Minientrevista: Graça Lima

[ Minientrevista com a renomada escritora e ilustradora Graça Lima, lá da Cidade Maravilhosa ]

Obs.: Porta-retrato Folha (autor desconhecido), dobrado por Tereza Yamashita.

O trabalho da Graça Lima nós (Nelson, Érica e eu) conhecemos há muitos anos. Temos vários de seus livros, que são simplesmente obras de arte. Somos seus fãs! E além do mais somos muito sortudos, pois ela já ilustrou dois dos nossos livros: O leão que achava que era domador, do Nelson de Oliveira, pela editora Mercúrio Jovem, e Nosso gato desbotado, do qual sou coautora com o Luiz Bras, pela editora Callis. Primeiro este livro foi lançado no México e depois aqui, no Brasil. Enfim, fiquei muito contente por ter encontrado a Graça no facebook e por ela ter aceitado participar desta minientrevista. Muito obrigada, Graça! Foi uma honra tê-la aqui no Abraços Dobrados. Valeu!


O que levou você a se dedicar aos livros infantojuvenis?
GL: Eu fiz meu primeiro trabalho com 14 anos. Eu ia para um clube perto de minha casa, encontrar os amigos,  e ficava  desenhando. Um dia, o diretor do clube me propôs fazer a decoração para o Carnaval. Eu não sabia desenhar em grandes escalas e eram painéis de 15 por 3 metros. O tal diretor, então, contratou uma cenógrafa francesa que acabara de chegar ao Brasil para trabalhar no início da TV Globo. Ela me ensinou a desenhar em escala. Ganhei o primeiro lugar do concurso de clubes, desse ano, na cidade . Isso foi muito importante, pois defini que iria ser pintora muralista. Quando entrei para a Escola de Belas Artes, descobri que o mercado de pintura mural, no Brasil, praticamente não existia, então fiz design gráfico. Eu era professora de primeiro grau e queria estimular a escrita e a leitura dos alunos. Comecei a pensar em livros com narrativa de imagem para os alunos criarem o texto, mas não tinha noção de como fazer os livros. Trabalhei com o Ziraldo e tive muito contato com a área  editorial. Lá, eu conheci meu grande amigo e cumpadre, Roger Mello, e publicamos juntos nossos primeiros livros, que eram narrativas de imagem. Então, foi assim que comecei  a trabalhar com livro.

Em sua infância, quais os autores de que você mais gostava e quais os que mais a influenciaram?
GL: Quando eu era pequena não havia essa enormidade de oferta de leitura. Havia vendedores de coleções que iam em casa. Eu tinha uma coleção de livros que chamava O mundo da criança, onde havia textos traduzidos e muito bem  ilustrados. Minha mãe lia para nós todos os dias. Eu não sabia ler, mas me dedicava horas na leitura daquelas imagens, que criavam milhares de textos na minha cabeça. Minha mãe era mineira e uma excelente contadora de histórias, muitas inventadas na hora e inspiradas por coisas do cotidiano. Ela nos incentivava muito. Na escola líamos Lobato, Condessa de Segur, Laura Ingalls Wider, Contos de Grimm

Qual a sua opinião, como escritora e ilustradora, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?
GL: Acho que a literatura infantil no Brasil mudou muito a partir de 1970. O objeto livro mudou radicalmente nesse momento. Com a lei de obrigatoriedade de inserção de literatura  na escola, o leitor iniciante passa a ter acesso a um tipo de livro que antes não era comum. De 70 pra cá vejo o mercado oscilar para melhor e pior. Hoje temos uma produção gráfica que produz um produto de qualidade, mas o conteúdo tanto imagético quanto literário não é necessariamente bom — muito pelo contrário. Noto que há um despreparo e uma certa permissão incondicional para se editar. Não se procura manter produtos de qualidade por longos tempos. Grandes textos morrem logo, detonados pela febre constante de novidades.

Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas acham a literatura adulta superior?
GL: Eu acho que textos literários de qualidade independem da faixa etária. O livro infantil ilustrado é a reunião de duas linguagens artísticas, que pode atingir adultos e crianças enquanto objeto de qualidade, enquanto obra de arte. Eu creio que a escrita, assim como a imagem, são criações onde o autor se dedica ao fazer artístico muito mais do que pensar o público que irá atingir, porque se pretende sempre trabalhar o mais abrangentemente possível com a emoção. Acho que existe, talvez, um preconceito acerca da literatura feita para crianças, pelo grande número de textos de baixa qualidade  que encaram a criança como um ser incapaz.

O que diferencia a criança que lê da que não lê?
GL: Olha, essa é uma pergunta complicada, porque eu vejo leitura como um processo muito amplo, um processo que envolve vários tipos de percepção. Para  ser leitor não basta ser alfabetizado e ler palavras. O leitor deve estar pleno de leituras de muitas naturezas, ou seja, ele pode ler textos de várias procedências e tecidos culturais. Eu posso ler imagens, posso ler um texto musical, posso ler o texto de uma comida que envolve sabores e fragrâncias, assim como vários outros exemplos. Então, considero que a criança, tendo um repertório cultural variado, composto de vários textos, será um produtor de textos diversos durante sua vida. A escrita e a forma como manifesta sua expressão será rica, pois será fruto de várias leituras. Ler muitos livros não significa necessariamente que o resultado final será um ser mais sofisticado em sua formação. Há de se pensar o que e como se lê.

Você já ganhou vários prêmios como ilustradora. Na sua opinião, qual a importância desses prêmios para a literatura infantojuvenil?
GL: A premiação é legal na medida em que incentiva produtos de qualidade. O que acho importante mesmo é que as pessoas busquem o trabalho de burilar, aperfeiçoar, estudar, crescer dentro daquilo que  produzem. O prêmio deve vir como consequência, pois não é raro sabermos que nem sempre o melhor é o que é premiado. Cada prêmio depende de critérios pessoais dos avaliadores. Pra mim, sinceramente, o grande prêmio é saber das histórias que surgiram a partir das crianças que tiveram acesso a um livro que eu fiz, ou seja, o que o meu trabalho suscitou nelas.

Graça Lima é carioca, graduada em Comunicacão Visual pela EBA/ UFRJ. É Mestre em Design pela PUC/RJ e Doutoranda em Artes Visuais na linha Imagem e Cultura da EBA/UFRJ. Possui diversificada experiência na área de Artes. Trabalha com ilustração e design, tendo mais de cem livros publicados com seu trabalho. Recebeu o premio Jabuti quatro vezes, assim como vários outros prêmios no Brasil e no exterior.

Mantém os blogues:Capa Dura em Cingapura e

Graça Lima – Desenhos: http://gracalimadesenhos.blogspot.com.br/

No face: http://www.facebook.com/graca.lima.75

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