Nono conto

[Missoshiro]


Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe me mandou comprar um quilo de peixe no mercado.

— Ah, eu adoro peixe — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigantes japoneses?

Eu morava numa pequena vila. Eu morava na sétima casa do lado esquerdo, no número dezesseis. A minha casa tinha uma varanda em forma de arco, parecia uma meia-lua, mas a casa era pintada de amarelo, como o sol nascente.

A casa do senhor Klauss era a de número sete, do outro lado da rua interna. Estava precisando de uma pintura, estava toda descascando e com a janela quebrada.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe me mandou comprar um quilo de farinha na mercearia, ela irá fazer alguns pães. Depois eu trago um pro senhor.

— Ah, eu adoro pão — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigantes japoneses, o Kasato Maru?

O seu Klauss morava sozinho. Ele sempre estava vestido com a mesmo tipo de roupa, um terno cinza todo amarrotado e uma camisa branco-amarelada. Eu achava que ele não trocava de roupa e nem tomava banho, às vezes ele tinha um cheiro forte de mofo. Ele adorava quando a minha mãe e os outros vizinhos o presenteavam com guloseimas. Pães, bolos, tortas e frutas.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe me mandou comprar leite na padaria.

— Ah, eu não gosto mais de tomar leite — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses em 1908, o Kasato Maru?

O seu Klauss morava sozinho. Ele vivia na porta da sua casa. Acho que se sentia solitário e gostava de conversar com as pessoas que passavam por ele. Comentavam que ele era muito inteligente, que tinha sido jornalista e adorava a cultura japonesa, que até falava um pouco o japonês. Sua casa era repleta de livros velhos e muitas caixas fechadas. Eu sempre tentava bisbilhotar pela porta ou pela janela, mas ele não saía da porta e eu não conseguia ver nada.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe me mandou comprar algo no mercado e eu me esqueci, vou tomar uma bronca, mas eu volto lá correndo e ela não ficará brava.

— Ah, eu também ando meio esquecido — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses em 1908, o Kasato Maru? O desembarque dos primeiros imigrantes japoneses só aconteceu na manhã do dia 18 de junho. No total, chegaram 781 japoneses, vindos das províncias de Fukushima, Tóquio, Kumamoto e…

Eu adorava conversar com o senhor Klauss, ele sempre contava um pouco da história dos imigrantes japoneses, mas ultimamente ele andava meio esquisito. Será que ele estava doente? Muitas vezes ele não saía de casa por dias e todos os vizinhos ficavam preocupados. Tinham medo que ele ficasse doente, sem cuidados médicos. Alguém sempre batia na porta dele e ele gritava que estava bem, que só estava cansado e queria descansar.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe não me mandou comprar nada pra ela. Ela me deu umas moedas pra eu comprar uma revistinha em quadrinhos só pra mim. Eu estou aprendo a ler, não é legal, senhor Klauss?

— Ah, eu também adorava ler, mas agora ando com a vista cansada — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses em 1908, o Kasato Maru? No total, chegaram 781 japoneses, vindos das províncias de Fukushima, Tóquio, Kumamoto e… Chegaram ao Brasil contratados pra trabalhar nas lavouras de café no estado de São Paulo.

Hoje eu não consegui conversar muito com o senhor Klauss. Ele esperava uma visita e estava ansioso. A minha mãe disse que um rapaz da assistência social o visitaria. Eu nunca o tinha visto, mas a minha mãe disse que de três em três meses o rapaz vinha vê-lo e às vezes trazia um médico com ele.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola? — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses?

Ele ia continuar contando a sua história predileta quando o rapaz chegou.

— Desculpa, menina, o Antônio chegou. — O sr. Klauss disse afobado.

O senhor Klauss contava pra todo mundo que ele havia ido ao Japão, que era o país mais bonito que ele já tinha visitado. Ele disse também que conhecia toda a Europa e todos os estados brasileiros. Adorou ter ido à Amazônia. O seu sonho era ter ficado morando lá, no meio de toda aquela mata exuberante, seus animais selvagens e seu clima exótico. Ele adorava contar essas histórias, nunca ninguém soube dizer se eram verdadeiras ou se eram apenas histórias de um senhor solitário, mesmo assim eu adorava ouvi-las, e a cada dia nossas conversas iam se espichando.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola? — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses em 1908, o Kasato Maru? Eu já te contei que visitei o Japão quando eu era jovem? Que país maravilhoso!

Acho que ele percebia que eu tentava bisbilhotar a sua casa e os seus livros, e me disse em tom sério.

— Espere aqui, menina. Não entre!

Ele saiu da porta e foi buscar algo dentro da casa. Quando voltou, ele me disse:

— Aqui está, vou emprestar um mangá que trouxe do Japão. Tome cuidado com ele, ok? Depois me devolva, menina. Comece a olhar o mangá de trás pra frente, lá no Japão a leitura é assim, ao contrário da nossa.

Eu fiquei admirada com a grossura do livro. As páginas estavam amareladas e os desenhos eram com uma só cor, um tom de roxo esquisito. Fiquei tão contente e saí correndo pra casa. Meu pai me explicou o que era um mangá e confirmou que eu teria que ver os desenhos de trás pra frente. Estava todo escrito em japonês. Umas letras miudinhas e cheias de tracinhos. Eu ainda estava aprendendo a ler e por isso tanto fazia se estava escrito em japonês ou em português. Eu adorava mesmo era ficar olhando os quadrinhos, os desenhos incríveis.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje a minha mãe me mandou comprar um quilo de batata. Eu não sei escolher batatas, mas ela insiste que eu vá ao mercado. Ela diz que é assim que a gente aprende.

— Ah, eu adoro sopa de batata — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses em 1908, o Kasato Maru? Eu já te contei que visitei o Japão quando eu era jovem? Que país maravilhoso!

Ultimamente o senhor Klauss andava muito estranho, muito esquecido. Mal ele falava algo e depois ele repetia tudo de novo. No começo eu achava engraçado e começava a rir. Ele não entendia nada, ele não entendia por que eu estava rindo, ou melhor, ele não se lembrava de nada. Eu me divertia, parecia conversa de loucos, mas a gente se entendia e eu gostava da sua companhia.

O mais divertido era quando eu levava um prato de sopa pra ele. Sempre que sobrava sopa, o missoshiru, uma sopa japonesa, a minha mãe mandava um prato pra ele. Num dia muito frio, eu levei a sopa pra ele. Não era sobra de sopa, minha mãe acabara de fazer, estava quentinha e cheirosa e eu pedi um pouco pra levar pro senhor Klauss, eu sabia que ele iria adorar.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje eu trouxe o seu almoço, uma sopa quentinha. O missoshiru que o senhor adora. Sinta o cheiro. Não está maravilhoso?

— Espere aí que eu já volto — disse o senhor Klauss.

Achei que ele ia me emprestar outro livro. Os livros que ele me emprestava eram velhos e fedidos, alguns sem capa e sem desenhos. Mas eu não ligava, ele me emprestava com muito carinho e dizia que a leitura era a melhor das escolas. Ele pedia para que eu lesse muito, porque assim eu ficaria muito inteligente e conheceria o mundo e as pessoas.

Ele estava demorando, eu queria entrar na casa, mas fiquei com medo e então, eu gritei o seu nome. Eu também precisava ir almoçar. Então, ele apareceu na porta, devagar e disse:

— Ohayô, menina.

— Ãh?

— Menina, o que você traz aí na sua sacola?

Eu estava sem sacola e estranhei. Aí ele disse de novo:

— Ohayô, menina.

— Ohayô…

— Menina, o que você traz aí na sua sacola?

E aí eu saquei. Ele queria mais um prato de sopa, ele adorava sopa. Na hora eu pensei que essa repetição fosse o jeito dele pedir mais sopa. Achei engraçado e corri pra casa pra pedir outro prato pra minha mãe. Ela achou estranho, mas como ela tinha um coração mole, ela fez outro prato pro senhor Klauss.

Lá estava ele na porta, me esperando. Voltei rápido, com mais um prato de sopa.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— Hoje eu trouxe o seu almoço, uma sopa quentinha. Sinta o cheiro. Não está maravilhoso?

— Espere aí que eu já volto — disse o senhor Klauss.

Dessa vez eu não esperei. Se ele pedisse outro prato de sopa, a minha mãe ia me dar a maior bronca, então eu voltei correndo pra casa, feliz da vida. Ele adorava missoshiru. Era sempre assim, todos os dias, até que eu ganhei um cachorrinho lindo. Um pequinês todo branco. Eu o chamei de Maru, por causa do navio que trouxe os meus avós do Japão. O senhor Klaus não gostava muito do Maru, porque ele entrava e saía correndo da sua casa, fazendo a maior folia e latindo muito.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

Dessa vez eu dei um susto no senhor Klauss. Eu havia colocado o Maru dentro da sacola e quando ele foi olhar, o Maru deu o maior susto nele, latindo muito alto. Ele ficou muito bravo e bateu a porta na nossa cara. O Maru e eu ficamos tristes, o senhor Klauss ficou muitos dias sem aparecer na porta.

Mas depois de uns dias ele apareceu e nem se lembrava mais do susto e do Maru. Mesmo assim eu pedi desculpas.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola? — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses?

Nesse dia fui eu quem ficou triste, já fazia meses que eu falava o meu nome pro senhor Klauss e ele nunca conseguia decorar. E também não conseguia decorar o nome do Maru. Sempre brigava com o Maru, chamando-o de cãozinho peralta.

Mas não adiantava, todo dia era a mesma coisa. Eu até repetia várias vezes o meu nome pra ele tentar decorar. Eu ficava zangada. Na hora ele dizia o meu nome, HIROMI, e eu gostava de ouvir, mas logo depois me chamava de menina de novo.

Fiquei muito brava.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola? — disse o senhor Klauss com o pensamento distante. — Eu já te contei sobre o navio japonês que trouxe os imigrantes japoneses? Na Amazônia, os moradores de Tomé-Açu tentaram a criação do bicho-da-seda, que era muito cultivado pelos japoneses.

O senhor Klauss andava muito estranho ultimamente, muito triste e cansado. As vezes ele me olhava e parecia não me reconhecer. Ele nem brigava mais com o Maru por ele entrar e sair correndo da sua casa. Todos os moradores da vila estavam preocupados com o senhor Klauss. Tentaram achar o tal do Antônio para avisá-lo, mas não o encontraram.

Nesse período eu acabei pegando catapora e fiquei duas semanas de cama e não pude sair de casa. Estava com saudades do senhor Klauss e pedia pra ir vê-lo, mas a minha mãe não me deixava, dizia que a doença era contagiosa e eu não podia passar para as outras pessoas.

Numa manhã eu ouvi uma barulheira na vila. O Maru ficou latindo feito louco. Depois vi uma ambulância saindo da vila. Perguntei o que estava acontecendo, achei que eu ia ser internada no hospital, que medo eu senti.

Depois de alguns dias o médico me deu alta, eu estava curada. A minha mãe trouxe uma caixa meio velha e me deu. Achei muito estranho, mas ela pediu que eu a abrisse. Quando eu a abri, dentro estavam vários papeizinhos com o meu nome escrito. No fundo da caixa, o mangá que o senhor Klauss sempre me emprestava.

Eu não estava compreendendo nada, mas depois eu entendi tudo. Naquele dia da ambulância o senhor Klauss havia morrido, e encontraram a caixa na casa dele.

Minha mãe me explicou que o senhor Klauss sofria de uma doença muito triste, alzheimer, a doença da memória, e talvez ele tivesse escrito várias vezes o meu nome para não se esquecer.

Eu passei dias chorando, principalmente quando passava pela porta do senhor Klauss. Não pude me despedir dele, por que eu tinha que ter ficado doente? Por que eu tinha que ter ficado brava com ele?

Eu não sabia, ninguém nunca tinha me falado dessa doença. Às vezes eu achava o esquecimento dele divertido.

— Ohayô, senhor Klauss.

— Ohayô, menina.

— Eu já falei pro senhor que o meu nome é Hiromi, mas pode me chamar de Hiro.

— Hiro, o que você traz aí na sua sacola?

— A caixa que o senhor deixou pra mim. Eu escrevi várias vezes o seu nome também, assim eu nunca vou me esquecer do senhor.

Obs: Este contito já foi publicado também em:

Retratos Japoneses no Brasil Literatura Mestiça, organizada pela Marília Kubota, escritora e editora do JORNAL MEMAI, juntamente com Jiro Takahashi (editor da Editora Prumo).

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