Almas distraídas 3/3

[Parte 3]


Exausta de procurar e de tanto ligar para o celular do Caco eu desisti. Voltei para a maldita sala. Quem sabe o Caco estaria lá, dando boas risadas de mim. Mas nada, a sala estava vazia e apenas a caixa estava caída ainda no chão. Eu a havia esquecido.

O celular tocou, logo pensei que era o Caco, mas era a minha mãe. Eu tinha perdido a hora do jantar e tomei a maior bronca, tive que retornar pra casa correndo.

A noite foi insuportável. Liguei novamente para a casa do Caco e sua mãe disse que ele não tinha voltado ainda. Era hábito dele, às vezes dormia na casa de amigos e só voltava no dia seguinte. A mãe pareceu despreocupada, já estava acostumada com os sumiços do filho. Eu estava perdida ou estava louca?

Consegui pegar no sono apenas ao amanhecer.  Dormi e logo acordei. Nesse curto espaço de tempo tive um pesadelo horrível. O Caco estava preso numa espécie de masmorra e lá havia ossos espalhados pelo chão, estavam mumificados. Ele estava quieto num canto, com muito medo. Depois vi a garota louca gritando que o Caco estava preso, que ele morreria, se ninguém o ajudasse.

Acordei transpirando e gelada. Que noite desagradável. Tudo parecia um pesadelo. Era um pesadelo, só poderia ser um spesadelo. Liguei pro celular do Caco e nada, fora de área. Saí de casa correndo. Fui pro colégio e nada do Caco. Agora eu sabia que tudo havia acontecido mesmo. Fui para a salinha e novamente só encontrei a maldita caixa. Um pequeno raio de sol incidia no coração de prata, que refletia a luz na parede, perto da escrivaninha. Com raiva comecei a chutar a parede e tomei o maior susto, uma passagem se abriu. Comecei a gritar pelo Caco, e sem pensar entrei na passagem. Então a porta se fechou. Estava muito escuro lá dentro, quase morri de susto quando senti uma mão gelada me tocando.

— O que aconteceu? Por que você me deixou aqui sozinho?

Era a voz do Caco, e sem pensar eu o abracei o seu vulto, que alívio, ele ainda estava vivo.

— Caco, você está vivo? O que aconteceu?

— Vivo? Claro que estou vivo. Eu é que pergunto, não sei como vim parar aqui. Isso parece uma tumba, encontrei vários ossos ali no chão.

Quando o Caco apontou para o chão, tomamos um susto gigantesco. Um rapaz fosforecente estava sentado em cima dos ossos, refletiam feito prata, sorrindo:

— Que bom que vocês me encontraram, eu estou preso aqui há décadas. Preciso que me tirem daqui, quero me encontrar com a minha noiva.

— Deus do céu, você é o noivo da garota louca?  Então você é um fantasma? — eu nem sabia o que estava perguntando.

— Sim, eu sou o Carlos Neto e eu os atrai pra cá. Vocês precisam enterrar os meus ossos junto com os da Elvira, senão, as nossas almas nunca descansarão em paz.

— Hiromi… Diz que estou sonhando… Fantasmas não existem — disse Caco, gaguejando novamente.

— Por favor, me ajudem e eu nunca mais aparecerei pra vocês — suplicou o fantasma.

— Mas como vamos sair daqui? A passagem se fechou e estamos todos presos – eu também estava gaguejando, estava muito nervosa.

— Depois de todos esses anos eu aprendi como abrir essa passagem. Me sigam, por favor.

— Eu não estou acreditando, vamos ser salvos por um fantasma? — Caco falou baixinho.

— Empurrem aquele tijolo ali e a porta se abrirá — o fantasma apontou para o tijolo da esquerda.

Caco e eu empurramos o tijolo e a passagem se abriu. Quando saímos, uma luz intensa inundou a sala. Então, presenciamos uma cena linda, parecia de cinema. Carlos e Elvira estavam se abraçando. Foi um momento tão mágico, tão sublime. Caco e eu também nos abraçamos fortemente.

— Mas, que saco!  — eu praguejei.

A minha querida prima nos interrompeu quando estávamos quase nos beijando:

— Obrigada, muito obrigada por salvarem o meu noivo. Por favor, vocês poderiam enterrar os ossos dele na minha sepultura? Só assim descansaremos em paz.

Caco e eu prometemos que iríamos esclarecer toda a história para a cidade e eles finalmente poderiam ficar juntos. Eternamente juntos.

A polícia fez a perícia e os exames, e constatou que realmente era a ossada do Carlos, o caso finalmente foi encerrado. A passagem foi selada para sempre. A cidade inteira pareceu respirar aliviada após o enterro de Carlos.

É claro que nunca poderemos contar que os fantasmas haviam nos ajudado a resolver todo o mistério daquele casal. A cidade toda achava que nós, meros adolescentes, encontramos a passagem secreta apenas por curiosidade, por sermos bisbilhoteiros.

Hoje, ainda guardo a caixa comigo. Recuperei o rubi, que era verdadeiro, minha avó estava certa.

Caco e eu estamos juntos, somos o casal mais famoso do colégio, e agora o nosso hobby predileto é passear pelos brechós da cidade em busca de objetos antigos e de novas aventuras.

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