Contos filosóficos 2

[Contos filosóficos 2]



Eleições, políticos corruptos reeleitos…  Qualquer semelhança com esse conto é mera coincidência. Um bom mestre pode ser útil ou inútil.



A lição do ladrão



“Todas as tradições reconhecem que a transmissão do conhecimento e, através dele, da própria sabedoria só pode se dar pela mediação de um mestre. Mas existem mil maneiras de se definir a identidade e a personalidade desse mestre.
Eis aqui, primeiro, a lição que um rei do sul da Índia recebeu de um ladrão.
Desejando aprender todos os segredos da arte de roubar, não com a intenção de ele mesmo roubar, mas sim de melhor vir a aplicar a justiça, um rei mandou que convocassem um famoso ladrão, a quem pediu lições.
 O homen pareceu ficar espantado, e até escandalizado.
 — Eu, um ladrão? Quem pôde convencê-lo a acreditar em tamanha falsidade. Sempre vivi muito honestamente: como poderia dar lições sobre roubo? 
Desse modo, protestando sua inocência e declarando-se indignado com a maledicência dos vizinhos, que sem dúvida o haviam denunciado para denegrir sua excelente reputação, o homem foi solto. 
No entanto, apenas alguns minutos depois da sua partida, o rei se deu conta de que um precioso anel tinha sumido da sua mão. Mandou prender o homem, que foi revistado sem que fosse encontrado o anel (que ele já poderia ter passado adiante para algum cúmplice). E dessa vez, por crime de lesa-majetade, o homem foi jogado na prisão e condenado a ser empalado no dia seguinte.
 Naquela noite o rei não conseguia dormir. Perturbado, ele se lembrava dos protestos de inocência da parte do homem, tanto no palácio como por ocasião da sua prisão. No meio da noite o rei levantou-e e desceu até a prisão. Fizeram com que ele entrasse, como uma sombra silenciosa, e ele ouviu o prisioneiro, sozinho na sua cela sombria, que orava com fervor, chorava baixinho e continuava a se dizer injustamente perseguido. O rei escutou tudo, sem fazer qualquer ruído, e ficou bastante comovido. Convencido da sua inocência, ele decidiu libertar o prisioneiro. Depois disso, conseguiu conciliar o sono.
 No dia seguinte, já liberado, o homem foi conduzido até o soberano. Esfregou rapidamente uma palma da mão contra a outra, fazendo aparecer o anel do rei. Depois, segurou-o entre os dedos e o devolveu, manifestando todos os sinais de obediência e respeito.
Muito espantado, o rei questionou-o sobre as razões do seu comportamento.
 — O senhor me pediu lições — disse-lhe o ladrão. — Eis a primeira: um ladrão deve sempre adotar o comportamento e a aparência de um cidadão absolutamente honesto, respeitador das leis e da religião. E eis aqui a segunda: é absolutamente essencial que ele afirme sua inocência, mesmo quando se encontre numa situação desesperadora. O senhor quer marcar a terceira aula?”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s