Yom Kippur

[Uma crônica antiga que  publiquei em uma das primeiras versões do site Vagalume, da escritora Cida Sepúlvida]


Não sou judia, mas hoje quero pedir perdão à minha filha

Dez dias após o ano-novo judaico, os judeus comemoram o Yom Kippur, o Dia do Perdão (também chamado de Dia do Arrependimento).

Para os judeus, esse é o dia em que todas as promessas de arrependimento, amor e amizade são seladas no plano divino. É nesse dia que os judeus têm a chance de se desculpar pelos maus atos e de pedir perdão à pessoa contra a qual cometeram alguma injustiça. Se o pedido for de fato sincero, todo mal que foi cometido anteriormente é anulado.

Sendo assim, apesar de não ser judia e não pertencer à religião judaica, hoje, neste dia especial, eu quero pedir perdão à minha filha, pelo que sou e pelo que não posso ser.

Outro dia assisti a um programa sobre drogas, e um dos palestrantes disse uma frase que ficou e ainda está martelando na minha cabeça. A frase é: “o exemplo não é a melhor forma de ensinar, é a única.”

Essa frase ficou gravada no meu cérebro como uma tatuagem invisível. Não consigo vê-la, mas ela está lá e, a cada nova atitude minha, ela aparece como um pisca-alerta.

Às vezes nos sentimos tristes e vazios, não compreendemos a nossa vida e buscamos respostas em tudo, menos em nós mesmos. E a resposta está aí, estampada na gente, só que não queremos enxergá-la.

Tudo é reflexo dos nossos atos. Digamos, do nosso exemplo. De como nos relacionamos com os entes queridos, com o vizinho, com um desconhecido e conosco mesmo.

“Pura bobagem”, você deve estar pensando ao ler estas palavras.

Outra vez o exemplo de um programa de televisão. Sabemos que os programas são fabricados, que a televisão poda a imaginação, que ela não passa de um entretenimento fácil. Mas tenho assistido a uns programas interessantes, como a SuperNanny e, O aprendiz e outros que só passam de madrugada. Ou seja, em horários fora do circuito comercial, como o seriado O Jim é assim, o programa educacional Salto para o futuro, O bom dia saúde, o programa do Sebrae para microempresas, Encrencas em Família, Tudo em família.

Na SuperNanny o mais engraçado é que, na maioria das famílias, as lições aplicadas são para os pais. As crianças são apenas o reflexo de pais desorientados, que se perdem na educação dos filhos e tornam o convívio familiar insuportável.

Outra vez a questão do exemplo. Na vida, na política, na economia, nas artes. Imitar faz a diferença.

Não quero ser piegas e dizer que só os bons exemplos funcionam. Os maus também ensinam. Depende apenas do seu receptor, do nosso livre-arbítrio.

Somos responsáveis pelas nossas escolhas. É um ciclo vicioso, sem fim. Essa é a armadilha da vida: nossas escolhas. Elas vão refletir em toda a nossa vida.

E como saber se uma escolha é certa ou não?

Volto à questão do exemplo, que martela a minha cabeça.

Algumas frases que circulam pelo mundo há anos: “Filho de peixe, peixinho é”, “Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão”, “É próprio da criança imitar os adultos”, “Você é responsável por aquilo que cativa”.

Quanta responsabilidade, não é mesmo? Somos pais, mães, professores, artistas, ídolos, escritores, comerciantes, políticos, religiosos, fanáticos e loucos. Alguém sempre vai seguir os nossos passos ou desprezá-los. Tudo no mundo gira em torno da reprodução, da semelhança, da analogia, da imitação. Você pode se ver refletido em outro ser. Será que você irá agüentar tal reflexão? Sim. Não. Tudo depende de você.

A arte que imita a vida que imita a arte que… é a própria vida… Oscar Wilde dizia que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Na escolas ouço crianças brincando umas com as outras, repetindo a tão fatídica frase do Roberto Justus n’O aprendiz: “Você está demitido!”

Nada como tirar proveito de um ensinamento, nada como estabelecer uma opinião.

Enfim, não sou judia, mas hoje quero pedir perdão à minha filha, pelo que sou e pelo que não posso ser. Por não largar do seu pé, por ser superprotetora e às vezes chata. Não posso ser a mãe ausente, a mãe que fecha os olhos, a mãe que perdoa tudo, a mãe que não dá o exemplo. Sou a mãe que erra e quer acertar, sou a mãe que não tem vergonha de pedir perdão.

by Tereza Yamashita

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