Artigo do balacobaco

[Artigo do balacobaco]

Leia um trecho de um antigo artigo sobre literatura infantojuvenil, que o Luiz Bras escreveu para o Jornal Rascunho. Vale a pena conferir também os novos artigos (Ruído Branco).

[ Qualidade não tem idade ]

Ilustração: Tereza Yamashita

Os equívocos de relegar as obras infantojuvenis ao segundo escalão da literatura

Inquietante, aliás, é o adjetivo que melhor define a obra, por exemplo, de Lygia Bojunga, cujos livros já foram traduzidos para vários idiomas: francês, alemão, espanhol, norueguês, sueco, hebraico, italiano, búlgaro, checo, islandês e outros. Lygia é uma das maiores escritoras brasileiras em atividade. Seus livros incomodam, encantam, assustam. Ela, como Carlo Collodi e Lewis Carroll, parece que escreve para crianças e jovens, mas na verdade escreve para a espécie humana. Eu não tinha doze anos quando li pela primeira vez A bolsa amarela e Seis vezes Lucas. Eu tinha trinta e dois. Foi uma revelação, uma epifania. Lygia dissolve as fronteiras entre o real e o imaginário e sua literatura está sempre queimando os rótulos empobrecedores. Para ela qualidade não tem idade: infantil, juvenil, adulto? É tudo a mesma coisa, não existe diferença.

Rótulos? Não há rótulo que dê conta de uma narrativa tão lírica e perturbadora como O abraço, publicada em 1995. Ao mesmo tempo mágico e assustador, esse livro trata da delicada questão do abuso sexual de crianças. Nada mais distante do modelo ultrapassado de literatura infantojuvenil, que décadas atrás exigia do autor que evitasse os temas controvertidos e só trabalhasse com os tons aconchegantes e moralistas. Os livros de Lygia Bojunga misturam fantasia, miséria, ilusão, euforia, crime, desamparo, amor, egoísmo, ciúme, amizade e medo sem jamais pouparem o leitor. Isso normalmente lança os autores para a margem do sistema literário. Lidar com as fobias e os tabus de uma sociedade é sempre o melhor caminho para a rejeição pública. Até mesmo Monteiro Lobato era severamente criticado quando levava as polêmicas políticas e ideológicas ao Sítio do Picapau Amarelo. Mas no caso da Lygia que foi que aconteceu? Exatamente o contrário! Ela recebeu o reconhecimento internacional e os maiores prêmios literários. Isso prova que o raio da lucidez às vezes atinge as cabeças certas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s