Mini-entrevista: Jane Sprenger Bodnar

[Quinta mini-entrevista, agora com a poeta e oficineira Jane Sprenger Bodnar, direto de Curitiba]

A Jane, eu a conheço há muito tempo, desde a época das Escritoras Suicidas, somos ex-suicidas, rs. Nos encontramos várias vezes em Sampa e em Curitiba. Temos muitos assuntos em comum, duas meninas lindas, a Luísa e a Érica, mães corujas, kkkk. Adoramos gatos e literatura infantojuvenil. A Jane também é formada em comunicação visual,  já publicou no saudoso jornal Nicolau, na Germina e no Cronopinhos com: E agora, para quem irão as drosófilas? Atualmente ministra oficinas no Instituto de Educação do Paraná e pela Fundação Cultural de Curitiba. Ela sempre me envia artigos, matérias muito legais por e-mail (alguns eu incluí em posts, confiram aqui), também é divulgadora dos nossos livros infantosjuvenis e do nosso trabalho. Arigatô.

Agora curtam a mini-entrevista! Eu amei.

O que levou você a se dedicar às crianças/adolescentes e aos livros infantojuvenis?

JS: Nos anos 90 participei de um grupo de oficinas poéticas denominado Baú de Signos, voltado para o público adulto, que surgiu espontaneamente e, depois de alguns anos de atividade, evanesceu. Em paralelo, sempre gostei de livros infantojuvenis, com os quais presenteava sobrinho, filha, afilhado, mas na medida em que eles cresceram, a solução foi buscar outros pequenos e jovens leitores para continuar a dividir este maravilhamento que a literatura pode proporcionar, possibilitando ver o mundo de uma forma diferente. E eu estou sempre aprendendo com estes meninos!

Muitas vezes, quando minha filha era pequenininha, na hora de dormir, depois das leituras preferidas, pedia que eu contasse histórias verdadeiras, ou seja, nossas próprias vivências, as quais eram igualmente fascinantes para ela. Neste momento, eu acabava deixando para lá o meu papel de “mãe, disciplinadora, etc., etc, etc…” que não me cabe muito bem, deitava ao seu lado e ficávamos rindo destas histórias, madrugada adentro…

Na infância, quais os autores de que você mais gostava e quais os que mais a influenciaram?

JS: Sempre fui tímida e a biblioteca da escola era o meu refúgio, especialmente na hora do recreio. Na minha infância eu lia contos de fadas, além de gibis. Tenho até hoje alguns dos 25 volumes de uma coleção chamada Joias dos Contos de Fadas presente de Natal da minha mãe para mim e meu irmão. No final de cada história, um castelo, uma torre ou uma casa de doces para recortar e montar. Era o máximo! Era o máximo que um livro infantil oferecia, além da leitura, ao contrário da profusão de pop-ups e interatividades das publicações de hoje. Eu era fã da revista Recreio, em sua primeira versão, cujo slogan era algo como leia, pinte, recorte e brinque. Não lembro dos autores, mas os desenhos que eu mais gostava eram de um ilustrador chamado Igayara. Para as crianças mais novas havia a revista Miau, com uma proposta gráfica muito interessante.  Sempre tinha por perto, papel em branco, lápis de cor e algumas canetinhas Sylvapen.

Tenho a lembrança da minha avó declamando Meus Oito Anos (Casimiro de Abreu), do meu avô narrando surpreendentemente suas próprias histórias, da minha mãe e tia profetizando que se os meninos da família não tomassem banho e cortassem as unhas se transformariam no João Felpudo. Porém, a primeira autora que me arrebatou foi Cecília Meireles. Com a leitura de Ou isso ou Aquilo me identifiquei com o seu universo poético: poucas linhas no vazio da página, evocando imagens e sentimentos.

Qual a sua opinião, como poeta e oficineira, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?

JS: Há uma quantidade imensa de livros infantojuvenis lançados mensalmente. Até para os adolescentes, um grupo antes um tanto negligenciado, agora são apresentados muitos títulos, geralmente, trilogias, coleções. É praticamente impossível acompanhar tantas novidades. Publicar hoje tornou-se mais acessível, sem contar os recursos gráficos cada vez mais sofisticados. Mas tudo isso não tornará um livro melhor.

Ao escolher um livro para uma oficina, levo em conta as qualidades do texto e não apenas a faixa etária dos alunos. Gosto de apresentar para eles, sempre no início dos trabalhos, o Manual do Livro Infantil Imbecilizante, um artigo da revista de literatura Língua, escrito por Carolina Costa, onde são apontados alguns dos pecados capitais de uma obra feita para crianças, entre eles: o uso de diminutivinhos, rimas miseráveis e diagramação histérica. Os alunos se divertem bastante e acabam refletindo sobre a qualidade do que é produzido para eles.

Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas consideram a literatura adulta superior?

JS: Acredito que este preconceito ainda existe, mas não para o mercado editorial e seu ritmo frenético. Muitos artistas, compositores estão se voltando também para os mais novos, entre eles, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhoto, que recentemente ilustrou um livro infantil escrito pelo artista plástico Vik Muniz. Escrever para este público é uma responsabilidade muito grande. Por isso gosto muito da história da origem deste livro que tanto me assombrou na infância e foi recentemente editado pela Iluminuras, João Felpudo, ou histórias divertidas com desenhos cômicos do Dr. Heinrich Hoffmann: este psicanalista, que atendia crianças, queria presentear o filho pequeno com um livro, não aprovou nada do que existia na época e voltou para casa com um bloco de papel em branco, para ele mesmo escrever o livro e criar as ilustrações, e isso há mais de 170 anos atrás…

Você coordena oficinas de literatura para crianças e adolescentes, uma no Instituto de Educação do Paraná para jovens estudantes com altas habilidades/superdotação e outra na Fundação Cultural de Curitiba. Conte-nos mais sobre esses projetos. Qual é seu objetivo principal, com as oficinas?

JS: Procuro compartilhar com os estudantes textos que tenham me sensibilizado, pela sua beleza, humor ou questionamentos, levando-se em conta a nossa matéria-prima, que são as palavras. Em nossos encontros, eles tem espaço para que comentem o que estão lendo por vontade própria, pois na sala de aula muitas vezes não há tempo ou oportunidade. Geralmente não gostam dos livros indicados pelas escolas. Trabalho onde a poeta paranaense Helena Kolody estudou Magistério e lecionou Biologia por mais de vinte anos, é uma honra para mim! E 2012 é o ano do centenário do seu nascimento.

O Grupo de Literatura, é composto por jovens com habilidades especiais na área da Linguística, escrevem muito bem e/ou são grandes leitores. Conheci-os no Ensino Fundamental e alguns já estão na Universidade. Já tivemos momentos muito especiais, entre tantos outros, a publicação do seu primeiro livro (uma coletânea de contos), a oficina de haicai com Teruko Oda durante um Imim Matsuri, ou quando escreveram crônicas, completamente indignados com a implantação da nova reforma ortográfica. As turmas via Fundação Cultural são de escolas diversas e cada grupo é sempre uma surpresa! Muitas vezes proponho que falem da sua vida, família, cidade, para que valorizem a sua própria história, o que pode resultar em textos bem interessantes e um outro olhar sobre si mesmos. De uma destas turmas, tenho a declaração de uma aluna, muito jovem e talentosa: Nestas oficinas, você me ensinou a amar as palavras. Isto reforça a responsabilidade deste trabalho e o respeito que eles merecem.

Obrigada!

Na foto: alunos e escritoras convidadas, Marília Kubota e Teruko Oda.

Como resultado de suas oficinas:  Contos pra não dormir

Em um dos meus posts antigos: “A poeta Jane Sprenger Bodnar nos presenteou com um belo trabalho dos adolescentes de Curitiba: o livro Contos pra não dormir. Essa coletânea nasceu do projeto Sala de Recurso para Alunos com Altas Habilidades/Superdotação, oficina de literatura orientada pelas professoras Denise Maria de Matos Pereira Lima, Paula Mitsuyo Yamasaki Sakaguti e Silvana Menezes Mota, no Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto. A publicação em forma de livro é o produto final da oficina Editando o Seu Próprio Livro, orientada pelo artista gráfico Joba Tridente, que foi editor de arte do belíssimo e saudoso jornal Nicolau. Parabéns aos adolescentes e principalmente a Luísa Sprenger Bodnar, que também participou da bela coletânea de arrepiar os cabelos!”

Publicou e participou:

Fragmentos e Silhuetas – Exposição de FotopoemasSESC Paraná – 2012

Antologia: Dedo de Moça, Editora Terracota, 2011.

Homeopoética, edição de autor/2003

Luísa Cuidadora de Planetas, edição de autor/2003.

Oficina Literária na Fundação Cultural de Curitiba com Nelson de Oliveira.
Foto enviada pela amiga e poeta Jane Sprenger Bodnar.

Jane Sprenger Bodnar nasceu em Curitiba – PR, em 31.10.1963

Ilustração de Luísa Sprenger de Oliveira

Formada em Comunicação Visual pela UFPR, concluindo Especialização em História da Arte no Século XX, pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná – EMBAP. Lançou, em 1991, o objeto-poético Homeopoética – poemas em cápsulas ­­- com Rollo de Resende e Fernando Zanella. Possui textos publicados em diversas antologias, além do jornal Nicolau (PR), Correio de Notícias (PR), A Notícia (SC), Mulheres Emergentes (MG), revista Textuale (Itália). Publicações eletrônicas no site Escritoras Suicidas, Cronopinhos e Revista Germina Literatura. Em 2003, publicou o livro infantil Luísa Cuidadora de Planetas — edição de autor. Em abril/2012, exposição de fotopoemas em parceria com Gisela Riepenhoff, Sesc Cascavel/PR. Atualmente orienta oficinas literárias infantojuvenis pela Fundação Cultural de Curitiba e no Instituto de Educação do Paraná, junto à Sala de Recursos para Altas Habilidades/Superdotação. Contato/e-mail: janesprenger@gmail.com.

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