Minientrevista com o arte-educador Joba Tridente.

[ Minientrevista com o artista, poeta e arte-educador Joba Tridente, direto de Curitiba ]

Quem não se lembra e não tem saudades do famoso Nicolau? O nome do jornal, Nicolau, homenageava as várias correntes imigratórias que contribuíram significativamente para a formação da cultura paranaense (Um Periódico Cultural Em Busca De Poesia -

 Maria Lúcia Vieira, mestre em Literatura Brasileira / Professora da UTP). Essa publicação cultural atingiu uma tiragem bastante elevada, cerca de 150 mil exemplares mensais. Sob o patrocínio do Governodo do Estado do Paraná, com o aval do então secretário de cultura, René Dotti, a ideia da criação do  periódico foi do jornalista Aramis Millarch, na década de 90.

Eu tenho saudades do Nicolau. Fiz algumas ilustrações para essa multifacetada e saudosa publicação. Nos anos 90 eu ainda trabalhava com papel, pena e nanquim. Conheci o Joba Tridente naquela época, ele era o editor gráfico do jornal. Bons tempos! Mas, enfim, agora temos o Rascunho, com o qual também contribuo com ilustrações digitais, novas mídias e novos materiais de desenho.

Foto: Teodoro Adorno

Neste começo do século 21, Joba e eu entramos em contato novamente, e aqui estou, divulgando um pouco do seu maravilhoso trabalho pedagógico (confira no Achados & Perdidos um post antigo, sobre uma oficina que ele ministrou em Sampa), sobre o qual ele diz: “Eu ensino, na realidade, as pessoas a redirecionarem o olhar”. Legal, não?

Um dia irei a Curitiba fazer uma de suas oficinas, e também encontrar a Jane (minientrevista) e a Marília, nossas amigas do Paraná.

Ah, o Joba já veio a Sampa duas vezes. Na primeira eu ainda morava num apertamento de dois dormitórios, na rua da Consolação, com o Nelson. A nossa Érica era uma bebê ainda, tinha acabado de nascer (1994), rs.

Em 2012, o Joba e eu participamos do Mail Art – The Books / Arte Postal – Os livros, na Galeria Gravura Brasileira. Essa exposição foi organizada pela artista plástica Constança Lucas (confira aqui a minientrevista que fiz com a artista).

Valeu, Joba, por ter apoiado e publicado as minhas primeiras ilustrações. Arigatô! Agora saibam mais sobre o companheiro de letrinhas e artes na mini-entrevista baixo:

Foi através do Rogério Dias, artista plástico, que você conheceu o Wilson Bueno, editor do Jornal Nicolau (1987-1995). Ele o convidou para fazer o projeto gráfico do jornal, pois você também é um artista gráfico, correto? Você ficou cinco anos como editor gráfico (1990-1995) dessa publicação, sendo assim, você poderia nos contar um pouco sobre essa experiência?

JT: Quando sai de Brasília, em 1990, não pensava em morar no Paraná. A minha ideia era sumir no Pantanal. A referência que tinha de Curitiba era a belíssima revista Gráfica, do Miran, e o provocativo jornal Nicolau, que conheci quando trabalhava no CNDA – Conselho Nacional de Direito Autoral, em Brasília. Estava apenas de passagem por Curitiba e, ao visitar a redação do Nicolau, o Wilson Bueno me convidou para fazer ao menos uma edição do Nicolau, já que o seu artista gráfico estava se desligando do projeto. Fiquei por cinco anos.

Quem via e elogiava o Nicolau pronto, nem imaginava as dificuldades de verba (salário) e a carência de material gráfico. Era um trabalho totalmente artesanal: diagramação, past-up sobre diagrama, fotocomposição, fotolito, catálogos letraset e mecanorma, faquinha (estilete) para fazer emendas (texto revisado) etc… Na verdade eu fazia toda a diagramação “no escuro”. O pessoal da fotocomposição (da Imprensa Oficial) não tinha como compor textos com as especificações técnicas. Assim, eu lia as matérias, imaginava o espaço (com título e ilustração), calculava o corpo, linhas etc…, e mandava ver. Quando chegava o rolo de texto fotocopiado é que via se tinha dado certo. Com o tempo acabei padronizando (sempre que possível) para facilitar para os dois lados!

Sempre usei o meu próprio material: caneta nanquim, catálogos de fontes. Acredito que, até meados da década de 1990, foi a melhor época para a formação prática de um programador visual em qualquer veículo de comunicação. Pensava-se para fora. Hoje, com o computador e seus programas prontos (tapa buraco) “pensa-se” para dentro. O artista gráfico, de ontem, continua artista gráfico, um comunicador visual. O que veio depois virou designer, uma categoria (?) profissional que agrega de tudo: desenhista industrial, ilustrador, cabeleireiro, maquiador, manicure, decorador, educador físico etc.

De volta ao Nicolau, a gente precisava de toda criatividade para compor títulos, logos, contando apenas com uma máquina Xerox. É como se diz, a necessidade é a mãe (e pai) da inventividade! Era divertido reinventar o título do Nicolau a cada edição: cortava, rasgava, queimava etc. Fui eu quem instituiu a boneca do jornal. Até então o Bueno e equipe só via o jornal no diagrama e pronto. Com a boneca era possível saber como ficaria o jornal e mudar alguma coisa antes de ir para a Imprensa Oficial (que o imprimia no sufoco), onde eu madrugava.

Quando Wilson Bueno esteve visitando a Columbia University, em Nova York, para fazer palestra sobre o Nicolau, que passou a integrar o projeto cultural daquela instituição norte-americana, um professor de artes gráficas lhe perguntou qual programa (software) eu usava para criar efeitos e fontes. Ele sequer imaginava que por aqui se vivia no pré-pc. Enfim, cinco anos de Nicolau e de puro trabalho artesanal.

Depois que a equipe do NICOLAU (Wilson Bueno, Fernando Karl, Ângelo Zorek, Joba Tridente) se desfez, você seguiu outro caminho, virando Oficineiro Cultural, há 17 anos. O título de seu blog é Lixo que vira arte, pois você só utiliza materiais recicláveis, principalmente embalagens de pizza, de ovo e caixinhas de fósforo. Em suas criações você acaba inserindo as palavras impressas nessas embalagens. Como surgiu a ideia, e qual é a principal proposta dessas oficinas?

JT: Quando acabaram com o Nicolau, a convite da Fundação Cultural de Curitiba criei a Oficina Assim Nasce um Jornal (1995), que ensinava todo o processo da criação de um veículo de comunicação. Na sequência, criei, a convite do Sesc, a Oficina Hai-Kai Sem Compromisso, trabalhando com crianças.

Uma oficina (gráfica e ou literária) foi puxando outras e na diversificação, participei do Projeto Comboio Cultural (2001/2002) com InterAtividade (uma miscelânea de três Oficinas: Poética Postal, Arte Postal, Poesia Aleatória – Reciclando a Palavra) que durante um ano rodou todo o Estado do Paraná e se apresentou em São Paulo (Ibirapuera) e Rio de Janeiro (Aterro do Flamengo). Em Poética Postal trabalho a poesia visual; em Arte Postal trabalho a colagem e a interferência; na Poesia Aleatória trabalho a reutilização da palavra deitada fora em publicações.

No Comboio Cultural (que acontecia em praças públicas) já trabalhava com a reciclagem de papel (atividade e apresentação) e logo após o projeto comecei a criar bonecos articulados (para Contar Histórias) utilizando, primeiramente, embalagens de papel e depois plásticas. Gosto mesmo é do papel. Ultimamente reutilizo embalagens de pizza no Projeto 1001 Reutilizações de Embalagem de Pizza e ingresso plástico estampado no Projeto A Arte Anda.

Como digo na sinopse das oficinas: Hoje em dia fala-se muito de reciclagem, principalmente do reaproveitamento de diversas embalagens. No entanto, muita gente ainda não se deu conta da importância de Reduzir, Reutilizar e Reciclar as sobras do que consome. O lixo, para uns, não passa daquilo que está restando, sobrando em casa, e tem de ser deitado fora. O lixo, para outros, é aquilo que é deitado fora, mas que ainda pode ser reutilizado e reciclado. Ou seja, o material que a maioria joga fora pode ser lixo ou tornar-se arte. Depende de quem o joga e de quem descobre um uso para ele.

A ideia é tornar útil o que parece inútil (embalagens e sobras de papel, caixas de fósforos, prendedores de roupa, imãs de geladeira, tubos de papel-toalha e de papel higiênico, cd) em agradáveis e divertidos bonecos muito animados (que podem ser usados em sala de aula ou teatro, como ilustrações ou intérpretes de histórias) e ou, ainda em brinquedos brincáveis.

Ao aprender Reciclar Palavras o oficinando cria uma poesia casual, descontraída e até mesmo distraída, através de um dinâmico e divertido exercício que busca dar um novo sentido a palavras aleatórias em textos aleatórios. Um exercício que o fará pensar no significado da palavra que tem em mãos ao construir um verso e descobrir que algumas são poéticas e outras esperam a vez de se tornarem poéticas.

Você utiliza em suas contações de história as suas criações (bonecos, animais, máscaras, brinquedos e jogos) para encantar as crianças? Suas criações e histórias estão mais voltadas para o mundo do ?

JT: A minha Contação de Histórias é um espetáculo híbrido. Conforme a história utilizo objetos e ou bonecos animados.

Eu conto histórias que ouvi (e ouço) contar e que li (e leio) em livros e gibis (físicos e virtuais). Histórias das minhas memórias. Histórias que continuam as mesmas, como chegaram a mim, cheias de remendos. Gosto de histórias com remendos, estranhas, que foram se moldando ou se adaptando em centenas de bocas outras.

São histórias brasileiras e histórias universais, de autoria conhecida e ou desconhecida. Apresento um pouco da palavra de cada povo, traduzida em contos, lendas, fábulas, causos, folclore, para que ele possa encontrar, na linguagem de cada um, o mesmo encanto que encontrei quando a ouvi ou a li a primeira vez.

Você se considera um livre pensador, um contador de histórias e um artesão de palavras e imagens. Trabalhando com a palavra do olhar e com o olhar da palavra para falar de cinema, literatura, artes e cultura popular, correto? E sendo um artista da imagem e da palavra, você pretende narrar as suas experiências sobre esse olhar mágico e maravilho em um livro direcionado para as crianças?

JT: Logo após o Comboio Cultural comecei a escrever sobre a minha experiência no projeto e a de Oficineiro, acrescentando entrevistas e depoimentos de artistas de estrada. Tive problemas com o computador, não salvei, e perdi tudo. Anos depois retomei o projeto que chamei de Observações de um Oficineiro Cultural, que está cochilando. Às vezes relato passagens inesquecíveis das minhas vivências na estrada em matérias e ou conversas por aí. Tenho um poético roteiro de cinema pronto, sobre um garoto de periferia que aprende a fazer bonecos e a contar histórias (é bem lúdico!), e estou desenvolvendo outro sobre os fazedores itinerantes de arte (road movie!). Escrevi algumas histórias que podem interessar ao público infantojuvenil e penso em recursos gráficos alucinantes, caso venham a ser publicadas. No momento a minha vivência do olhar é partilhada em Oficinas, Contação de Histórias, onde explico como (e porque) foram criados bonecos e ou adaptados objetos e ou no blog Lixo Que Vira Arte.

Sei que você ama a poesia, principalmente os haicais, pela sua beleza e síntese. Você, em suas oficinas, também ensina às crianças o fazer poético? A brincadeira com as palavras?

JT: Sim! A minha primeira Oficina Literária, Hai-Kai Sem Compromisso, foi criada para trabalhar, primeiramente, com crianças. Assim como a Poesia Aleatória, que cheguei a orientar em um Lar de Crianças, em Londrina, e que contou com alguns participantes analfabetos. As oficinas literárias resultam em livros impressos e PDF. A de Londrina ganhou uma bela exposição com Poesia em Portas de Geladeira.

E para terminar esta mini, o que você diria para os pais e para as crianças sobre arte e literatura?

JT: O importante é aprender a olhar além e aquém da arte. Pois o ponto que se avista nem sempre é o que importa na sua leitura. Só se apreende a arte quando se brinca e não quando se briga com ela. Gosto não depende de convenção, mas de compreensão.

Confira uma entrevista muito interessante com o Joba Tridente para a rádio Uel de Londrina.

http://www.uel.br/uelfm/audios/13283-Joba_Tridente_04-05.mp3

Site: http://lixoquevirarte.blogspot.com.br/

No twiter: https://twitter.com/JobaTridente

No facebook: http://www.facebook.com/joba.tridente

Artesão da palavra: http://falasaoacaso.blogspot.com.br

Sobre cinemahttp://claqueouclaquete.blogspot.com.br/  e  http://www.gazetamaringa.com.br/online/conteudo.phtml?id=1227401

Joba Tridente: artista gráfico, artista plástico e escritor. Oficineiro cultural desde 1995. Bonequeiro e contador de histórias desde 2000. Trabalhou na Abril Cultural-SP, Ministério da Cultura-DF e SEEC-PR. Expôs em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. Publicou prosa e verso pela Civilização Brasileira e Kátharsis.

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4 pensamentos sobre “Minientrevista com o arte-educador Joba Tridente.

  1. Joba é um grande artista, um ser humano especial. Parabéns Tereza Yamashita, por ter sabido captar a essência do artista.

    • Por e-mail: Oi, Jane. Obrigada!

      Olá Joba!
      Adorei a entrevista!!!
      Você proporciona um turbilhão de ideias e conceitos, tudo isso ainda em movimento, como um bom roadmovie !!!
      Minha filha quer cursar Design, na UTFPR, vou mostrar a sua definição da profissão para ela.
      Parabéns para você e para a Tereza!
      Saudades do Nicolau.
      Um beijão!
      Jane

  2. Conhecemos Joba em Brasília-DF na década de 1980 aonde atuava no jornalismo e no movimento cultural. Publicava matérias, crônicas e cartuns no veículo que editamos há quase 30 anos na Capital da República. Quando deixou Brasília deixou também uma lacuna no setor cultural. Parabens Joba pelo sucesso alcançado graças a sua espiritualidade, criatividade e de ecodefesa.
    Vicente Vecci

    • Olá, Vicente.
      …, que surpresa boa encontrá-lo por aqui.
      …, fiquei é curioso para saber como chegou até aqui!
      …, gratíssimo pela consideração e pela lembrança dos bons tempos candangos!
      …, grande abraço, meu irmão!

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