Minientrevista: Constança Lucas

[ Quarta minientrevista, agora com a escritora e ilustradora portuguesa Constança Lucas, direto de São Paulo ]

O trabalho de ilustração da Constança Lucas eu conheci através da Nair de Medeiros Barbosa, gerente de artes da Editora Saraiva, creio que em 1998, quando comecei a fazer trabalhos de design para a editora. Tive o prazer de conhecê-la pessoalmente, depois de muitos anos, em uma de suas exposições, lá na Livraria da EDUSP – João Alexandre Barbosa – USP em 2010 (veja foto e link abaixo). Em 2011, a Constança me convidou para participar do seu projeto Arte Postal – Os Livros / Mail Art The Books, exposição que permaneceu na Galeria Gravura Brasileira de 1º a 31 de março de 2012, em São Paulo. Fotos no face 1 e 2!

Agora, aproveitando a oportunidade especial, quero agradecer pelo convite, ADOREI, arigatô!

E assim, depois da exposição, trocando fotos e e-mails, eu a convidei para fazer parte das minhas mini-entrevistas. Ela gentilmente aceitou, e  aqui ela nos conta um pouco de sua fascinante trajetória artística, desde que, saindo de Portugal, aportou aqui no Brasil. Confiram a mini-entrevista!

O que levou você a se dedicar às ilustrações infantojuvenis?

CL: O intenso imaginário das crianças é um espaço criativo que me encanta. Gosto de fazer ilustrações como uma conversa entre as imagens e as palavras.  Criando universos paralelos, dando ênfase à possibilidade de múltiplas leituras. O último livro ilustrado por mim é  A Menina e o Sol,  texto de Júlio Gonçalves Dias, saiu no fim de 2011.

Em sua infância, quais os autores (portugueses/brasileiros) e artistas plásticos de que você mais gostava e quais os que mais a inspiraram?

Nasci em Portugal, em 1960, nessa época os livros para as crianças eram em menor quantidade, havia mais contato com os clássicos, tais como os Irmãos Grimm, La Fontaine,… li muitas fábulas, e as fábulas estão presentes até hoje no meu repertório poético. Autores portugueses que li: Matilde Rosa Araújo (1920-2010), de quem vim a ser muito amiga e temos um livro em conjunto chamado Lucilina e Antenor. Li também outros poetas como a Sofia de Melo Breyner Andresen, António Gedeão, Irene Lisboa, Eugénio de Andrade… A leitura do livro Amor de Perdiçãode Camilo Castelo Branco, alimentou parte da minha dramaticidade.

Li poucos autores brasileiros na minha infância, José Mauro de Vasconcelos foi um deles. Também havia uma literatura mais de aventuras dessa lembro-me de ter lido vários livros da autora inglesa Enid Blyton, em Portugal os seus livros eram muito populares, todos liamos os livros da série Os Cinco. E claro muita banda desenhada, HQ, Tintin, Asterix, Zorro…

A minha família gostava de ler e sempre houve muitos livros de adulto a meu alcance.

Nas artes plásticas tudo o que vemos e nos sensibiliza acaba nos inspirando, a lista é imensa. Na minha infância convivi com obras muito diversas que guardo até hoje: Maria Kheil, Júlio Pomar, Almada Negreiros, Bosch, Monet, Manet, Picasso, Goya, Velásquez, estradas romanas, as igrejas barrocas, o manuelino e todas as suas temáticas marinhas e os castelos medievais com suas ameias e histórias de fantasmas, heróis e sustos.. e tantos outros são parte das minhas paisagens maternas.

Você tem três livros em co-autoria com a Verenice Leite Ribeiro (formada em Física pela USP, com mestrado em Psicologia Educacional). Conte-nos como foi a experiência de escrever um livro a quatro mãos.

CL: O Cão e o Gato, A Formiga e a Abelha, A Galinha e a Pata  são os três livros que fiz em conjunto com a Verenice, foi um desafio de criação ligado ao compromisso de passarmos informações de ciências para as crianças, tais como: os insetos formiga e abelha têm seis patas, as aves galinha e pata têm bico, os mamíferos cão e gato têm o corpo coberto de pelos, etc… A ideia da série a que demos o nome de Iguais e Diferentes, é a de trazer para perto das crianças as diferenças e as parecenças dos animais que andam tão perto de todos nós, mas que nas grandes cidades fomos perdendo esse contato. Os textos foram criados a quatro mãos, escrevemos frase a frase e fomos polindo as arestas. As ilustrações foram realizadas por mim, com algumas sugestões da Verenice.

Qual a sua opinião, como escritora e ilustradora, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?

CL: Atualmente existe uma grande diversidade de produções literárias, encontramos autores e ilustradores muito bons.

Você também se dedica à poesia visual e às artes plásticas, conte-nos um pouco sobre o seu processo de criação.

No meu processo de criação não faço distinção entre poesia visual e artes visuais. Os questionamentos são os mesmos.

No final dos anos 80 o movimento de arte postal perdeu força, mas nos anos 90 iniciou um diálogo com as novas mídias, principalmente a internet. Você, que organizou a exposição Arte Postal – Os Livros / Mail Art – The Books, acredita que essa expressão artística retomará sua força original, a de um veículo de protesto e experimentações?

CL: A arte postal nunca perdeu a força, é uma manifestação coletiva que existe pela necessidade de comunicação entre as pessoas na sua maioria artistas visuais. Começou nos anos cinquenta nos estados unidos e na europa, era uma forma de se trocar arte sem ter a parte comercial envolvida, depois veio para a américa latina onde teve um caráter de contestação politica contra as ditaduras existentes em alguns países, o Brasil foi um desses países, aqui onde a censura bloqueava quase tudo muitos artistas conseguiram furar a censura usando a arte postal. A arte postal sempre usou as técnicas das artes visuais, quer seja o desenho, a colagem, o carimbo, a pintura, a xerox. É a mescla de procedimentos uma característica muito comum nos artistas que produzem arte postal, quanto ao advento das ditas novas técnicas digitais elas foram incorporadas naturalmente ao trabalho de cada artista, estas novas técnicas facilitaram a multiplicidade. A internet alargou a rede de comunicação entre as pessoas, trouxe uma maior democratização dando mais acesso.

Há mais de três décadas que troco arte postal e participo de exposições com vários colegas artistas visuais de várias partes do mundo. Assim como já organizei algumas exposições.

A exposição Arte Postal – Os Livros surgiu pela relação intensa que mantenho entre os livros e a arte postal. Inclusive como artista visual parte do meu trabalho é de livros de artista. Ao lançar a proposta na rede internet tinha como intenção alargar a participação a todos que tivessem interesse em criar um postal com esta temática – os livros, sendo ou não artistas visuais, assim muitos dos 289 participantes não são artistas visuais. Essa diversidade foi intencional. Quando pensei na montagem levei em consideração a enorme quantidade de postais, quase 600, um firmamento de postais, pendurei todos os postais em fios transparentes para que houvesse a possibilidade de serem manipulados e olhados dos dois lados.

Blogues de literatura infantouvenil:

Iguais e diferentes 

Coleção de livros pela Formato Editora: O entrosamento entre a ilustração e o texto permite que a criança conheça a linguagem da ciência através de observações e comparações. A leitura destes livros é um exercício de raciocínio lógico e de aquisição de conhecimentos através da ciência, da arte e do humor. Nos 3 livros a autora fez todas as imagens e partilhou os textos com a Verenice Leite Ribeiro, nascida em Caieiras, interior de São Paulo, é formada em Física pela USP, com mestrado em Psicologia Educacional. Sempre trabalhou construindo textos e materiais para ensinar Física e Ciências. Hoje, junto com o marido e filhos, cria formigas.

“Constança Lucas construiu o chão com poderosas e delicadas imagens para as perguntas sobre os astros do céu, que a Menina se faz. Nesse sentido, a harmonia entre texto e imagem está excelente.” Madalena Freire (escritora e educadora com vasta experiência em educação infantil).
Contança Lucas nasceu em Coimbra, cursou até o colegial em Portugal. Passou a viver em São Paulo no fim da década de setenta, onde fez Licenciatura Plena em Artes Plásticas na FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado. Mestre em Artes Visuais (2007) e Doutoranda em Poéticas Visuais (desde 2009) pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP.

Tem participado de várias exposições coletivas desde o início da década de oitenta em diferentes países (Portugal, Espanha, Bélgica, Checoslováquia, França, Hungria, Itália, Japão, Argentina, Alemanha, Austrália e Brasil). Realizou diversas exposições individuais em Portugal e no Brasil. É autora de inúmeros desenhos publicados em jornais, revistas e livros.

Leciona artes visuais e desenvolve o seu trabalho individual em ilustração, pintura, desenho, gravura, aguarela, poesia, infografia, arte postal e poesia visual.

Edita um site e alguns blogues 
Foto de Rogério Gastaldo
Estações do metrô: Luz e Artur Alvim (São Paulo).
Novos livros:
preview_usepoesiabaixa

Livro: Poesia – Use várias vezes ao dia, Editora Patuá
Autor: Constança Lucas
Gênero: Poesia / Poesia Visual
Número de Páginas: 128
Formato: 14×21
Preço: R$ 32,00 + frete (Livro em pré-venda. Amigos e leitores de outras cidades que realizarem a compra antes do lançamento receberão o livro autografado após o evento, em julho. Aproveite!)

2 - Capa do livro Superdicas Sobre Arte

Superdicas Sobre Arte

Os textos deste livro são um convite para viajarmos pelo universo das artes visuais, pistas sobre experiências e reflexões de vida interior e exterior através do contato com produções artísticas de várias épocas. Neste livro o leitor irá encontrar um conjunto de informações sobre conceitos de arte que fazem parte da cultura do nosso tempo, mas nem sempre são de entendimento imediato. Há perguntas que todos nós fazemos ao visitarmos uma exposição, ao depararmos com uma intervenção artística na rua ou ao lermos uma notícia sobre arte nas revistas, nos jornais, na internet… A arte é a memória coletiva da humanidade, a memória e a imaginação aproximam as pessoas que partilham experiências artísticas no cotidiano. A arte nas suas múltiplas vozes, seus processos de criação e fruição poética que nos proporcionam as obras de arte, seus materiais e técnicas artísticas. Nas escolas, o estudo da arte e a prática artística contribuem para o desenvolvimento de percepções e tornam os estudantes mais atentos ao conhecimento, assim como os capacita a serem cidadãos críticos e mais humanos. Os artistas transmitem o que pensam e sentem através das obras de arte, motivados por acontecimentos, emoções, saberes, aprendizados, experimentações e tentativas nos seus processos criativos. Nesta obra pretendo construir diálogos e criar aproximações com a arte e os processos criativos. Trazendo para o leitor possibilidades de se iniciar em alguns aspectos da arte, e, assim, se inserir de forma mais atenta e sensível no seu contexto artístico e cultural.

Constança Lucas
constancalucas@gmail.com
Doutora e mestre em Artes
ECA/USP – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
Título: Superdicas Sobre Arte
Autora: Constança Lucas
Editora Saraiva Julho de 2015 – Preço: R$14,90 – 136 páginas
Formato: 15 cm X 10 cm x 1 cm
ISBN: 9788502631946

http://www.editorasaraiva.com.br/produto/interesse-geral/livros-de-dicas/superdicas-sobre-artes/

11781862_10207420337889762_7492134695956108039_nFoto: autora

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2 pensamentos sobre “Minientrevista: Constança Lucas

  1. Conheço a Constança há alguns anos e sempre que vou à São Paulo nos vemos para trocas de informações, trabalhos e conversações. Grande pessoa e artista. Parabéns pela entrevista! Parabéns Constança por nos enriquecer cada vez mais. Obrigado! Abraços, André de Miranda.

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