Almas distraídas 2/2

[Parte 2 ]


Voltei ao meu quarto e continuei limpando a caixa. O pó atacou a minha alergia, acabei ficando com sono, e cochilei. Acordei com a minha mãe me chamando pro jantar. Ainda bem que despertei, eu estava tendo um pesadelo horrível. Sonhei que estava sendo chamada pelo noivo desaparecido. Ele estava me pedindo ajuda, e gritava meu nome com uma voz rouca e abafada. De arrepiar. E na biblioteca eu vi a garota chorando e andando de um lado para o outro, como se estivesse procurando algo.

Nessa hora eu acordei sem fôlego, e quando olhei pra caixa ela estava reluzindo. O rubi parecia mais vermelho do que antes. Fiquei com medo e guardei a caixa na gaveta do criado-mudo.

No jantar, mostrei a caixa aos meus pais e recontei a história. Minha mãe pareceu que não se lembrava dela, o meu pai trocou de assunto. Foi logo dizendo a mesma coisa que a minha avó, pediu que eu devolvesse a caixa e pegasse o dinheiro de volta.  Então ele finalizou com uma voz grave:

— Menina, não devemos mexer com os mortos, deixe-os descansar em paz.

— Mas pai… Bem que se vê que você é filho da vovó, acreditando em “obaques” (fantasmas)! — eu disse rindo.

Quando eu estava saindo da mesa do jantar… Meu pai me pegou pelo braço, e com a voz muito séria me fez prometer que devolveria a caixa. Minha mãe acenou com a cabeça, concordando com o meu pai. Eu cruzei os dedos fazendo figa, prometi que  devolveria a caixa no dia seguinte. Meus pais acreditaram e se tranqüilizaram. Depois eu os vi conversando baixinho com a minha avó.

Esses adultos às vezes nos decepcionam.

No dia seguinte eu coloquei a caixa na mochila e a levei ao colégio. Mostrei pro Caco, o meu melhor amigo. Ele é meio nerd, mas tem os olhos azuis mais lindos que eu já vi, pena que usa aquele óculos enorme e ridículos. Ele não quer usar lentes. Acho que ele ficaria muito mais bonito, e menos nerd, para o meu gosto.

Ele nem se interessou pela caixa, mas de repente aquela luz estranha do rubi brilhou novamente, um vermelho intenso. Como por encanto, o Caco ficou interessado. Pegou a caixa e começou a ouvir atentamente a história. Ele achava aquele brilho estranho, e, enquanto eu contava a tragédia dos noivos, eu não conseguia parar de olhar para o coração e para o rubi.

— Que história mais boba, românticóide e sem pé nem cabeça. A mulher do brechó só queira te seduzir, pra vender a peça por um preço maior.

— Pois é, no começo eu achei isso também, mas depois… Parecia que ela queria mesmo é se livrar da maldita caixa. O pior veio depois, contei a história aos meus pais e à minha avó, a coisa ficou mais esquisita. Eles me fizeram prometer que eu devolveria a caixa ao brechó.

— Que estranho! Os pais são assim mesmo, cheio de lero-leros. Devem ter achado a história macabra. Os objetos de pessoas mortas causam repulsa.

— É, deve ser isso mesmo –  eu respondi ainda intrigada.

Resolvi procurar na internet alguma coisa sobre o desaparecimento do tal noivo. Ouvi os meus pais falarem o nome de Carlos Nemo… Carlos Neto… É isso, Carlos Neto.

Encontrei toda a história na internet. A garota chamava-se Elvira Nakano e realmente ela tinha ficado louca, e depois acabou morrendo num hospício. Ela contava a história de que seu noivo havia marcado um encontro com ela na salinha da biblioteca. Lá, ele sumiu. Ela fechou os olhos para pegar o presente surpresa, a caixa, e ele desapareceu. Ela só ouviu um barulho de algo se abrindo. Ela achava que havia uma passagem secreta na sala. Como ela também nunca a encontrou, ela começou a enlouquecer. De noite e de dia, ela gritava pelo nome de Carlos. Todos começaram a achar que ela o havia matado e, como ninguém nunca encontrou o corpo de Carlos, ela não pôde ser incriminada.

Havia uma foto da sala na internet, fiquei por um longo tempo observando a foto e acabei me lembrando dela. Era a sala dos fundos da biblioteca, uma sala caindo aos pedaços, onde guardavam os livros velhos, caixas entulhadas, papéis e documentos antigos. Parecia um mausoléu de livros.  Eu havia ido lá uma única vez, a diretora da escola me mandou procurar o Livro de Ano da época dos meus pais. Lembrei do local, pois era muito esquisito, tinha um cheiro horrível de mofo e o que mais me chamou a atenção foi uma pequena escrivaninha antiga que estava lá sendo comida pelos cupins. Estava encostada em uma parede com os tijolos à mostra.

No dia seguinte pedi ao Caco que fosse comigo à tal sala. Eu estava curiosa, será que a passagem secreta existia mesmo? Carlos Neto havia fugido por ela? Ele havia desistido de se casar? Que coisa horrível de se fazer. Deixar a própria noiva enlouquecer. Ou mesmo ser incriminada. Que homem inescrupuloso e frio, eu pensei.

— O que estamos procurando aqui? — perguntou Caco, espirrando feito um chafariz, ele também é alérgico.

— Uma passagem secreta — respondi com a voz fanha, meu nariz já estava entupido.

— Procurando o quê? Uma passagem secreta? Você também está enlouquecendo com a história da caixa? Vamos embora daqui, este lugar cheira à morte — Caco disse num impulso.

Eu fiquei arrepiada e tirei a caixa de dentro da bolsa. A caixa enroscou na alça da bolsa e quando eu a puxei, o falso rubi se descolou do coração e rolou em direção a escrivaninha. Ele caiu bem perto da parede. Lá começou a brilhar, o mesmo brilho estranho de antes. Caco disse que o pegaria pra mim. Quando ele se abaixou e se apoiou na parede com uma das mãos, uma passagem se abriu e o Caco desapareceu.

Em pânico comecei a gritar e a bater desesperadamente na parede.

Caco não respondia, procurei a tal passagem e nada. Fiquei alguns instantes parada, sem saber o que fazer. Depois do susto comecei a procurar a alavanca, sei lá, algo que abrisse aquela passagem de novo. Por incrível que pareça, eu não consegui achar a tal passagem. Não podia acreditar, o mesmo estava acontecendo comigo. Foi nessa hora que percebi o quanto gostava do Caco. Nunca tinha percebido, ele era o meu melhor amigo e agora eu estava prestes a perdê-lo também. Não era justo, eu não teria tempo de dizer para ele que eu havia descoberto que o amava.

Aquela caixa me meteu em uma encrenca danada, bem que a mulher do brechó já tinha dito. Meus pais e a minha avó nem queriam saber daquela história. Na internet eu descobri que a tal garota louca era nossa parente, a prima de terceiro grau do meu pai. Concluí que eles tinham sofrido muito com o episódio e tentavam esquecê-lo. A polícia não acreditaria na minha história e achariam que eu estava ficando louca como a garota.

Eu também comecei a achar que eu estava ficando louca. Como o Caco tinha sumido num passe de mágica? Era tudo brincadeira, só podia ser. O Caco era muito divertido e gostava de me pregar peças. Saí daquela sala e comecei a procurar o Caco por todo o colégio e nada, ninguém o tinha visto também.

continua…

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