Minientrevista: Adriano Messias

[Minientrevista com o escritor e tradutor Adriano Messiasdireto de São Paulo]

Porta-retrato Dance of Star de Mio Tsugawa, dobrado por Tereza Yamashita.

O Adriano eu conheci num happy hour que aconteceu tempos atrás na casa do editor, escritor e músico Henrique Félix, da Garagem Editorial. Nessa tarde-noite encontramos muitos escritores e editores, conhecemos uns, reencontramos outros, foi muito divertido. E de lá pra cá mantivemos contato por e-mail, facebook e toda a parafernália das redes sociais, rs. Assim, convidá-lo para uma minientrevista era algo inevitável. Valeu e Arigatô!

O que levou você a se dedicar aos livros infantojuvenis?
AM: A primeira profissão que me veio à cabeça, desde menino e atravessando a adolescência, foi a de escritor. Inicialmente, fui um grande devorador de livros, ávido por aprender a ler antes mesmo da alfabetização, o que me levou a algumas incursões solitárias pelos desafios dos códigos do letramento. Junto, veio uma vontade de escrever como possibilidade de dar vida a histórias que eu inventava. Comecei mesmo aos 11, fazendo poemas engraçados e, depois, contos de terror, sobretudo de vampiros – e guardo tudo o que escrevi até hoje. Aos 12, eu queria de forma decidida ser um escritor de livros infantojuvenis. Já na fase crítica da adolescência, aos 14, 15 anos, eu fazia poemas inspirados no estilo de nossos poetas românticos da segunda fase: fui invadido pelo byronismo, pela nostalgia e pelo macabro; fiz também aqueles poemas de amor não correspondido que todo mundo um dia escreve e acha a coisa mais bonita que há. Mas, em relação à profissão, eu sentia que era aquilo e pronto: ser escritor. A decepção veio quando uma professora me disse que não existia faculdade para isso. Que o caminho do escritor era árduo e lento. Daí, antes de sair do ensino médio e depois de várias tentativas sem frutos de publicar – numa época em que nem imaginávamos a internet e suas possibilidades -, eu abandonei a ideia da carreira em ficção. Como cursei letras e jornalismo, nunca me afastei da área. Foi somente no final da segunda graduação, às portas do mestrado, que tentei retomar minha obsessiva ideia do fim da infância: ser autor. E não é que daquela vez deu certo? Nada como o tempo e uma boa dose de coragem mundo afora para renascer em nós aquilo que chamo de vocação. Afinal, vocação a gente tem mesmo de respeitar!

Em sua infância, quais os autores de que você mais gostava e quais os que mais o influenciaram?
AM: Eu divido a presença da leitura em minha infância em duas partes: a primeira, até a quarta série do fundamental, foi quando tomei conhecimento de autores cujos livros eu ganhava de presente, uma vez que, no grupo escolar em que eu estudava, a biblioteca era algo inacessível, parca e reduzida. Os meus gibis me salvaram nesse período, junto com a Maria José Dupré, sua ilha perdida, sua mina de ouro e seu cachorrinho Samba aventureiro. Coletâneas de histórias infantis e Monteiro Lobato também estiveram presentes. A segunda fase foi a que mais me marcou, pois, no colégio, havia uma sala dentro da biblioteca que fazia parte de um projeto do governo chamado “Salas de Leitura”. Lá, eu me encontrei com todos os livros possíveis para um garoto de meados dos anos de 1980: desde os clássicos até os mais recentes escritores da época, passei por Júlio Verne, Alexandre Dumas, Condessa de Ségur e cheguei a Cora Rónai, Lúcia Machado de Almeida, Elvira Vigna, Sylvia Orthof, Millôr Fernandes, muitos cronistas e contistas – em especial os mineiros -, a clássica série Vaga-Lume (que marcou minha geração), Jorge Amado, além de Stephen King como o carro-chefe de muita literatura fantástica de diversas nacionalidades. Como eu era muito organizado, anotava e classificava tudo o que lia. Ainda tenho as listas guardadas em papel almaço. Houve um ano em que li 120 livros. Os autores clássicos, nacionais ou não, me trouxeram a percepção de que o que é bom parecia ter durabilidade e respeito, e isso se conquista com experiência e com trabalho. Já quanto aos autores contemporâneos daquela época, eu me sinto influenciado por alguns que tinham um estilo rápido e dinâmico, quase cinematográfico – talvez porque trabalhassem como roteiristas para a TV – e também pelo uso que faziam do humor, mesmo em histórias que causavam medo. A literatura produzida nos anos de 1980 me dava uma sensação de liberdade, talvez por ser uma década pós-ditadura, e parecia ótimo poder escancarar a imaginação sem censura alguma por meio da palavra escrita.

Qual a sua opinião, como escritor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?
AM: A literatura infantojuvenil é hoje uma das forças motrizes do mercado editorial no mundo todo, e não há como negar isso. De um lugar discreto concedido nas estantes de ontem, ela se tornou um espaço privilegiado em livrarias, sites e blogs. Já deixou de ser nicho de mercado para ser o principal filão de variadas editoras, ou mesmo área exclusiva de muitas. Junto ao produto principal, o livro, vemos surgir uma série de subprodutos e franquias. Os diversos profissionais da área estão cada vez mais especializados. As numerosas premiações sérias atestam o que estou dizendo. Enfim, a literatura infantojuvenil tem se mostrado uma vasta rede de recursos e economia próprios, perfazendo movimentos que denunciam as exigências de seu mercado. É inegável a qualidade de muitas obras que são lançadas e, neste aspecto, podemos dizer que crianças e jovens desta época são mesmo privilegiados. Nesse universo riquíssimo, dada a velocidade com que tudo acontece, há uma carência de reflexões. É preciso que editoras, autores, ilustradores, designers pensem para onde estão indo e onde gostariam de chegar.

Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas acham a literatura adulta superior?
AM: Ainda há, e muito, em especial em determinados meios acadêmicos, em que o autor de livros para crianças e jovens é considerado uma espécie de profissional menor. Basta ver como torcem o nariz quando alguém se propõe a ser um pesquisador na área de literatura infantojuvenil. Falta aos profissionais da literatura infantojuvenil conseguirem mais respeito, e esse entrave se deve em parte à tradição literária que entendia o infantojuvenil como algo que viria para antecipar e propiciar a leitura mais madura, aquela da vida adulta. Ou seja, nossos textos para crianças e adolescentes muitas vezes são vistos apenas como textos de “formação”, e disso para se cair no didatismo e em uma visão “pedagogizante” conservadora é apenas um passo. Sou daqueles que pensam que ou é literatura, ou não é. Por outro lado, penso também que uma parte do preconceito surge entre os diversos profissionais do próprio mundo dos livros infantojuvenis, pois ainda há quem acredite que livro para criança tem de ser uma história “bonitinha” com início, meio e fim, o que ignora grandemente a capacidade dos leitores mais novos.

O que diferencia a criança que lê da que não lê?
AM: 
Não sei se minha resposta deveria se render apenas ao tradicional livro de papel. Uma mídia jamais substituirá a outra e os diversos suportes de leitura estão aí para dizer que é preciso uma convivência salutar do livro impresso com os produtos virtuais, por exemplo. Então, não acredito que seja válido avaliar uma criança que não lê como sendo aquela que não apanha uma coleção de livros impressos e se tranca no quarto para devorar tudo. É admirável um leitor ávido e, como eu narrei, fui um leitor assim. Porém, hoje, o conceito de leitura se estende também ao livro eletrônico, ao mundo da internet, às histórias narradas no cinema digital, às músicas são ouvidas pelo celular, aos minicontos que são publicados em redes sociais, ao entendimento das obras de arte que se espalham por uma cidade. Por isso, para mim, a questão não é apenas estar ou não com um livro sob o braço, pois sabemos que existem livros e livros… Mais importante é perceber como a criança está se relacionando com o mundo e com os bens culturais que o movem. Ou seja, a leitura é, antes de tudo, uma ampla e saborosa leitura do mundo que parte de todos sentidos do corpo, não apenas do olhar. Vou tomar emprestado um conceito de minha área de estudo: estamos falando de produções incessantes de sentido – semioses. Por exemplo, a gente lê um livro ouvindo uma música, depois vai ver um filme ou sai na rua para caminhar e elabora aquilo tudo. Isso para mim é leitura no seu sentido mais amplo. Assim, qual seria uma criança que não lê? Talvez estejamos falando aqui do acesso de uma criança às variadas possibilidades de leitura e construção de mundo. A criança que é impedida de ler o mundo se torna uma pessoa mais limitada, mas é preciso pensar esta questão a partir do livro, e não apenas circunscrito a ele.

Mantém o blog: Vocação a gente respeita

Messias é escritor e tradutor, nasceu em Lavras (MG), morou e estudou em Belo Horizonte e hoje reside em São Paulo. Graduou-se em Letras e Jornalismo, fez mestrado em Comunicação e Sociabilidade, e atualmente realiza doutorado em Comunicação e Semiótica, desenvolvendo tese sobre o fantástico no cinema do século 21 e suas relações com a literatura. Tem diversos livros publicados para crianças e adolescentes, com ênfase na literatura fantástica, e ministra cursos para professores e estudantes.

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5 pensamentos sobre “Minientrevista: Adriano Messias

  1. Olá Boa Noite!!!
    Sou professora orientadora de sala de leitura de uma escola pública na Zona Leste de São Paulo, Escola Municipal de Ensino Fundamental Virgílio de Mello Franco( Rua Erva do Sereno nº 15 Jardim São Martinho São Miguel Paulista) e juntamente com a Equipe Escolar estaremos realizando nossa 2ª Semana Literária no período de 22 á 26 de agosto .
    Por ser uma escola na qual seu corpo discente não tem ou tem pouquissímo acesso a cultura gostaríamos de proporcionar momentos que ficarão marcados na vida destas crianças e adolescentes.Portanto gostaríamos de convidá-los à nos prestigiar com uma visita aos nossos alunos durante esta semana. Até porque trabalhei com os alunos o livro Bia dos olhos azuis e eles amaram.Ficaremos honrados com a visita de vocês. Também enviei o convite para sua irmã Lúcia que gentilmente aceitou.
    Agradeço a gentileza e atenção.
    Professora Leila
    P.S. Desculpe enviar o convite pelo comentário mas procurei um email para entrar em contato e não encontrei.

  2. oi adriano ,meu nome é nathalia e quero dizer que adorei o seu livro histórias mal-assombradas de portugual e espanha tchau!

  3. ola,sou criança mas amo ler seus livro,amo a histórias mal-assombradas de portugual e espanha,não só gosto desse como gosto dos outros,espero que faça um livro sobre assombração de novo…..espero que eu seja igual a você…tchau!

  4. Gostaria de saber quando Adriano Messias nasceu , pois preciso terminar um projeto . Adriano adorei seu livro : Diário da escola de assombrações , ele é ótimo ! Desde já agradeço , um grande abraço !

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