Minientrevista: Tino Freitas

[Minientrevista com o escritor e mediador de leitura Tino Freitas, direto de Brasília]

Obs.: Porta-retrato cubo, módulo Sonobe, dobrado por Tereza Yamashita.
Foto do escritor by Dante Accioly.

Não me lembro exatamente quando enviamos uns dos nossos infantojuvenis para o Roedores de Livros, pois gostamos muito do projeto. Queríamos contribuir com nossas histórias. E foi assim que o Tino Freitas entrou em contato conosco, no Achados & Perdidos. De lá pra cá, temos nos ciberencontrado aqui e ali. Agora o Tino colocou as suas histórias também no papel, e nos enviou os seus dois livros mais recentes, muito criativos e saborosos por sinal. E assim resolvi fazer esta minientrevista. Que bom que ele topou! Se deliciem com as respostas criativas e provocantes desse super-roedor de livros.

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O que levou você a se dedicar aos livros infantojuvenis?
TF.: Essa vontade nasceu com o desenrolar da minha participação no projeto Roedores de Livros. Fazendo a mediação de leitura com as crianças que atendemos, ampliei o repertório de leituras e, com o olhar atento que sempre tive, fui me sentindo instigado a contar as histórias que surgiam a partir daquela vivência.

tino-freitasTino Freitas com o Ziraldo

Em sua infância, quais os autores de que você mais gostava e quais os que mais o influenciou?
TF.: Na minha infância fui um leitor compulsivo de gibis. Morava no interior, onde não tinha livraria. Para compensar, vivia na banca de revista do seu Zé Campos. Foram as histórias dos personagens da Disney, de Maurício de Souza, da Marvel e da DC Comics que me ensinaram a ler. Esses foram meus mestres na arte de gostar de ler. Mas os mascates vendiam coleções que meus pais compravam. Na linha de literatura infantil, lembro de dois volumes da Coleção Mundo Da Criança com histórias clássicas dos Irmãos Grimm que eu lia e relia. E outro livro – que não sei a autoria – grandão e de capa branca, que contava histórias do nosso folclore. Mas eu lembro que ficava de plantão nas bancas para comprar os livros+disquinho da Coleção Taba, cheia de histórias de Joel Rufino dos Santos, Ruth Rocha e Sylvia Orthof. Aliás, depois de grande, as obras de Ruth e Sylvia são fonte de grande inspiração para mim. Ah, depois dos dez anos, li – pois constava do programa da escola – e adorei os livros da série Cachorrinho Samba (Maria José Dupré) e aqueles clássicos da Ática (O Caso da Borboleta Atíria, O Escaravelho do Diabo etc.). Mas, naquele contexto de cidade do interior em que eu vivia (primeiro no Piauí, depois na Bahia), era a banca de revistas o meu porto para o mundo da fantasia.

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Qual a sua opinião, como escritor, sobre a literatura infantojuvenil contemporânea?
TF.: Há uma concentração da produção da LIJ nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Isso não é nenhuma novidade. Há ainda uma produção e um público leitor maravilhoso no Rio Grande do Sul, mas é uma literatura que ainda não explodiu nacionalmente, porém tem condições de se manter mesmo concentrada naquela região. Mas é preciso ouvir o Brasil, e outros mercados estão começando, porém com muita gente se lançando escritor sem ter um compromisso com a infância. Se escreve muito para alguma coisa. E mesmo quando não se escreve para isso ou aquilo, a editora, livraria ou mesmo o professor rotulam os textos: Cultura Africana, Inclusão, Filosofia, Campanha da Fraternidade etc. Se escreve muito para vender livro para o Governo. Falta – na LIJ contemporânea – mais disposição para escrever e publicar para criança. Textos leves, divertidos, emocionantes, inteligentes que queiram – antes de tudo – contar uma boa história.

 

Você acha que há preconceito contra a literatura infantojuvenil, que as pessoas acham a literatura adulta superior?
TF.: Há preconceito, claro. Acha-se siplesmente que a LIJ é inferior, menor, que exigiu menos esforço intelectual pelo pouco número de páginas, enfim. Quando vou a uma livraria compro literatura (seja adulta ou infantil) para o meu consumo, para o meu deleite. Me emociono com André Neves tanto quanto com Marçal Aquino. Tanto faz. É literatura. Carvoeirinhos, de Roger Mello, é um livro de arte. Ponto. Que pode ser admirado de formas distintas por crianças e adultos. A literatura adulta, muitas vezes, não pode ser compreendida por uma criança, mas o contrário deveria ser uma constante. Uma criança pode não entender ou não se sentir impelida a ler Milton Hatoum – e isso eu entendo. Falta tutano. Mas falta outro tipo de tutano ao adulto que se nega a visitar uma seção de literatura infantil apenas porque não tem filhos, sobrinhos ou netos a quem presentear. Deixe-o comigo uns cinco minutos que o convenço a levar pelo menos uns quatro livros que poucos escritores de literatura adulta teriam a perícia em escrever com o mesmo encantamento. Cito aqui dois clássicos que sobrevivem ao passar do tempo (A Árvore Generosa, de Shell Silverstrin, 1964; e Flicts, de Ziraldo, 1969) e dois contemporâneos (O Matador, de Wander Piroli, 2008; e O Menino, O Cachorro / O Cachorro, o Menino, de Simone Bibian, 2006). São livros sem rótulos. Para leitores de todas as idades.

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Tino, como você trabalha com contação de histórias, na sua opinião o que diferencia uma criança que tem mais acesso à leitura e aos grupos como o seu, das crianças que não leem e não têm a sorte de ouvir um contador de história?
TF.: Acredito que a leitura na infância, antes de tudo, é um instrumento de afeto. Os pais deveriam ler para o filho em casa, num passeio à livraria, contar uma história numa reunião da família. Isso fortalece o laço afetivo e alimenta a criança com uma vitamina imprescindível para seu futuro criativo: a fantasia. Com ela, a criança se enche de conteúdo, felicidade, coragem e determinação para construir uma vida melhor. Muitas vezes, ter acesso à leitura não quer dizer que a criança seja um leitor. E, é claro, existem muitas crianças que sequer têm condições sócio-econômicas de conviver com um universo próximo do livro. No projeto Roedores de Livros, encontramos crianças carentes de literatura, como pode haver em qualquer lugar. Já fui a algumas escolas de nível (???) em que há uma competição que premia a criança que leu a maior quantidade de livros. Não é a quantidade de livros ou até livros mais grossos que outros que vai formar um melhor leitor. Não basta ter acesso se não se apresenta o livro como um instrumento de prazer. Depois da aula, a criança vai encontrar no seu quarto uma estante com alguns livros e o videogame ao lado da TV. Qual o brinquedo que ela vai preferir? Mas se é possível – em casa, na escola ou em ambientes externos, como um bom projeto de incentivo à leitura – convidar a criança para um momento afetivo com o livro, é possível que ao chegar em casa ela queira – também – se divertir lendo uma boa história. Depois ela vai brincar de videogame. Uma coisa não exclui a outra. Mas ambas devem ser prazerosas para despertar o desejo da criança. E a leitura, definitivamente, é instrumento de um futuro mais rico em escolhas, em cidadania, em qualidade de vida.

Tino Freitas é músico, jornalista, escritor de livros para a infância e mediador de leitura do projeto Roedores de Livros que, desde 2006, trabalha com incentivo à leitura junto a crianças no entorno de Brasília – DF. Tem três livros publicados: Cadê o Juízo do Menino?(incluído na lista Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano da Revista Crescer – junho 2010)

e Controle Remoto foram publicados pela Manati e ilustrados por Mariana Massarani. Já Brasília de A a Z foi publicado pela Salesiana e ilustrado por Kleber Sales.

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Os Roedores de Livros
Desde 2006 despertamos o gosto pela leitura através da mediação de leitura, oficinas de artes plásticas e música ao vivo. Em 2007 acontecemos no entorno de Brasília onde vivenciamos literatura e solidariedade com quarenta crianças. O projeto é voluntário. Seja bem-vindo ao nosso universo. Este é um espaço para todos que queiram se aproximar da literatura infantil. Além de conhecer nossas atividades, o visitante encontra dicas de livros e outras referências sobre cultura infantil.

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No face: https://www.facebook.com/de.tinofreitas?ref=ts&fref=ts

1551654_570461213037984_1937375672_n-1Mãos Mágicas no Roedores de Livros. Arigatô!

https://yamashitatereza.wordpress.com/2014/01/15/maos-magicas-em-brasilia/

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6 pensamentos sobre “Minientrevista: Tino Freitas

  1. Conheci o Projeto Roedores de livros pela tv.
    Sou bilbiotecária e estou aposentada há 5 anos.
    Gostaria de conhecer e quem sabe até futuramente integrar à equipe.
    Gostaria de saber telefone de contato e endereço da oficina e fazer uma visita.
    Obrigada Nira

  2. Gostaria de contatar o Tino Freitas ou mesmo outro integrante do Projeto Roedores de Livros. Poderia me informar um e-mail ou telefone? Ou poderia enviar meu contato para eles?
    Saiba que meu objetivo é conhecer um pouco mais sobre o projeto e, talvez, até mesmo, visitar-lhes no dia 12 ou 13 de Abril de 2012, pois estarei em Brasília.

    • Prezado (a),

      Obrigada pela visita ao Abraços Dobrados.

      Já encaminhei o seu comentário para o Tino Freitas, assim ele entrará em contato direto com você, ok?

      Abraços Dobrados,

      Tereza

  3. conheço Tino Freitas passou na minha escola minha sala entrevistou ele e todos nos pedimos autógrafos e conversamos com ele .Ele é gente boa e engraçado adorei a entrevista!!!!

    • Oi, Gabriela.
      Obrigada pela visita. Ele é um autor boa gente mesmo, apesar de conhece-lo apenas virtualmente, por e-mails e pela literatura, rs.
      Que bom que gostou da mini. Quando puder, confira a mini dos outros autores, ok?
      Abraços Dobrados

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