Mini-entrevista: Adilson Miguel

[Segunda mini-entrevista com editores ]

O querido Adilson Miguel eu não conheço pessoalmente, apenas por foto, pelo facebook, por e-mails e principalmente pelo seu excelente trabalho como editor. Tempos modernos, rs. O primeiro contato que tive com o Adilson foi na época da publicação do romance do Luiz Bras, Babel Hotel, Editora Scipione – Abril Educação, que ele tão bem editou. O livro foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2010, muito legal! Confira o booktrailer aqui. E de lá pra cá trocamos vários e-mails, pois agora ele editou o nosso novo infantojuvenil, juntamente com a Gislene: Ganhei uma menina! Ah, as lindas ilustrações são da espanhola Laura Pérez!

Aqui, deixamos o nosso agradecimento. Ficamos muito felizes com os livros. Arigatô!

E agora curtam a mini-entrevista com o editor, tradutor e organizador de antologias Adilson Miguel, direto de São Paulo!

Foto do arquivo pessoal 

Você fez a faculdade de Filosofia na USP, correto? O que o levou a ser editor, inclusive de livros infantojuvenis, de uma das maiores editoras do Brasil, a Editora Scipione – Abril Educação? E como foi essa experiência?

AM: Os livros sempre me fascinaram. Assim como a filosofia e a literatura.

Na verdade, meu primeiro contato com a filosofia ocorreu ao final do Ensino Médio (então 2º grau). O país ainda vivia sob a ditadura, e a política passou a me interessar com mais força. Nessa época, chegaram às minhas mãos alguns textos de Marx, e eu comecei a me dar conta de como era importante aprofundar as reflexões. Em seguida descobri Nietzsche, Sartre, Walter Benjamin e outros autores. Logo veio o desejo de um mergulho filosófico mais profundo, e foi então que eu prestei vestibular para filosofia.

Ainda na graduação, me aproximei da psicanálise e fiquei fortemente atraído – cheguei até a pensar em me tornar psicanalista! Fiz análise, participei de grupos de estudo de Freud… Mas foi quando passei a estudar os textos freudianos com o instrumental da filosofia (depois da graduação, fiz um curso de especialização na Unicamp, com foco em epistemologia da psicanálise) que me dei conta de que o pai da psicanálise me interessava mais enquanto pensador e escritor do que como cientista.

Sigmund Freud, por Max Halberstadt, em 1922

Depois disso, resolvi investir numa paixão antiga, a fotografia, e fiz um ótimo curso no Senac – naquele tempo ainda não existiam as câmaras digitais. Como era um curso relativamente extenso, pude aproveitar os bons laboratórios que eram oferecidos e aprender coisas que hoje estão fora de moda (revelação, ampliação, etc.), mas que foram fundamentais para compreender melhor o processo fotográfico. Não satisfeito apenas com a prática, resolvi fazer algumas disciplinas na ECA, que me ajudaram a conhecer um pouco mais da história da fotografia e a aprofundar a reflexão sobre essa arte. Hoje, infelizmente, fotografo muito pouco, mas a paixão resiste, firme e forte.

A decisão de me tornar editor veio mais tarde, depois de ter tido muito contato com os livros – de filosofia, literatura, psicanálise, fotografia e de outras áreas das ciências humanas. Fiz trabalhos para várias editoras até que meu interesse e as circunstâncias acabaram me encaminhando para a edição de livros de literatura, onde encontrei meu lugar. Tenho um gosto especial em trabalhar com obras de literatura infantil e juvenil, com todas as especificidades que elas têm, mas acredito que a essência do trabalho editorial seja a mesma para todos os livros.

Minha experiência na Scipione foi muito gratificante. Tive a oportunidade de realizar um trabalho de redefinição da linha editorial de literatura, que, ao final, além de contribuir para melhorar a imagem da editora, acabou rendendo belos frutos e uma série de prêmios. Hoje todos que acompanham a trajetória da Scipione reconhecem a mudança.

Como foi a sua infância/adolescência e como a leitura e outras expressões culturais passaram a fazer parte da sua vida?

AM: Tive uma infância em São Paulo bem diversa da que as crianças de hoje têm nesta mesma cidade. Cresci no Tatuapé (Zona Leste), um bairro completamente diferente do que é hoje. Muitas ruas não eram asfaltadas, e nós, as crianças, que não éramos poucas, podíamos brincar e correr livremente.

Sempre gostei de ler, embora não tivesse muito acesso a livros quando pequeno. Lia as coisas que caíam na minha mão: gibis, revistas, fascículos de enciclopédias… até fotonovelas! Eu gostava mesmo era das histórias, de todos os tipos. Por isso, provavelmente, o cinema foi uma das primeiras expressões culturais pela qual ainda bem cedo desenvolvi um real interesse.

À medida que meus estudos avançavam, a literatura se tornava mais presente e meu gosto pela leitura foi se desenvolvendo. Ao contrário de alguns colegas de escola, sempre tinha grande satisfação quando os professores indicavam livros para a turma ler. Eu mergulhava fundo nas narrativas, só largava o volume quando acabava. Era comum – e ainda é – eu ficar triste ao final de um belo romance simplesmente pelo fato de aquela leitura chegar ao final. Isso sem falar dos sentimentos que as histórias suscitavam. Nunca me esqueço, por exemplo, da forte emoção que me causou a leitura de Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, quando eu tinha doze ou treze anos, ou da indignação que sentia ao ler os romances brasileiros que retratavam as injustiças e crueldades da escravidão.

Escultura de Os meninos da Rua Paulo em Budapeste, de Szanyi Péter

Depois da adolescência, quando a decisão sobre o que ler passou a depender basicamente da minha vontade, só fiz confirmar minha ligação com os livros e a literatura.

Qual a sua opinião, como editor, leitor-crítico e tradutor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?

AM: Acho que a literatura infantil e juvenil contemporânea vive um bom momento. Os livros estão mais sofisticados e interessantes, não só pelos textos, mas também no tocante às ilustrações e aos projetos gráficos. Sempre que entro numa livraria, observo o grande número de novidades e a qualidade editorial dessas publicações – embora também se vejam muitos lançamentos com perfil estritamente comercial, que a rigor não poderiam ser classificados como literatura.

Em minha opinião, um dos responsáveis pela melhoria dos livros de literatura para crianças e jovens, no Brasil, tem sido o governo, com os programas de compra de livros para as escolas (PNBE). Como nesses programas as avaliações costumam ser rigorosas, as editoras naturalmente acabam investindo em qualidade para atender essa demanda. Mas creio que também o mercado em geral está mais exigente. Hoje, quem quer saber de livro infantil que não seja bonito ou não tenha algum valor literário?

Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

AM: Acredito que esse tipo de preconceito ainda existe, embora as coisas tenham melhorado nos últimos anos.

O principal problema – como em geral ocorre com qualquer preconceito – está nos rótulos e nas classificações, que são redutores e enganosos.

Quando vejo a expressão “literatura infantil”, para mim, o que conta, antes de tudo, é o substantivo “literatura”; “infantil” é um mero adjetivo. O que quero dizer é que a literatura de verdade tem um valor que independe da faixa etária do leitor. É claro, isso não significa que qualquer obra seja adequada para uma criança. Mas quem disse que um bom livro infantil não agrada também a um adulto? Temos vários casos na história da literatura universal de obras que não foram escritas originalmente para os jovens e hoje são considerados clássicos da literatura juvenil.

Um bom exemplo da distorção que os rótulos causam é ver livros como Memórias póstumas de Brás Cubas ou Triste fim de Policarpo Quaresma classificados como “literatura juvenil” em sites e catálogos de algumas editoras, sobretudo as escolares. Parece piada.

Em suma, o importante é que a chamada literatura infantojuvenil vem reencontrando cada vez mais sua dignidade, inclusive despertando interesse crescente nos cursos de graduação e de pós-gradução em Letras.

Você faz traduções de livros, do francês. Como você se iniciou nessa área? Curiosidade: você também pretende escrever um livro algum dia?

AM: Fiz algumas traduções de livros infantis e, num passado mais remoto, de filmes e documentários para tevê. Porém, meu envolvimento nessa área sempre foi pontual.

Adoro estudar línguas. Aprendi francês, a princípio, por causa da filosofia (naquela época, e acho que ainda hoje, era impossível fazer uma graduação em filosofia sem ler francês). Nunca pretendi ser tradutor. Sou muito ansioso, e a tradução é uma atividade complexa, que requer paciência.

Mas tenho profunda admiração pelos bons tradutores, pois acho esse trabalho fundamental.

Neste momento, não tenho nenhum projeto de escrever um livro. Mas nada impede que eu venha a pensar a respeito no futuro.

E, para terminar: depois de editar centenas de livros, que conselho você daria aos novos autores?

AM: Tenho dois conselhos básicos para quem quer escrever.

O primeiro é ler, ler muito. Investir na própria formação é fundamental. Por isso é preciso ler muita literatura, ler livros sobre literatura, ler os clássicos, autores contemporâneos… enfim, bons livros de todas áreas. Observar os mestres com atenção é uma das melhores maneiras de incorporar os bons procedimentos literários. Além disso, o conhecimento ajuda a desenvolver o senso crítico, que é fundamental para um escritor.

O segundo conselho é não ter pressa em publicar. Como editor, vejo o tempo todo autores ansiosos querendo ver seus textos publicados. O problema é que na grande maioria dos casos esses textos ainda não estão apurados. É preciso ter paciência, pois um livro às vezes precisa passar por um longo processo de escrita e reescrita até chegar a um resultado de fato satisfatório. Não me parece que valha a pena publicar algo que não tenha relevância.

Adilson Miguel nasceu na cidade de São Paulo. Graduou-se em Filosofia pela USP e fez especialização em Epistemologia da Pscicanálise, na Unicamp. Trabalha na área editorial há mais de dez anos. Entrou na Abril Educação em 2006. Ocupou os postos de editor de literatura e gerente editorial da Scipione, onde levou a cabo uma importante renovação no catálogo e na linha da editora. Deixou a Abril neste ano e agora atua como editor independente, coordenando projetos editoriais e prestando serviços no mercado editorial. Organizou, entre outras, as coletâneas Traçados diversos: uma antologia de poesia contemporânea, Grafias urbanas: antologia de contos contemporâneos e Histórias de carnaval, todas publicadas pela Scipione.

ANTOLOGIAS:

Coleção Escrita Contemporânea: Grafias urbanas: antologia de contos contemporâneos e Traçados diversos: uma antologia de poesia contemporânea

Coleção O prazer da Prosa: Histórias de carnavalHistórias femininasHistórias de imigrantes Histórias de futebol

Em Histórias de Imigrantes e Histórias femininas há a participação do Luiz Bras, e também da Índigo, da Maria José Silveira e da  Andréa del FuegoConfiram as mini-entrevistas aqui no Abraços!

TRADUÇÕES:

Coleção 4 Cantos: Sempre perto e O balão de Zebelim

Coleção Cara ou Coroa? Filosofia para crianças: Normal e anormalLiberdade e ResponsabilidadeEssência e Aparência e Violência e Não-Violência

No facebook: http://www.facebook.com/adilson.miguel2

No twiter: https://twitter.com/#!/adilsonmiguel

No linkedin: http://www.linkedin.com/pub/adilson-miguel/26/377/236

Obs: O Adilson me corrigiu, rs. SIIIM, nos conhecemos pessoalmente no ano passado, na entrega do Prêmio São Paulo de Literatura. No dia, o Nelson e eu estávamos atordoados com o bochicho, a algazarra, os escritores, fotógrafos, jornalistas e editores, kkkkkk. Valeu!

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3 pensamentos sobre “Mini-entrevista: Adilson Miguel

  1. Reblogged this on Blog de Maria José Silveirae comentado:
    É raro ter a oportunidade de conhecer masi a fundo a formação de um editor – o personagem cujas escolhas tornam ou não uma editora realmente importante.
    Por isso hoje envio vocês ao blog da querida Thereza Yamashita e à bela entrevista que ela fez com Adílson Miguel, editor que renovou a literatura juvenil na Scipione/Abril.

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