertado abraço…
    E palmas a mamãe, palmas ao papai, palmas a Erika e ao Nelson… mas especialmente a vc q ama muito!
    Beijinhos…

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